Dunkirk

por José V. Raposo

Curiosos sobre se o blockbuster de prestígio deste Verão está à altura? Leiam a crítica ali dentro.

Título Português Dunkirk
Ano 2017
Realizador Christopher Nolan
Elenco Kenneth Branagh, Mark Rylance, Tom Hardy, Fionn Whitehead
País Reino Unido, Estados Unidos, França, Países Baixos
Duração 106min
Género Épico, guerra, histórico
Dunkirk
8/10

Em 1939/40 a Alemanha nazi não tardou a invadir meia Europa para arranjar o seu Lebensraum, os pretensos aliados anglo-franco-belgas tardaram a reagir e, quando o fizeram, pagaram caro pela descoordenação e incompetência grosseiras. A criatividade de Erich von Manstein e a foice imaginária de parte do seu plano de operações de Bewegungskrieg fizeram o resto: infiltrar tanques e tropas pelas matas das Ardenas e deixar os Aliados à beira do colapso militar junto ao mar.

Assim desembarcamos em Dunkirk: não há água nem tabaco e o fogo amigo é uma realidade. Perdem-se as espingardas Enfield e ao mínimo sinal de artilharia ou de Stukas, as tropas de sobretudos e capacetes molhados e moral destroçado transformam-se em fósforos caídos na praia, em notável trabalho de câmara. Amontoam-se os mortos e a esperança vai pelo mesmo caminho, enterrada à pressa na areia, afogada na maré esquizofrénica ou encalacrada na fila e sem chegar ao pontão da salvação.

Dunkirk

A claustrofobia da incerteza de Tommy (Fionn Whitehead).

Sete décadas depois, Christopher Nolan (Memento) debruça-se assim sobre a evacuação de Dunquerque, sob três perspectivas cronológicas (The Mole, The Air e The Sea) e pessoais: o alegórico infante Tommy (Fionn Whitehead), o piloto de Spitfire da RAF Farrier (Tom Hardy) e o Sr. Dawson (Mark Rylance), pai de família destroçada pela guerra, que pega noutro filho e num amigo deste, George (Barry Keoghan), e responde ao apelo da Marinha para resgatar as tropas em Dunquerque no seu barco, o Moonstone. Não é inédita esta visão de Dunquerque a vários pares de olhos: já em 1958 Leslie Norman filmou um homónimo igualmente baseado no desespero e na ambiguidade moral de quem viveu a Operação Dínamo. Nem da Segunda Guerra Mundial, vejam-se Battle of Britain ou The Longest Day.

Dawson sénior e o capitão-de-fragata Bolton (Kenneth Branagh; personagem compósita) são as bússolas morais de Dunkirk. Lacónicos e estóicos, a Dawson e ao soldado aterrorizado (Cillian Murphy) pertence o diálogo-pivô do filme; perante os apelos deste para se voltar para trás, responde Dawson: “Os homens da minha idade ditam a guerra. Porque é que enviamos só os nossos filhos para combater? Não podemos voltar para trás, porque se não formos a Dunquerque já não teremos mais casa”.

Dunkirk

O Sr. Dawson (Mark Rylance), voz da razão e encarnação do espírito britânico.

Não estamos em presença de heróis impolutos: roubam-se chapas de identificação, cantis e botas dos mortos, tenta-se embarcar pela porta do cavalo e aproveita-se a confusão no reembarque de unidades para orientar umas torradas, coletes e chá. A fotografia capta a paisagem dos esgares de dor e desespero, emaciados, molhados, cansados e sujos de óleo como se fossem pinturas de Jenny Saville.

Nolan filma, sem melodramas típicos de épicos norte-americanos (já chegava de perspectiva destes sobre a guerra), a desolação, o desalento e a paranóia – neste caso, do soldado traumatizado, resgatado na popa de um navio destruído por um U-Boot. Não articula uma frase, entra em pânico e no confronto físico facilmente e é o primeiro contacto da tripulação do Moonstone com o desastre iminente nas praias. Os alemães são clarões, ruídos de sirenes e vultos sem cara, como burocratas combatentes– não sendo o Fritz caricatural típico de Hollywood ou a criatura mítica de Belyy Tigr.

Dunkirk

Bolton (Kenneth Branagh), voz de comando e de execução de todo o improviso.

Contado em analepse e prolepse e cruzando-se as tramas a dada altura, vemos o fim de muitas personagens antes de lhes vermos o princípio, seja no ar, no mar ou em terra. E o nosso Tommy sempre com a pior sorte do mundo: tenta o embarque ao resgatar uma baixa e é mandado passear, embarca num navio militar e acaba a flutuar com a guarnição sobrevivente e negam-lhe embarque num salva-vidas. Quando se pensa que a situação não podia piorar, piora mesmo (o Murphy riu-se): Collins (Jack Lowden) é abatido e Farrier começa a perder combustível, mais um navio é afundado e a traineira de Tommy, Alex (Harry Styles, num pulha mal agradecido sem vergonha) e do francês “Gibson” (Aneurin Barnard) serve de carreira de tiro improvisada e mete água. O épico de guerra dá lugar ao thriller. O tempo meteorológico continua mau, mas enfim a bonança em forma de centenas de embarcações civis: o povo improvisadamente mobilizado para trazer os seus mais aflitos para casa, em volte-face de situações.

Planos ora abertos (já em Atonement de Joe Wright tínhamos visto um belo plano ininterrupto da zona) ora fechados e música contemporânea de Hans Zimmer, inspirada em Nimrod de Edward Elgar mas raramente tocando na típica fanfarronice sinfónica do género, ajudam à claustrofobia e à incerteza. Se nalgumas sequências é acessório o som extra-guerra, noutras reforça a pulsação pela sobrevivência. A passada é fugaz e não pede maior desenvolvimento de personagens – quem é o nosso melhor amigo por segundos está morto no minuto seguinte, não há tempo para contar como morreu o filho mais velho do Sr. Dawson ou como cresceu o soldado aterrorizado. Ressoa, isso sim, o mito da grande fuga no imaginário da Britishness.

Dunkirk

Exemplar cinematografia de Hoyte van Hoytema.

Dunkirk é um filme simples, sem a tralha emocional de Interstellar nem o explosivo barroco de The Dark Knight Rises, intelectualmente pouco denso (salvar, sobreviver ou morrer), mas moral (as botas e o cantil dos mortos são o meu garante, mas ajudar o camarada também é imperativo) e historicamente (para onde vai a Europa livre depois disto?) profundo: findo o combate militar, começa o combate pela vida e, pelas acções de Tommy, Farrier e dos Dawson, pela dignidade – nossa e do próximo. Salvo o final com o discurso-chavão de Churchill na voz cansada de Tommy, Nolan evita com sucesso a lagriminha e o dramalhão musculado, ficando-se o pathos por um suspiro de alívio colectivo ao avistar-se Dorset – menos para Farrier, por quem espera um Stalag.

Não se podia pedir tudo a Nolan (mesmo com um orçamento colossal), mas convinha não transformar os franceses em meros ladrões de botas desesperados que tentam furar filas, até porque se o anel à volta de Dunquerque não se desfez mais depressa a eles se deveu (e à hesitação de von Runstedt em avançar com os seus tanques) e não à divina providência de discursos de Churchill ou de simples sorte.

“Nós desiludimos-vos, não foi?”, pergunta, no fim, o soldado ao civil. Ao contrário de Weygand e Gort, nem eles, nem Nolan desiludiram. Live to fight another day, até porque o desastre da Malásia em que não houve nada disto ainda estava para vir, tal como a claustrofobia de Leninegrado (menos Dia D e mais Frente Leste, prezados cineastas ocidentais), um milhão de vezes pior do que o Blitz.

A caminho dos Óscares e das listas de melhores do ano vai Dunkirk, pois então.


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