La La Land

por Edite Queiroz

Talvez não seja o filme do ano, mas quando o virem no cinema, será o highlight do vosso dia.

Título Português La La Land
Ano 2016
Realizador Damien Chazelle
Elenco Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, Rosemarie DeWitt
País E.U.A.
Duração 128min
Género Comédia, Musical
La La Land
8.5/10

De todos os géneros cinematográficos, o musical é indiscutivelmente o mais detestado. Sendo verdade que o género teve os seus tempos áureos, muitos dizem que o musical está hoje morto, moribundo, ou não devia sequer ter nascido. É neste contexto que nos chega a terceira longa-metragem de Damien Chazelle, um cineasta muito jovem e com vários prémios no currículo à conta do seu segundo filme, Whiplash (2014). Responsável pela realização e pelo argumento, Chazelle pôde aqui aliar o prazer do cinema a outra das suas grandes paixões – o jazz, que tinha já sido o seu tema em Whiplash e do qual é grande apreciador e antigo intérprete. A história decorre numa Los Angeles technicolor onde, como não poderia deixar de ser, um rapaz conhece uma rapariga o amor acontece; ela quer ser actriz, ele quer tocar piano no seu próprio clube, mas a terra dos sonhos, palco onde escolhem viver a sua vida e respectivos anseios artísticos, acaba por esmaga-los sob o peso das aspirações que permite realizar. Como chega então um musical ao estatuto alcançado por La La Land, um filme de enredo tão simples, fórmula tão repisada e género tão repudiado?

Pois o grande truque de La La Land é a sua audácia, aliada a uma total ausência de pretensiosismo. Assumindo-se como uma simples fantasia, certamente sem pretender devolver o musical ao lugar cimeiro na estética cinematográfica que um dia ele ocupou, o filme apela àquele lugar recôndito da alma adulta onde ainda vive uma criança deslumbrada com imagens em que as pessoas cantam, voam e dançam sobre as estrelas. Repleto de elementos anacrónicos (presentes nas cores da fotografia, nos figurinos, nas imagens do passado inscritas nos muros, fachadas e outdoors), o filme tem uma aura retro que homenageia a era dourada do cinema, desde a cena de abertura – um impressionante plano-sequência com 30 dançarinos, 60 carros e 100 figurantes – que parece uma versão contemporânea das coreografias superpovoadas de West Side Story, à cena de sapateado no miradouro, em jeito de versão doce-amarga de You Were Meant For Me, dueto de Gene Kelly and Debbie Reynolds em Singing In The Rain.

A humildade de La La Land estende-se às reminiscências dos pares românticos do cinema clássico evocadas pelo par central – Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) – que aqui entrega uma grande lição do que significa ser actor: assumindo as suas fragilidades performativas, mas ainda assim cantando, dançando, sapateando, tocando piano com relativa destreza. Emma Stone, já se sabia, é uma força da natureza, uma actriz com especial talento para a comédia e uma expressividade incrível que lhe permite transitar entre a adolescente ingénua e a femme fatale em dois segundos. Quanto a Ryan Goslin, dificilmente o conseguiríamos imaginar num papel tão convincente e simultaneamente tão apartado do estereótipo de personagens que tem desempenhado. O argumento, que recupera a imagem de uma L.A. simultaneamente onírica e implacável, explora a tensão intemporal entre a ambição e o amor, e fá-lo de uma forma refrescante: ao contrário do que poderíamos pensar ao entrar na sala de cinema, talvez o amor nem sempre vença – ou talvez se possa interpretar que a história de amor que aqui se conta, mais do que um romance entre Mia e Sebastian, pretende retratar a relação primordial entre cada um deles e ofício que a vida os impele a abraçar: no caso dela, a representação, e no caso dele, a música. Deste ponto de vista, o filme é efectivamente sobre a vitória do amor sobre todas as coisas: o amor à arte. Last but not least, as coreografias e a música são deliciosas. Partindo do jazz, Justin Hurwitz construiu uma banda-sonora diversa, incorporando-lhes elementos de variados estilos, que resultaram canções que, embora muito simples do ponto de vista musical (City of Stars, magnífica, será o melhor exemplo), certamente permanecerão muito tempo no ouvido.

Sem saber como nem porquê – ou, se calhar, por não se preocupar demasiado com o “porquê” nem com o “como” – o facto é que La La Land se junta este ano aos mais nomeados filmes da história do cinema, arrebatando um total de 14 nomeações para os Óscares. Arrojado mas honesto, tem ritmo e muito humor, canções bem construídas, uma direcção artística imaculada e cenas complexas e longuíssimas, filmadas num só take, que arrebatam o espectador. Tem dois actores que, neste trabalho, levaram mais longe o conceito de representar. Não pretende ressuscitar o género, mas é uma bela homenagem ao cinema clássico, sem deixar de decompor o conto de fadas num final que é tudo menos convencional. Talvez não seja o filme do ano, mas quando o virem no cinema, será o highlight do vosso dia. Afinal, um bocadinho de fantasia nunca fez mal a ninguém. Here’s to the fools who dream.


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