Adaptado de Box Hill, de Adam Mars-Jones, Pillion assinala a estreia de Harry Lighton nas longas-metragens e instala-se, em primeira linha, no universo do BDSM inglês e de uma relação gay moldada pelos seus códigos. Seria fácil tratá-lo como um retrato fechado sobre um meio de nicho, mas Lighton evita esse estreitamento, filmando tudo com um realismo sincero, sem embelezamentos nem dramatizações que toldem o seu verdadeiro interesse: explorar temas como a autoestima, a complexidade afetiva, o sentimento de pertença e a solidão.
Nesse contexto, Colin, interpretado por Harry Melling, é um jovem tímido, reduzido a uma vida sem grande impulso próprio, que vive com os pais em Bromley, nos arredores de Londres. Ao conhecer Ray, personagem vivida por Alexander Skarsgård, membro de uma gangue de motoqueiros e figura central da relação que se estabelece entre ambos, regulada por lógicas de domínio e submissão sexual, altera-se profundamente a forma como Colin se vê a si mesmo e ao lugar que ocupa no mundo. O filme transmite bem a ideia de que essa transformação não nasce apenas do desejo, mas também de uma grande sede de proximidade. A mãe, doente com cancro, reconhece com uma clareza dolorosa aquilo que o filho ainda ignora, nomeadamente o modo como essa carência o deixa exposto à dureza da ligação.
De facto, Ray trata Colin com uma frieza e uma autoridade quase impessoais, que, mesmo dentro do ambiente que ambos passam a partilhar, se impõem com particular severidade. Ainda assim, Lighton tem o cuidado de não reduzir a dinâmica entre os dois a um esquema moral simplista. Quando Ray sugere à mãe de Colin que considerar necessariamente mau para o filho tudo aquilo que lhe causa desconforto revela uma mentalidade retrógrada, o filme não procura branquear a violência emocional, mas recusar uma leitura automática e alheia ao modo como Colin a vive, já que o facto de ele se agarrar ao propósito que aquela ligação lhe oferece nasce precisamente da sensação de, pela primeira vez, estar a ser escolhido e integrado.
Para uma primeira obra, Lighton realiza com uma segurança louvável. Há uma sobriedade muito consciente na forma como conduz o enredo, bem como um controlo firme do tom, que denunciam uma recusa saudável dos tiques exibicionistas tantas vezes associados às estreias. Harry Melling e Alexander Skarsgård correspondem a essa maturidade com interpretações sólidas, capazes de dar densidade a uma relação envolta em estranheza, mistério e ocasionais laivos de humor.
O desfecho não surpreende e, por isso mesmo, também não desilude, porque, sendo Pillion uma narrativa tão comprometida com a verdade do real, o desencanto acaba por surgir como a consequência mais justa. O vislumbre que oferece do universo sadomasoquista não soa gratuito nem estilizado e, como tal, consegue dialogar com emoções que pertencem a qualquer relação.