Les Deux Amis

por Edite Queiroz

É um filme que certamente não envergonha e, estando longe de ser uma primeira obra de arromba, não deixa de ser promissor.

Título Português Dois Amigos
Ano 2015
Realizador Lous Garrel
Elenco Golshifteh Farahani, Vincent Macaigne, Louis Garrel
País França
Duração 100min
Género Drama romântico
Les Deux Amis
4/10

A primeira longa-metragem realizada pelo actor-mais-sexy-do-mundo (The Glam Mag, Julho de 2016) é uma comédia romântica vagamente inspirada na peça Les Caprices de Marianne (escrita por Alfred de Musset em 1833) que revisita ainda La règle de trois (curta-metragem que Louis Garrel dirigiu em 2011). A história parece seguir as pisadas do trabalho de Christophe Honoré (que, com Louis, escreveu o argumento) e de Philippe Garrel (pai de Louis), autores que quase sempre investigam a natureza do sobejamente abordado ménage-à-trois francês – recorde-se, apenas a título de exemplo, o belíssimo Les Chansons d’ Amour (Christophe Honoré) ou Jealousy (Philippe Garrel, 2013), onde Garrel desempenha um dos vértices dos triângulos. Aliás, os filmes de pai e filho, L’Ombre des femmes (de Philippe Garrel) e Les deux amis, que estrearam no último festival de Cannes, narram as histórias de trios atribulados. Les deux amis segue o drama pessoal de Clément (Vincent Macaigne, Herói Independente do IndieLisboa 2016), um tímido actor que se apaixona por Mona (Golshifteh Farahani), uma jovem em liberdade condicional – durante o dia, ela trabalha no café da Gare du Nord e à noite recolhe ao seu cativeiro. Quando Mona tenta afastá-lo na tentativa de prevenir que Clément descubra a sua situação, Clément pede ajuda ao melhor amigo Abel (Garrel), por quem a rapariga acaba por se interessar (e ele por ela). O resto poderia até adivinhar-se – tendo em conta o trabalho dos cineastas que inspiraram o realizador – no entanto, o filme acaba por oferecer um twist curioso…

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Acontece que a personagem feminina, embora a mais carismática, depressa é relegada para segundo plano em função do aspecto verdadeiramente interessante na narrativa: a relação, nem sempre perfeita, de dois indivíduos cuja amizade é imatura e difícil mas verdadeira. Os momentos mais emocionantes são protagonizados por Macaigne e Garrel, sendo que o primeiro compõe o romântico incurável (uma personagem frágil e doce, que facilmente suscita grande simpatia) e Garrel interpreta a personagem que de modo recorrente lhe assenta (é até lamentável que esteja demasiado preso a esse registo), o galã negligé-délibéré com laivos de narcisismo que arrasa o coração de quantas (às vezes, quantos) lhe ponham os olhos em cima. Assim, apesar do recurso à fórmula demasiado utilizada do trio romântico, este é um filme sobre o vínculo estranho da amizade entre dois seres muito diferentes, aqui apresentando como uma variação do conceito de amor, eventualmente mais forte e vinculatória.

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Em Les deus amis perpassa a jovialidade de um projecto caseiro (Macaigne e Garrel são amigos, Farahani era sua namorada na altura) e sem pretensões exageradas. O seu valor reside precisamente na modéstia do trabalho de direcção e no propósito de contar uma história simples, com bons actores (Macaigne é sempre espantoso e a iraniana Golshifteh Farahani é uma força da natureza), planos rigorosos, fotografia aceitável e uma boa banda-sonora. Em suma, é um filme que certamente não envergonha e, estando longe de ser uma primeira obra de arromba, não deixa de ser promissor. Louis Garrel é um actor de um carisma quase inigualável, mas enquanto realizador necessitará de se distanciar dos códigos cinematográficos das suas influências e de encontrar uma assinatura à altura do seu talento.


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