Teenage Sex and Death at Camp Miasma

por Pedro Rolino

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte cruza desejo, terror e metalinguagem numa obra autoral e irreverente de Jane Schoenbrun.

Título Português Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Ano 2026
Realizador Jane Schoenbrun
Elenco Jack Haven, Hannah Einbinder, Jasmin Savoy Brown
País Canadá, Reino Unido, EUA
Duração 112min
Género Comédia, Drama, Terror, Romance, Suspense
Teenage Sex and Death at Camp Miasma
7/10

Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun, é um filme irreverente, e eu gosto de filmes irreverentes. Há nele uma matriz estilizada cuja ambição excede, por vezes, o alcance da própria história. Contudo, prevalece um casamento feliz entre o plano narrativo, as alegorias e a roupagem que as cobre.

Interpretada por Hannah Einbinder, Kris é uma jovem realizadora incumbida de reinventar Camp Miasma, uma série de slashers manchada por sucessivas más sequelas. O interesse pela protagonista do original leva-a até Billy Presley, a atriz fictícia a quem a real Gillian Anderson empresta o fulgor e a excentricidade de uma estrela (de)cadente. O encontro com esta mulher, que vive isolada no antigo acampamento das filmagens e conhece intimamente o universo da saga, faz de Kris matéria da própria reimaginação. Quanto mais se aproxima de Billy, mais a tentativa de compreender a ficção a confronta com o próprio desejo.

É, aliás, nessa aproximação que Einbinder torna percetível a distância entre a desenvoltura intelectual de Kris e o embaraço que a intimidade lhe provoca. Anderson, por sua vez, deixa que a afetação e a sensualidade de diva convivam com uma franqueza desconcertante, particularmente quando Billy confronta o discurso académico da jovem cineasta com a simplicidade “da carne e dos fluidos” do primeiro Camp Miasma. A ironia alcança também Schoenbrun, que dispensa algumas cerimónias com a tentação de transformar o entusiasmo cinéfilo numa defesa de tese.

Embora admita esse olhar sobre si próprio, o filme não se retém na metalinguagem e conjuga-a com o engenho e o fervor de fã, esquivando-se à soberba pseudo-intelectual que facilmente poderia tomar conta da proposta. Há vontade de fazer arte, daquela que retira a história de alguém à mera sucessão cronológica dos acontecimentos e a converte num repertório de símbolos e referências familiares.

Inscrever a génese da obra no seu próprio desenvolvimento é uma abordagem autoral recorrente e, por conseguinte, um teste à originalidade de quem a pratica. Em muitos filmes, os significados perdem-se entre as metáforas, e o esforço de os decifrar impede-nos de desfrutar do resto. Porém, aqui, interessa-me precisamente a disposição para correr tal risco em busca de uma expressão pessoal que possa tornar-se memorável.

À luz do percurso queer de Schoenbrun e da experiência após a transição que informa o filme, a descoberta do prazer envolve aqui a possibilidade de o viver sem a distância que Kris mantém em relação ao próprio corpo. Quando Billy partilha o seu passado junto à fogueira, a intimidade surge como algo que se pode reconstruir apesar do trauma, respeitando o tempo de quem ainda está à procura.

A possibilidade de avançar ao próprio ritmo chega mesmo a encontrar uma formulação curiosamente incisiva no antigo slogan que Kris lê num cartaz guardado por Billy, «If it gets too real, you can always turn it off». A frase junta-se à lembrança de uma fome persistente, «He’s still down there, you know, at the bottom of the lake, he’s still hungry», para sugerir um desejo que merece atenção e alimento, sem exigir disponibilidade para tudo.

A dinâmica entre as duas personagens principais incita ao reconhecimento da encenação e à sua tomada de posse, permitindo, assim, que o artifício também contribua para a autenticidade. É com essa abertura em mente que acolho a entrega ao precipício do ridículo, assumida tanto por convicção artística como por descendência direta de Friday the 13th, Sleepaway Camp e A Nightmare on Elm Street.

E, para quem estranhe o atrevimento, peço que dê uma oportunidade a Teenage Sex and Death at Camp Miasma. Sobretudo, se, tal como eu, são fãs de cenas inusitadas como a de Dream Warriors, o terceiro A Nightmare on Elm Street, em que Freddy Krueger emerge de um televisor, brinda Jennifer com um delicado «Welcome to primetime, bitch!» e lhe enfia a cabeça pelo ecrã.


Partilha com os teus amigos