HOURSWILL — Ensemble

por Arte-Factos
Ano 2026
Estilos Metal
Editora Ethereal Sound Works
“Ensemble” de HOURSWILL

A fundação do som dos HOURSWILL sempre se apoiou na premissa de que a música pesada pode ser um veículo de constante mutação. Doze anos após darem os primeiros passos com o registo de estreia, o coletivo regressa com Ensemble, um trabalho que surge para quebrar um longo silêncio editorial e documentar a evolução da banda dentro do panorama do metal progressivo nacional.

Mais do que um mero alinhamento de canções, este novo álbum funciona como um ecossistema complexo, onde a técnica e a amplitude emocional se entrelaçam. Lançado sob a chancela da Ethereal Sound Works e com a assinatura de Fernando Matias na produção, o disco navega por caminhos densos, trazendo para a sua órbita colaborações de Luis Simões e Nuno Cruz, além de caminhos estéticos que vão da reinterpretação da obra de Fausto Bordalo Dias a narrativas históricas inspiradas na tragédia da fragata La Méduse.

Para compreender a mecânica interna que move cada uma destas composições, o melhor é olhar para a sua arquitetura sem filtros. Nas linhas que se seguem, os próprios HOURSWILL assumem a narrativa e desconstroem Ensemble, guiando-nos numa viagem detalhada, faixa a faixa, pelas dinâmicas e conceitos que definem este novo capítulo.

#1 1816

Introdução instrumental que estabelece o ambiente do álbum e faz a ponte com a segunda faixa. O seu título, 1816, é o ano em que decorrem os eventos relatados no segundo tema, Le Radeau de la Méduse.

#2 LE RADEAU DE LA MÉDUSE

Este tema centra‑se no trágico episódio, imortalizado em óleo sobre tela pelo pintor Théodore Géricault, do naufrágio da fragata francesa Méduse no início do século XIX, com foco nas sucessivas tormentas vividas pelas cerca de 150 pessoas que, sem lugar nos botes salva‑vidas, foram rebocadas numa balsa improvisada de vinte metros, até o cabo que as rebocava se ter partido, tendo-as deixado à deriva, perdidas e sem mantimentos. A letra acompanha os terríveis acontecimentos que podem verificar na literatura adicional que acompanha a lírica no livreto de Ensemble.

Com quase 23 minutos, é uma peça extensa, progressiva e emocionalmente densa, que sintetiza musicalmente o lado mais audacioso de HOURSWILL. Esta duração é da exclusiva responsabilidade do próprio tema, no sentido em que foi um processo espontâneo em que o tema quase se escreveu sí próprio, fluindo em várias secções interligadas, cada uma encaixando naturalmente na anterior e na seguinte, refletindo a evolução dramática da história.

#3 UNHEILVOLL

Retrata-se na letra deste tema a existência e a realidade humana nas sociedades modernas. Onde uma crescente desilusão, frustração, fraqueza e um forte descontentamento, vazio e ódio nos levam ao caminho da possível extinção enquanto humanidade, graças à ascensão de ideologias e políticas de extrema perigosidade.

Em matéria musical trata-se de um tema potente, curto e direto de heavy metal clássico na veia de coisas como Saxon, Accept, Dio e até Scorpions do início da década de 80.

#4 DEPRESSIONE ANACLITICA

Tema cujo conceito lírico é centrado em assuntos do foro psicológico. Neste caso, um tipo de depressão ligada ao abandono e à separação, levando a sentimentos de medo, ansiedade e desconfiança, que é desenvolvido em idade adolescente, mas que poderá afetar a vida adulta.

Musicalmente é aqui prestada uma singela homenagem ao hard n’ heavy de qualidade que proliferou nos anos 80 em coisas como Van Halen, Journey, Whitesnake ou até Hardline já nos 90’s, incluindo algumas passagens por territórios um pouco mais prog/rock e algum metal clássico.

#5 O QUE A VIDA ME DEU

A inclusão deste tema de Fausto Bordalo Dias, retirado do álbum Por Este Rio Acima (1982) que relata as viagens de Fernão Mendes Pinto ao Oriente, resulta da necessidade de incluir no álbum um momento musical e emocional fora do espectro habitual da banda, mas que reforçasse a coesão conceptual de Ensemble. É um tema originalmente tocado em guitarra e piano que na nossa versão foi reinterpretado por dois baixos – um elétrico e um eletroacústico. Para atingir uma sonoridade que remetesse o tema do álbum original, contamos com a amável colaboração do Luís Simões, que compôs e gravou os arranjos em sitar, tanpura, gong e reverse guitar. Já com tudo gravado e durante a fase de produção do álbum, chegou a triste notícia do falecimento do Fausto. Fica esse travo agridoce de ver convertido, pela inevitabilidade das circunstâncias, em homenagem póstuma aquilo que sempre pretendeu ser uma celebração em vida.

#6 PASO DE CUERVO

Música instrumental cujo título foi inspirado na existência de uma senhora idosa, habitante de uma aldeia do Alentejo profundo e na alcunha que o povo local lhe colocou pela sua maneira de andar na rua e pelo seu vestuário.

Musicalmente, congrega de forma resumida e sucinta todo o conteúdo presente ao longo do disco.

#7 NOT ENOUGH

Liricamente, conta-se aqui a história de uma relação tóxica entre dois indivíduos e a dependência e subserviência emocional de um deles para com o outro.

É outro dos temas que estão neste disco que têm uma ótima dinâmica. Recorrendo a diversas influências desde o hard rock clássico ao metal mais pesado passando por belos e tranquilos elementos originários do prog/rock.

#8 GEHENNA

Em termos líricos, o propósito foi o de estabelecer um paralelo simbólico entre o Vale de Hinnom, descrito nos textos sagrados como um lugar de tormento, miséria e extremo sofrimento e os dias de hoje, onde milhares de pessoas, especialmente crianças, perdem a vida em guerras e conflitos em nome do fanatismo religioso e da ganância monetária.

Na parte musical, este é um dos temas mais pesados que os Hourswill já escreveram e gravaram em toda a sua discografia, sendo influenciado por algum doom metal/rock Anglo-Saxónico e também do norte da Europa, contendo igualmente os já habituais momentos e desafios prog/rock presentes na nossa sonoridade.


Partilha com os teus amigos