Blue Jasmine

por Edite Queiroz

Na memória cinéfila, Cate Blanchett será Jasmine, como Diane Keaton é Annie Hall.

Título Português Blue Jasmine
Ano 2013
Realizador Woody Allen
Elenco Cate Blanchett, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Louis C.K., Sally Hawkins, Peter Sarsgaard, Michael Stuhlbarg
País E.U.A.
Duração 98min
Género Comédia dramática
Blue Jasmine
9/10

Apesar dos 77 anos de idade, WA recusa-se a abrandar o ritmo, mantendo escrupulosamente a meta de realizar um filme por ano; para além de dirigir, mantém igualmente o compromisso da escrita, porventura o seu (ainda) maior talento. E depois das três últimas viagens pela Europa – das quais se destacam o delicioso Midnight in Paris – o realizador regressa aos Estados Unidos, mas não à sua amada Nova Iorque; S. Francisco é desta vez o pano de fundo escolhido para um argumento bem menos risonho do que o habitual, uma narrativa trágico-cómica com um poderoso subtexto, que remete para a tonalidade emocional da sua “fase Bergman”. Blue Jasmine é uma overdose de tensão.

Eminentemente dramático, temperado com um humor corrosivo e uma certa crítica social subliminar, Blue Jasmine explora as diversas dimensões da profunda crise existencial da protagonista – Jeanette, ou Jasmine – emocional e financeiramente falida após do suicídio do marido (Alec Baldwin), que fora preso pelo FBI na sequência de negócios pouco legais. Esgotada e deprimida, ela recorre à irmã adoptiva Ginger (Sally Hawkings), também ela uma vítima das artimanhas desonestas de Hal, e muda-se para casa dela em São Francisco, determinada a recompor-se e a começar de novo. Forçada a lidar com uma alteração drástica de estilo de vida, ela procura, no seu novo contexto, reencontrar a sua identidade e reconstruir a sua existência à imagem das ilusões de grandeza que sobrevivem do seu passado. Quando essa tarefa se assume como quase impraticável, o seu espírito já quebrado mergulha num estado de alienação cada vez mais profundo, na fronteira entre o mundo real e o que quer imaginar para si. Os dias de glória de Jasmine na sua luxuosa mansão em Nova Iorque são-nos revelados em luminosos flashbacks, que contrastam com o ambiente claustrofóbico e ruidoso de S. Francisco, e nos mostram uma outra Jasmine, hoje apenas uma sombra de si mesma.

WA tem assumido em entrevistas que a história se baseia, de certa forma, na peça de Tennessee Williams, A streetcar named desire, apresentando uma versão contemporânea da personagem de Blanche Dubois – imortalizada por Vivien Leigh no filme de Elia Kazan (1951). A referência à peça e à personagem não são novas no cinema de WA, que já tinha parodiado Blanche num momento hilariante de Sleeper (1973), protagonizado por si próprio. A Blanche de Tennessee Williams é uma figura singular, uma mulher muito atraente, altiva e refinada, com um sentimento de superioridade em relação aos demais, mas extremamente frágil e carente de um equilíbrio psicológico, emocional e financeiro que um dia lhe fugiu. Será bem mais fácil desempenhar um perfeito lunático do que compor uma personagem borderline como Blanche, que caminha na débil fronteira entre a sanidade e a loucura, mas mantendo o ténue (des)equilíbrio a que tal estado necessariamente obriga – e no caso de Vivien Leigh, para além do reconhecimento eterno, ela ganhou um Óscar de melhor actriz pelo papel, que é hoje ainda uma referência incontornável na história do cinema. A Jasmine de WA, cujo nome é também uma referência à peça (a dada altura, Blanche afirma, acerca do homem por quem se apaixona: he’s not the type that goes for jasmine perfume), é também uma mulher complexa e vulnerável, no limiar do colapso psicológico, que partilha com Blanche a mesma beleza física e pobreza de espírito, o mesmo passado auspicioso e o mesmo presente desmoronado – e encontrou em Cate Blanchett uma actriz à sua altura.

WA tem um fascínio indiscutível por personagens femininas fortes, cujas presenças sempre se impõem mesmo quando não são as protagonistas óbvias dos seus filmes. E ao longo da sua longa carreira, soube rodear-se de actrizes que, com o seu enorme talento, deram vida a mulheres inesquecíveis. O desempenho da australiana Cate Blanchett no retrato algo impiedoso de Jasmine é descomunal; num registo pessoal diferente da Blanche de Vivien Leigh (recentemente, ela interpretou Blanche Dubois nos palcos da Broadway), ela domina o ecrã com o seu semblante perdido e comportamento neurótico, em luta consigo mesma, por vezes fria e detestável, outras vezes frágil e dependente, mas sempre irrepreensível e imune à dimensão caricatural de uma personagem que já tem lugar cativo na quimera do cinema; ficaremos a aguardar os prémios, mas para já, na memória cinéfila, Cate Blanchett será Jasmine, como Diane Keaton é Annie Hall. Ao lado da estrela maior, brilha um elenco igualmente fantástico composto por Peter Sarsgaard, Alec Baldwin, Bobby Cannavale e Louis C.K, com especial destaque para o desempenho de Sally Hawkins no papel de Ginger, irmã e contraponto da protagonista.

Com um final pouco característico, Blue Jasmine deixa ainda a porta aberta a subsequentes considerações – não sobre Jasmine, mas sobre o destino e as suas dualidades – e confirma o olhar socialmente crítico de WA (muitas vezes alicerçado na metáfora do confronto entre o real e o imaginado), a preocupação reflexiva que imprime à maioria dos seus trabalhos, o trágico por detrás do risível, o fascínio pela questão dos limites da sanidade e a veneração pela figura feminina enquanto contentor emocional capaz de abarcar todas as emoções do mundo. Não pode, por isso, dizer-se que Blue Jasmine seja uma verdadeira surpresa no universo do realizador, mas é, sem sombra de dúvida, um dos mais inspirados e incisivos trabalhos dos seus últimos anos.


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