Xico Gaiato, persona artística de Francisco Barata, edita o álbum de estreia A Cada Passo Que Dou a 10 de setembro, pela Omnichord. Nascido na Beira Interior, o projeto cruza eletrónica, pop e música tradicional, partindo de sons associados à infância do artista e ao território onde cresceu.
Neste Faixa a Faixa, Xico Gaiato apresenta as canções que compõem o disco e explica o lugar de cada uma no percurso do álbum.
#1 à espera de ser
Uma introdução para o álbum, onde me relembro em miúdo, sem saber o que esperar da vida ou o que esperar de mim.
#2 Ai Senhor!
Por ter sido a primeira música que lancei, fez-me todo o sentido ser ela a abrir caminho para este álbum.
Uma música que fala do confronto com a realidade e quanto isso nos assusta nos dias de hoje. Uma realidade rude, cruel, gananciosa e pouco esperançosa.
Uma das músicas mais antigas do álbum.
#3 Olhos De Gata Ladra
Esta música foi escrita durante a residência nos Chãos, na freguesia das Donas, aldeia onde a minha mãe e a minha tia cresceram. Dias antes da residência, a minha avó contou uma história no final dos típicos almoços de domingo. Uma história sobre a minha mãe, e sobre o seu forte carácter. Então desafiei-me a escrever uma canção a contar esta história, mas sabemos que quem conta um conto, acrescenta um ponto.
#4 Roda Da Máscara
Roda da Máscara nasce da colaboração com a Rossana, numa residência artística de três dias no Cabeço do Pião, Fundão.
Inspirada na tradição da canção portuguesa, esta canção é construída a partir da estrutura poética clássica em que o primeiro verso de uma quadra retoma o último verso da anterior, num ciclo contínuo, uma roda que nunca para.
Roda da Máscara trata da mudança constante e da necessidade de transformação a que estamos sujeitos. A música invoca algo antigo e adormecido, que regressa para nos lembrar que o passado nunca desaparece, mas que se disfarça sob novas máscaras. Tornou-se fácil esta troca de máscaras.
#5 (re)encontro
Uma pausa para reflexão, reconhecimento do caminho percorrido.
Somos seres mutantes. Daqui nasce o mote do A Cada Passo Que Dou.
#6 A Cada Passo Que Dou
Para além de ser a música que dá nome ao álbum, é a música que consegue resumir a vontade de nos soltarmos de amarras em prol da felicidade, seja ela o que for. Também uma das mais antigas, que carrego com muito carinho e amor.
#7 e o vento no final da tarde
Os dias de verão na Cova da Beira são quase sempre bafejados pelo vento no final da tarde, como um refresco que nos ajuda a terminar o dia. Como um interlúdio, tal como este tema, que dá espaço à contemplação.
Neste pequeno momento faço uma ligação à água como elemento sagrado e à purificação, tirando sobre mim o peso de um passado que já não é meu.
#8 Car(t)as
Este é um tema muito especial para mim. Esta canção nasceu de um improviso meu, onde não se mudou estrutura e só houve reajustes na letra da canção.
É especial também pela presença do meu pai, com um poema que ele escreveu sobre as minhas raízes, sobre a nossa Beira.
Uma carta onde me reconheço e me levanto para o que vem a seguir.
#9 Voltas e Voltas
Este é o momento do álbum em que perdemos caminho, e não encontramos nenhuma saída neste labirinto enquanto há uma praga de “baratas” que se infiltra silenciosamente na nossa vida e no nosso ser. É um ciclo vicioso onde se torna clara a necessidade de chegar a um fim. Há que saber quando já não vale a pena correr atrás de algo que já não existe.
#10 pedalada
É fácil perdermos a vontade de continuar o caminho quando sentimos que nos tiraram todas as possibilidades de prosseguir. É uma passagem sobre queda, paragem, mas também um lembrete de que precisamos de estar rodeados de pessoas que nos cuidam e ajudam nestes momentos. Um sentido de comunidade que aparece depois de uma queda inevitável.
#11 Eu Vou
Chegamos aqui à música mais pessoal deste álbum. Comecei a escrever música e a compor quando caí no fundo pela primeira vez. Desde aí que tentei várias vezes colocar este poço numa canção, e aqui está ela. Sobre a solidão, aprendi a saber levantar-me e a continuar o caminho que precisa de ser feito para chegar à felicidade.
#12 Sem Perdão
Chegamos novamente ao confronto com uma realidade presente e visível. Uma realidade pesada, maldosa e injusta. Volto à ganância e ao seu poder destrutivo na humanidade. São duas personagens que dialogam entre si, uma que está no lugar de quem cala e não perdoa e a outra que está crua, sem ter chão onde dormir e que não perdoa o que não precisa de perdão.
#13 Na Raiz
Numa casa destruída, encontra-se a força da comunidade para voltar a reerguê-la. Uma canção feita com a Bia Maria, que relembra a importância da união e do coletivismo nos momentos mais difíceis da nossa vida comum.
#14 Mutante
É a conclusão deste caminho, deste trajeto que é a vida.
Olho para trás, com referências a várias músicas aqui presentes, para reconhecer quem sou e do que sou feito. Pela estrada deixei malas, roupas de que já não precisava. Peles que se foram regenerando ao longo do caminho. Mutações que resultaram nisto que sou eu, somos nós, seres que precisam de viver e percorrer pela busca da paz e da felicidade, mas não é possível reconhecer isso sem olhar para os aspetos negativos a que estamos todos sujeitos hoje em dia.