Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun, é um filme irreverente, e eu gosto de filmes irreverentes. Há nele uma matriz estilizada cuja ambição excede, por vezes, o alcance da própria história. Contudo, prevalece um casamento feliz entre o plano narrativo, as alegorias e a roupagem que as cobre.
Interpretada por Hannah Einbinder, Kris é uma jovem realizadora incumbida de reinventar Camp Miasma, uma série de slashers manchada por sucessivas más sequelas. O interesse pela protagonista do original leva-a até Billy Presley, a atriz fictícia a quem a real Gillian Anderson empresta o fulgor e a excentricidade de uma estrela (de)cadente. O encontro com esta mulher, que vive isolada no antigo acampamento das filmagens e conhece intimamente o universo da saga, faz de Kris matéria da própria reimaginação. Quanto mais se aproxima de Billy, mais a tentativa de compreender a ficção a confronta com o próprio desejo.
É, aliás, nessa aproximação que Einbinder torna percetível a distância entre a desenvoltura intelectual de Kris e o embaraço que a intimidade lhe provoca. Anderson, por sua vez, deixa que a afetação e a sensualidade de diva convivam com uma franqueza desconcertante, particularmente quando Billy confronta o discurso académico da jovem cineasta com a simplicidade “da carne e dos fluidos” do primeiro Camp Miasma. A ironia alcança também Schoenbrun, que dispensa algumas cerimónias com a tentação de transformar o entusiasmo cinéfilo numa defesa de tese.
Embora admita esse olhar sobre si próprio, o filme não se retém na metalinguagem e conjuga-a com o engenho e o fervor de fã, esquivando-se à soberba pseudo-intelectual que facilmente poderia tomar conta da proposta. Há vontade de fazer arte, daquela que retira a história de alguém à mera sucessão cronológica dos acontecimentos e a converte num repertório de símbolos e referências familiares.
Inscrever a génese da obra no seu próprio desenvolvimento é uma abordagem autoral recorrente e, por conseguinte, um teste à originalidade de quem a pratica. Em muitos filmes, os significados perdem-se entre as metáforas, e o esforço de os decifrar impede-nos de desfrutar do resto. Porém, aqui, interessa-me precisamente a disposição para correr tal risco em busca de uma expressão pessoal que possa tornar-se memorável.
À luz do percurso queer de Schoenbrun e da experiência após a transição que informa o filme, a descoberta do prazer envolve aqui a possibilidade de o viver sem a distância que Kris mantém em relação ao próprio corpo. Quando Billy partilha o seu passado junto à fogueira, a intimidade surge como algo que se pode reconstruir apesar do trauma, respeitando o tempo de quem ainda está à procura.
A possibilidade de avançar ao próprio ritmo chega mesmo a encontrar uma formulação curiosamente incisiva no antigo slogan que Kris lê num cartaz guardado por Billy, «If it gets too real, you can always turn it off». A frase junta-se à lembrança de uma fome persistente, «He’s still down there, you know, at the bottom of the lake, he’s still hungry», para sugerir um desejo que merece atenção e alimento, sem exigir disponibilidade para tudo.
A dinâmica entre as duas personagens principais incita ao reconhecimento da encenação e à sua tomada de posse, permitindo, assim, que o artifício também contribua para a autenticidade. É com essa abertura em mente que acolho a entrega ao precipício do ridículo, assumida tanto por convicção artística como por descendência direta de Friday the 13th, Sleepaway Camp e A Nightmare on Elm Street.
E, para quem estranhe o atrevimento, peço que dê uma oportunidade a Teenage Sex and Death at Camp Miasma. Sobretudo, se, tal como eu, são fãs de cenas inusitadas como a de Dream Warriors, o terceiro A Nightmare on Elm Street, em que Freddy Krueger emerge de um televisor, brinda Jennifer com um delicado «Welcome to primetime, bitch!» e lhe enfia a cabeça pelo ecrã.