20,000 Days On Earth

por Isabel Leirós

20.000 dias depois de nascer, Nick Cave leva-nos pelo seu lado mais íntimo.

Título Português 20.000 Dias Na Terra
Ano 2014
Realizador Iain Forsyth, Jane Pollard
Elenco Nick Cave, Susie Bick, Warren Ellis, Kylie Minogue
País Reino Unido
Duração 97min
Género Documentário, Biografia, Musical
20,000 Days On Earth
8/10

Protagonizado por Nick Cave e relatando o 20.000º dia desde o nascimento, clarifique-se desde já: não é um documentário, nem é totalmente ficção. Largamente inspirado na carreira do crooner (é assim que o vejo, cantando os seus amores e desencantos, de voz grave e inconfundível, nos mais impecáveis – e arrojados – fatos), acompanha o protagonista num dia da sua vida, entre o estúdio e outros compromissos. O processo criativo de Cave – que se interpreta a si próprio – é o epicentro da película, a construção do universo que lhe pertence e a sua evolução dos anos 1970 à actualidade, cerca de quatro décadas depois.

Para lá da rica experiência cinematográfica conferida pelas pausas na narrativa para dar lugar à música do seu mais recente álbum Push The Sky Away (2013), o filme assenta em estratégias muito inteligentes para nos colocar em contacto com o lado mais humano de Nick Cave: da recordação das relações familiares à visita ao arquivo que o seu país mantém sobre as suas figuras artísticas de renome. Afinal, como o próprio testemunha, é a nossa memória que nos constrói e identifica no mundo.

O diálogo é permanente, dando voz e rosto àqueles que assinalaram os momentos mais relevantes da sua carreira. Kylie Minogue não poderia faltar, já que foi a sua colaboração no álbum Murder Ballads de 1996 que deu Nick Cave a conhecer ao público mais mainstream. Assim como o alemão Blixa Bargeld e o australiano Warren Ellis, com quem Nick estabeleceu icónicas parcerias artísticas, em processo de criação colaborativa essencial à existência humana.

A minha experiência com este filme foi um pouco diferente do habitual, pois tive o privilégio de assistir a um breve enquadramento introdutório apresentado pelo nosso Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta), no Theatro Circo, em Braga. Uma completa masterclass sobre a vida e a obra do sublime australiano.

Ainda assim, desenganem-se: “20.000 Dias Na Terra” não é um filme para melómanos. É sim um emotivo olhar sobre a experiência humana e o passar dos anos, que reflecte sobre a definição de uma entidade no mundo – no caso de Nick Cave, a construção de uma figura idolatrada por milhões, “godlike” como o protagonista afirma. Um ensaio que se adequa até à época em que nos encontramos, de reflexão do 2014 que termina e formulação de metas pessoais para 2015.


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