Pedro Abreu — O Outro Lado

por Arte-Factos
Ano 2026
Estilos Rock
Editora Edição de autor
“O Outro Lado” de Pedro Abreu

“O Outro Lado” marca a estreia a solo de Pedro Abreu. Este primeiro LP apresenta-se como uma obra ousada, onde o rock é o elemento central, mas funde-se com sonoridades de discopopstoner e rock progressivo, criando uma experiência sonora rica e imprevisível.

Em “O Outro Lado”, Pedro Abreu revela uma faceta profundamente introspectiva e interventiva, usando a música como veículo para questionar realidades sociais e políticas. As canções funcionam como espelhos de um tempo em turbulência — abordando temas como desigualdade, alienação, identidade e poder — sem nunca perder o sentido poético e a força emocional que caracterizam a sua escrita.

A produção do álbum alia a energia crua das guitarras à densidade atmosférica dos sintetizadores e das linhas rítmicas pulsantes, transportando o ouvinte por um percurso que tanto convida à reflexão como à libertação. “O Outro Lado” é, em essência, um manifesto artístico, onde Pedro Abreu reivindica espaço para a crítica, para a experimentação e para a autenticidade num panorama musical cada vez mais estandardizado.

Com este trabalho, o músico afirma-se não apenas como intérprete, mas como autor de uma visão singular, capaz de unir o espírito contestatário do rock com a sofisticação de outras vertentes da música contemporânea.

#1 O Outro Lado

Inicia com excertos de vários debates da Assembleia da República. A intenção é mostrar os diferentes pontos de vista de diversos partidos políticos, acompanhados por um som leve, mas dramático, de sintetizador. Logo de seguida, entra a voz de Pedro Mota a interpretar um poema de verso livre, escrito por mim, que mostra o quão perdidos nós, enquanto pessoas, podemos ficar com tanta sede de poder pela parte dos políticos e com tanta desinformação. Fica assim lançado o tema inicial do álbum: “Em quem é que eu realmente acredito?”.

Segue-se então uma secção mais agressiva da música, que mostra a minha vontade de tentar ver mais além e de não ficar apenas conformado. Também existem alguns elementos de alerta relativamente à utilização da inteligência artificial. É, de facto, uma ferramenta útil para a sociedade, mas será utilizada em prol do bem?

#2 Mundo Fantástico

Após a faixa de introdução do álbum, segue-se “Mundo Fantástico”. Nasce de uma fusão entre o punk rock americano e a língua portuguesa, explorando a inquietação e a epifania de quem se apercebe de que há muito mais nesta vida do que aquilo que é habitual ou socialmente aceite. É uma música sobre ver — ou escolher ver — para além do óbvio: uma celebração da liberdade de sentir e pensar.

#3 Não Sabes o Que És

É um tema que continua na vertente do punk rock. A frase repetida “não sabes o que és p’ra mim” não é dirigida a nada nem a ninguém em particular, mas, ao mesmo tempo, é dirigida a tudo e a todos, neste ambiente de sufoco e confusão.

#4 Quinto Império

O Quinto Império é um mito messiânico e espiritual que defende que Portugal lideraria uma era de paz universal. Segundo Fernando Pessoa, substituiria o poder militar pela luz da língua e da arte portuguesas. É daí que nasce este tema.

Com riffs mais próximos do blues, a música é complementada por versos abstratos, mas também de revolta, até ao refrão, onde é repetida a frase “agora quero falar”. Esta frase é gritada para dar ênfase ao desespero de alguém que nunca é ouvido.

Depois do segundo refrão há uma voz que fala com um general e diz: “Daqui Sentinela 19280528, tenho os alvos em mira, aguardo pelas ordens do General…”. O número 19280528 é uma referência à data do segundo aniversário do Golpe Militar de 1926 em Portugal. Politicamente, este dia simbolizou a transição da Ditadura Militar para a Ditadura Nacional, consolidando o caminho para o futuro regime do Estado Novo.

O ouvinte é alertado para o facto de que o perigo surge quando menos se espera e de que há sempre alguém disposto a defender regimes antigos e assim fazer retrocessos na humanidade.

#5 Faz a Festa Noutro Lugar

Um tema com fragmentos de sonoridade stoner. A temática é bastante simples: quem está mal, muda-se. É a primeira faixa em que os sintetizadores começam a ter alguma predominância, principalmente depois do segundo refrão.

#6 Cães de Caça

Tem fragmentos de punk, rock e stoner. A letra é uma referência a uma entrevista de Zeca Afonso, na qual se refere a algumas pessoas como “eunucos”, ou seja, cúmplices, submissos e colaboradores dos regimes opressores. Já eu chamo a essas pessoas “Cães de Caça”.

#7 Sempre Mais

Aqui começa o lado introspetivo e menos “violento” do álbum. Este tema é uma sátira à música dançável, ou, como gosto de lhe chamar, é um “dark disco”. É uma crítica à ambição excessiva e fala sobre alguém que, por muito que lute, nunca consegue saciar os seus desejos de subir na vida.

Tem um pouco de noise e experimentalismo, que mais tarde contrastam com a letra em loop, a gritar “quero mais!”, juntamente com o som melódico do saxofone de Edmar Pereira.

#8 Jeito Torto

Um tema calmo, mas pesado, que fala sobre o tabu da doença mental. A letra explora, de forma simples, o que é estar na pele de alguém que sofre por dentro sem conseguir obter ajuda.

Margarida Duarte é quem faz os depoimentos depois do segundo refrão, simulando um paciente e um especialista a falar sobre estes assuntos delicados. É então que entra o saxofone, que cria uma sonoridade esperançosa, juntamente com o piano e o baixo gravados por Gabriel Costa.

#9 Descentralizado

Colada à faixa anterior, começa com um tema sombrio, composto pelo baixo, bateria e sintetizador. O clima é pesado e a letra fala sobre alguém que não é totalmente responsável por ter uma doença mental: a culpa é também da própria sociedade. A repetição do refrão “sinto-me usado e tão descentralizado” demonstra precisamente isso.

A meio da música, há uma espécie de duelo amistoso entre o piano e o saxofone, que rapidamente se transforma num riff harmonioso, prolongando-se até ao final da música.

#10 Prefácio Momentâneo

Música gravada a 100% com sintetizadores — batida, baixo, strings, entre outros elementos —, à exceção da voz e de um pequeno riff de guitarra.

É uma continuação e conclusão das duas músicas anteriores, em que a frase “nesta doença de ser humano: se nada mais me prende é porque nada mais me satisfaz” representa o culminar de uma busca por paz interior e de uma procura constante por algo melhor, mesmo que essa busca seja eterna.

Termina com o refrão da música “Jeito Torto”.

#11 Epílogo

Conclusão “em grande” do disco. Inicia-se com um estilo rock, guitarras com o pitch alterado e letras que demonstram a determinação de continuar a busca por um mundo melhor.

Rapidamente, passa para um estilo disco, onde José Barbio entrega todo o seu groove na bateria. Ouvimos um duelo com tons de jazz entre o saxofone de Edmar Pereira e a guitarra de João Nunes.

A música termina com um loop de saxofone que se prolonga até ao final, enquanto a voz canta: “a pressa de chegar p’ra que nada possa mudar”. A música termina em fade out para dar essa sensação de busca eterna.

Captação de som e misturas: João Nunes no Estúdio Casa
Masterização: Rui Dias no Estúdio Mister Master
Composição, letras e produção: Pedro Abreu
Vozes, guitarras, baixo e sintetizador: Pedro Abreu
Baixo e piano: Gabriel Costa
Guitarra solo: João Nunes
Bateria: José Barbio
Saxofones: Edmar Pereira
Intérpretes: Pedro Mota e Margarida Duarte


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