B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989

por Isabel Leirós

If you can remember the 80's, you weren't there!

Título Português B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989
Ano 2015
Realizador Mark Reeder, Jörg A. Hoppe, Heiko Lange, Klaus Maeck
Elenco Mark Reeder, Nick Cave, Blixa Bargeld, Keith Haring, David Hasselhoff
País Alemanha
Duração 92min
Género Documentário, Biopic, Humor
B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989
9/10

Mark Reeder nasceu em Manchester, mas a sua alma pertence a Berlim. Talvez tenha sido esta a razão maior que o levou a sair da ilha para o continente, mudando-se de armas e bagagens para uma cidade dividida e em colapso. Na edição de 2017 do Porto/Post/Doc, o sobrevivente dos anos 80 apresentou o filme e destacou-se da multidão de cinéfilos: apesar da idade, apesar dos cabelos brancos, Reeder irradia uma jovialidade invejável e desfila trajando um uniforme, algo que o caracteriza. Adora fardas militares desde sempre.

O documentário B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989 organiza memórias e filme retalhado da experiência de Mark Reeder em Berlim, vivência esta considerada uma perfeita amostra do momento, da cultura, da agitação daquela cidade antes da queda do Muro que a fragmentava.

 

 

O próprio é narrador da história, contando-nos em primeira mão como foi viajar à boleia de Inglaterra para a Alemanha. Mostra-nos o seu apartamento (num prédio ocupado, sem renda, o que facilitou a permanência), e envolve-nos nas suas aventuras a que assistimos com incredulidade, pois a sequência de eventos parece ser demasiado louca e improvável para ser verdade. Ou, então, Berlim era assim mesmo, centro e íman de figuras fulcrais da cena musical. Ou, talvez, Reeder tenha optado por ocultar detalhes racionais que tirariam algum encanto à epopeia da sua vida.

Entre outros méritos, Mark Reeder teve uma banda punk com Mick Hucknall – o ruivo dos Simply Red. Pois a sua vida é isto: uma frenética sequência de momentos improváveis.

A arte sonora que tem um lugar central na vida de Mark Reeder: de certa forma, foi a obsessão pela música electrónica alemã que o levou a desejar ferverosamente experimentar Berlim, e que toldou o seu futuro, vida e profissão. O cinema veio por acaso, serviu para registar o folclore em que tudo se transformou.

Chegado à cidade alemã soube embrenhar-se nos círculos certos. Foi músico, produtor e agente. Foi representante da conterrânea Factory Records e levou os Joy Division até lá. Deu abrigo a Nick Cave e testemunhou Keith Haring a deixar a sua marca no Muro. Chegou a ser correspondente da televisão Britânica, explorando a cidade e revelando os seus tesouros ao público jovem-adulto. E esteve no primeiro Love Parade.

Tudo isto é-nos relatado a par da própria agitação de Berlim: as manifestações, o fosso Este/Oeste, as dificuldades vividas por um país em crise. Aliás, é por Blixa Bargeld (dos Einstürzende Neubauten) que ouvimos um fantástico relato:

– Já foste ao outro lado?
– Sim, já. Foi fantástico. (respondeu Blixa com ar alucinado)
– Mas ao outro lado, a Berlim de Leste?
– Ah, isso não. Dá muito trabalho. Tenho de pedir um visto com antecedência, esperar 3 dias, despachar-me no regresso. Eu não consigo planear  a minha vida dessa forma. É demasiado.

Pois era. Era demasiada vontade de viver no momento, demasiado vício e demasiada perdição.


B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989
 não pretende ser um registo histórico, deixa esse propósito para outros registos e géneros. É antes a descoberta de uma personagem, Mark Reeder, que foi central e elo de ligação entre tribos, momentos e subculturas. Alguém que amou profundamente uma cidade e um estilo de vida, e que se dispõe a levar-nos nessa viagem, enquando define como pretende ser recordado.

Filme visionado no Porto/Post/Doc 2017

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