On The Milky Road

por Jose Santiago

Esta podia ser a obra de ruptura de um realizador acarinhado pelo grande público, mas há tiques que dificilmente se perdem.

Título Português Na Via Láctea
Ano 2016
Realizador Emir Kusturica
Elenco Emir Kusturica, Monica Belucci, Sergej Trifunovic, Sloboda Micalovic
País Sérvia, Reino Unido, EUA
Duração 125min
Género Drama, Comédia, Fantasia
On The Milky Road
5.5/10

Assim que o filme começa, podemos ler que o mesmo foi inspirado em três histórias reais e muitas fantasias. On The Milky Road conta-nos as peripécias de um homem com um passado de violência. Aparentemente imune ao contexto de guerra em que habita, está decidido em não deixar que o conflito interfira com a sua existência pacata enquanto músico e correio de leite. Sem saber muito bem como, vê-se envolvido numa disputa entre duas mulheres: de um lado, uma italiana procurada por criminosos internacionais e destinada a casar com um veterano de guerra, do outro, a irmã louca desse mesmo veterano.

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É difícil olhar para esta história como outra coisa que não uma história de fadas adaptada aos tempos modernos. O mundo construído, apesar de ter fortes raízes num lugar e num conflito bem real, é pautado por situações que parecem saídas de um livro infantil. Os elementos estão todos lá: dois reinos em guerra, princesas prometidas e um herói espiritualmente ligado aos animais que o rodeiam. No início deixamo-nos emaranhar naquele mundo e rimo-nos com as tropelias criadas por Kusturica, o universo criado é tão forte que nos engana naquela primeira hora em que achamos estar a ver algo de novo, mas a magia rapidamente desvanece e somos confrontados com a dura realidade que é a estagnação de um realizador. O problema pode ter mesmo a ver com a duração do filme, que não é muita, mas é o suficiente para ver ideias esticadas até à exaustão e tornar a experiência verdadeiramente enfadonha. Mas, ainda pior do que isso, é tentar o tipo de comédia pela qual Kusturica é conhecido quando a plateia já não está predisposta a rir e não vislumbra sequer um objectivo na narrativa. O ritmo frenético da primeira parte é substituído por uma lentidão difícil de digerir e por quebras desnecessárias, preferindo sair do caminho para uma qualquer metáfora em vez de tornar o percurso orgânico e uno com a história.

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As interpretações de todos os envolvidos estão completamente de acordo com o tom da trama. Não é fácil julgar uma interpretação sem compreender a língua, mas tudo parece sincero e perfeitamente mesclado com aquele mundo fantástico. Os efeitos digitais, apesar de não serem os melhores, estão perfeitamente de acordo com o universo criado e é especialmente interessante assistir a todo o trabalho feito com animais, é difícil mas acabam eles próprios por se tornar em personagens centrais. Toda a fusão entre realidade e fantasia está extremamente bem conseguida, mas é tudo gasto na primeira metade do filme e quando há pouco para contar, tudo parece inócuo e desprovido de significado, pelo menos até chegarmos ao final. O final do filme faz todo o sentido, é comovente e carregado de significado, o que torna tudo ainda mais trágico.

Esta podia ser a obra de ruptura de um realizador acarinhado pelo grande público, a mais sumarenta e ao mesmo tempo a mais contida, mas há tiques que dificilmente se perdem. Podemos olhar para elementos do filme e aprecia-los pelo que são, mas isso não é ser objectivo e seria falso não achar que o produto tem de ser coeso para ser verdadeiramente apreciado. A magia transforma-se em tédio e a mensagem perde-se na tradução.

 

 


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