São Jorge

por Joao Torgal

Chamava-se Alice, o actor era Nuno Lopes e o realizador Marco Martins. Doze anos depois reencontram-se em São Jorge.

Título Português São Jorge
Ano 2016
Realizador Marco Martins
Elenco Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, José Raposo, Beatriz Batarda, Gonçalo Waddington
País Portugal
Duração 112min
Género Drama
São Jorge
6.5/10

Estávamos em 2005 quando um furacão marcou, de forma definitiva, o cinema português mais recente. Chamava-se Alice, o drama avassalador de um pai à procura da filha desaparecida, marcado pelo frio gélido dos silêncios, pelo olhar alienado do protagonista e pela música de Bernardo Sassetti. O actor era Nuno Lopes e o realizador Marco Martins. Doze anos depois reencontram-se em São Jorge.

O filme tem sido apresentado como um dos primeiros filmes portugueses sobre o boxe. Mas, sejamos francos: o boxe é aqui secundaríssimo. Se pensarmos num dos filmes mais carismáticos do género, Touro Enraivecido, o boxe não é sequer aqui o meio para expressar os dilemas interiores de Jorge (Nuno Lopes), nem para expor algo mais vasto sobre a sociedade. Isso é feito, mas através de outra actividade da personagem.

Estamos no Portugal da crise financeira, nos anos da troika e Jorge é uma marioneta da austeridade que assolou o país. Desempregado, com um filho para criar e proveniente de uma família humilde que também atravessa o flagelo do desemprego, aceita um lugar de “funcionário” (ou colaborador, segundo a novilíngua da precariedade) numa sinistra empresa de cobrança de dívidas. Uma de muitas empresas que compraram aos bancos mal-parados e que, recorrendo a práticas de coacção para receber o dinheiro em falta, terão enriquecido à custa das desgraças alheias.

Marco Martins tem o mérito de colocar frente-a-frente, não no boxe mas na vida, vítimas contra vítimas. O absurdo da realidade: uma vítima dos anos negros da crise a ser responsável por coagir outras vítimas (umas mais que outras) a pagar. E cria esta história que não reduz as personagens e os actores a estereótipos. O destaque vai para o belíssimo desempenho de Nuno Lopes, premiado numa secção paralela do Festival de Veneza e que dá corpo a toda a revolta interior de Jorge. Mas também há personagens secundárias interessantes, como o pai, interpretado por José Raposo, com uma certa xenofobia subliminar ainda presente nas sociedades ocidentais contemporâneas.

Ao ver São Jorge, vem-nos à memória o magnífico filme francês A Lei do Mercado, estreado em Portugal no ano passadoTambém ele abordava a crise e colocava, de uma forma um pouco diferente, vítimas contra vítimas. Pena que a obra de Marco Martins se perca na fase final, com uma cena de perseguição pouco convincente e um desfecho sem grande força, sem um definitivo e certeiro murro no estômago. Ainda assim, um drama social interessante, com um realismo e um foco que falta a muitos filmes portugueses do género.


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