Sendo fã confesso de Sam Raimi, sentia uma expectativa inevitável em torno de Send Help. Com um argumento assinado por Damian Shannon e Mark Swift, o filme apresenta-se como um excelente brinde do realizador ao cinema de entretenimento, executado com a vitalidade de quem continua a encontrar um prazer genuíno no artifício, no excesso e na manipulação consciente das formas populares.
Nesta narrativa, Rachel McAdams veste a pele de Linda, uma mulher que, após um desastre aéreo, se vê isolada numa ilha deserta com Bradley, o seu chefe condescendente e egocêntrico, interpretado por Dylan O’Brien. Mesmo nos minutos iniciais, ainda dentro da banalidade e das pequenas humilhações de uma relação profissional assimétrica, nota-se a interferência de um olhar distinto sobre a realidade imediata, através de uma excentricidade acentuada pela composição sonora de Danny Elfman, colaborador habitual nestas andanças, e pela utilização quase agressiva dos movimentos de câmara tão característicos de Raimi.
A transição para o conflito central ocorre com o acidente de avião, instante a partir do qual os elementos de horror físico e os efeitos especiais intencionalmente excessivos assumem espaço. A abordagem recorre à violência gráfica como uma forma de expressão estilística, simultaneamente cómica e perturbadora, construindo uma coreografia de caos sangrento que serve de vénia ao legado que o cineasta vem erguendo desde The Evil Dead. O filme consegue equilibrar estes traços técnicos com um humor negro que funciona tanto melhor quanto mais se apoia na sua execução, contornando, assim, a natureza genérica que o acomete pela proximidade aos clichês das tramas de sobrevivência em que as personagens partilham uma antipatia mútua.
No que toca aos protagonistas, Rachel McAdams explora aqui uma faceta pouco habitual na sua carreira, e a expressividade com que agarra a vilania de Linda mostra uma versatilidade favorável à história. Há nela um desespero e uma solidão anteriores ao desastre, que acabam por se transformar numa psicose calculista perante a vulnerabilidade de um homem inútil, capaz de se tornar na solução perversa para o vazio. Dylan O’Brien, enquanto Bradley, esse mesmo homem, representa bem o lado mais mesquinho e fútil da autoridade corporativa, o chefe odioso e dependente que todos gostaríamos de deixar entregue à própria incompetência numa ilha deserta.
À medida que o confronto físico se intensifica e as barreiras morais se diluem, o filme aproxima-se de um terror mais cru e direto. Sam Raimi sente-se visivelmente confortável nesta progressão, encerrando o terceiro ato com a apoteose à la femme fatale de Linda, ao som de One Way or Another dos Blondie. A última cena, em que se dá a quebra da quarta parede, funciona como uma aproximação cúmplice ao espectador, confirmando que tudo o que vimos foi uma peça orquestrada por um autor que prefere celebrar o potencial sádico e artesanal do cinema a levar-se demasiado a sério.