Good Luck, Have Fun, Don’t Die

por Pedro Rolino

Sam Rockwell brilha, mas a sci-fi de Gore Verbinski falha por excesso de ambição.

Título Português Boa sorte, Diverte-te, Não morras
Ano 2025
Realizador Gore Verbinski
Elenco Sam Rockwell, Juno Temple, Haley Lu Richardson
País EUA, Alemanha
Duração 134min
Género Sci-fi, Comédia, Ação
Good Luck, Have Fun, Don’t Die
4/10

Há um traço recorrente no percurso de Gore Verbinski que ajuda a enquadrar Good Luck, Have Fun, Don’t Die. Entre a exuberância de Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl e o barroco de A Cure for Wellness, a sua filmografia oscila com frequência entre ambição e resultados desiguais. Este novo filme inscreve-se na mesma linha, afirmando desde cedo um ímpeto claro que se sente quer na escala e no arrojo das escolhas, quer nas fragilidades que daí decorrem.

Um homem vindo de um futuro dominado por uma inteligência artificial hostil entra num restaurante e tenta recrutar um grupo de desconhecidos para o ajudar a impedir a catástrofe que, no seu tempo, já aconteceu. Nasce, a partir daí, o tal impulso criativo, quase obstinado, que se traduz numa narrativa fragmentada, construída a partir de sucessivas analepes e de episódios que parecem tecer um comentário demasiado vasto sobre a tecnologia e o nosso lugar num mundo mediado por sistemas autónomos. O desenho aproxima-se, por vezes, de séries como Black Mirror, ainda que sem a mesma precisão ou o rigor na construção das consequências, o que culmina em dispersões frequentes.

No centro, Sam Rockwell assume-se com uma energia imprevisível na sua interpretação, revelando uma capacidade de navegar o excesso sem perder a coerência interna da personagem. Já à sua volta, são principalmente Juno Temple e Haley Lu Richardson que seguem caminhos mais distintos, embora com apontamentos interessantes que nem sempre encontram apuramento suficiente para vingar.

A dimensão mais declaradamente conceptual, centrada na inteligência artificial enquanto força difusa e potencialmente desestabilizadora, revela-se menos incisiva do que a encenação sugere. Isto é, o trabalho visual, com uma câmara que acentua o descontrolo e a fragmentação, reforça a impressão de turbulência contínua. Porém o comentário, presente, por vezes, até com acuidade, mantém-se num plano demasiado abrangente para produzir verdadeiro impacto, faltando-lhe uma delimitação mais clara, uma ideia que organize o discurso e lhe dê consequência.

O desfecho retoma esse registo de inquietação, apoiando-se na visão sombria do poder tecnológico e no desconforto que lhe está associado, e insinuando um horizonte pouco reconfortante. Ainda assim, a sensação que permanece é que, sem embargo da ambição e da personalidade, o filme falha quando insiste numa expansão para lá das suas próprias possibilidades.


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