Vítor Rua & The Metaphysical Angels — Do Androids Dream Of Electric Guitars?

por Arte-Factos
Ano 2017
Estilos Experimental
Editora Clean Feed Records
“Do Androids Dream of Electric Guitars?” de Vítor Rua

Vítor Rua editou um novo trabalho em Julho, um registo que nos leva em viagem por sons cósmicos e sonhadores. Os anos 80, o pop-rock dos GNR e os ensaios em Francos já fazem parte de um passado distante, hoje Rua afirma-se com um importante nome do improviso e da experimentação sonora.

Conheçam o disco Do Androids Dream Of Electric Guitars? pelas palavras do próprio, e acompanhem a leitura com uma audição do trabalho no Spotify. Não se vão arrepender, têm pela frente uma rica lição de música e de criação musical.

A nave Do Androids Dream Of Electric Guitars? beijou languidamente a superfície do planeta.

O oiro do rio cravejava  em mil estrelas o firmamento da ramagem; raios de vento solar agitavam os anéis refulgentes da água, argênteos cometas sopravam no veludo das folhas.

Cada cintilação era relativa a um som específico no radar mental.

Muito longe, a neblina de Betelgeuse, quase silenciosa; além, Aldebaran, mais próxima e intensa, chispando clusters; com um ruído fantástico, a fosforescente Alfa Centauri; deleitou-se com a energia sónica radioforme do frutedo de Cassiopeia; mini-relâmpagos alumiavam o líquido Orion num som estrídulo percussivo e contínuo.

Ouvia-se o chocalhar do rio na sua curva de Via Láctea, rasgando a vegetação atonal; a nebulosa magalhânica das copas;  o estampido duma super nova ofuscante; seguiu-se um vazio silêncio que cegava… depois… misticamente… glissando e, súbita agitação das folhas audiovisuais prenhes de seiva.

Ouviu-se uma gama entre sons infra e ultra, raios resplandecentes Pink Floyd.

Impulsos sonoros informacionais variáveis, cordas sibilantes.

Na perspectiva textural, uma corola, Tau Ceti, roçava em elipses as pétalas de Andrómeda; pressentiu-se o explodir microacústico dum planetóide alojado numa semente;  a queda asa delta amarela dum meteoro vindo do topo da árvore dissonante que ao poisar no solo levantou poeira sideral.

O concreto e o imaginário; mais longe até a vista ficar louca de som imenso: o Sol, que naquela manhã embebedava de radiações audioextravagantes… e nos confins da Galáxia, entre os sons da Natureza – uma melodia arcaica de uma guitarra Ramirez a esvair-se…

“Música!”- o Humano não estava só no Universo…

#1 The Amazing Worm

São várias as razões que nos fazem diferenciar um estilo musical de outro.

Um estilo musical pode caracterizar-se por possuir um determinado ritmo que lhe é idiossincrático, outro por usar escalas pentatónicas, um pode usar estruturas complexas (como o Serialismo), enquanto outro pode recorrer a construções simples (como o Minimalismo).

Mas seja o que “for” que nos leva a reconhecer os variegados estilos musicais, existe algo que é comum a todos: possuem um idioma, idiossincrasias que os tornam únicos.

Neste tema (como em todos os outros deste CD) criei um novo estilo musical que intitulei de “Improvisação Meta-Idiomática”.

#2 Friendly Formants

É um pouco como as línguas: sabemos diferenciar o francês do inglês, o italiano do espanhol ou o chinês do japonês.

Em Música distinguimos com relativa facilidade o Punk do Rap, o Rock do Jazz, o Impressionismo do Expressionismo, o Serialismo do Minimalismo ou o Hip Hop da música Concreta, porque de idiomas distintos se tratam.

Este tema aborda vários estilos musicais, mas há um que sobressai: a Improvisação Total.

#3 Roulotte

Nos finais dos anos 1960 surgiu um estilo musical que se auto proclamava isento de qualquer tipo de idioma. Estamos a falar da “Total Improvisation” ou da “Free Improvisation” e o que definia esta nova forma de improvisação, era – supostamente – a impossibilidade de a relacionarmos com qualquer estilo musical reconhecível.

Este tema releva como primordial o estilo jazzistico na forma com dá um tema; improvisa sobre ele; e depois volta ao tema.

#4 Flamenco is Dead

Desse modo e de forma a caracterizar-se e nomear-se este novo estilo musical, o guitarrista e improvisador Derek Bailey escreveu no seu livro “Improvisation” que essa nova música improvisada era “não-idiomática”.

Repare-se que mesmo que fosse “verdadeira” esta sua afirmação, no instante em que ele a caracterizou como “não-idiomática”, esta passaria a ser o estilo cujo idioma seria não-idiomático! Mas não deixaria de ser um idioma!

Este tema mescla a Improvisação Total com certo Rock Noise.

#5 Subliminal Signs Of Humor

Mas – helas! – não era “verdade” o que Derek Bailey escreveu no seu livro.

Existiam – pelo menos – dois estilos musicais, aos quais esta nova improvisação se “inspirou”: a chamada “Música Contemporânea” (continuidade da chamada música Clássica Ocidental) e o Free Jazz.

Mais uma vez neste tema ocorrem simultaneamente variegados estilos, sendo o estilo jazzistico o que mais sobressai juntamente com o de certo Heavy Rock.

#6 Fugue In Fuck Major

Note-se que dois dos mais paradigmáticos grupos deste novo estilo musical – o A.M.M. e os M.E.V. – eram constituídos por compositores (Alvim Curran, Richard Teitlbaum e Fredrick Rezewsky nos M.E.V. e Cornelius Cardew nos A.M.M.); outros vieram do Jazz (Eddie Prevóst ou Lou Gare); e outros eram intérpretes da música contemporânea como o pianista John Tilbury.

Também os novos improvisadores solistas (ou em diversas formações) como o Michel Portal, o Heinz Holliger ou o Vinko Globokar, eram todos eles compositores. E muito bons!

Assim, o que estes músicos criaram de novo foi o de “comporem em Tempo-Real”!

Trouxeram “emprestado” da música Contemporânea as “advanced techniques” (uso invulgar dos instrumentos convencionais: piano preparado; guitarra preparada; técnicas como a “sopro contínuo”, digitações invulgares ou o uso da voz em simultâneo com o som do instrumento, etc).

Um tema em que ressalta o estilo jazzistico.

#7 Deleuze versus Tarzan

Nas cordas assistimos a novas técnicas como usar o arco em diferentes partes da madeira do instrumento; pressão exagerada do arco nas cordas; uso anormal dos harmónicos; tocar com os dedos no lado “errado” do instrumento, etc.

Na percussão deu-se uma verdadeira revolução em “contrariar” as formas “correctas” de se tocarem certos instrumentos (como usar o arco do violino no vibrafone em vez das baquetas); címbalos ou gongs que são postos em cima das lâminas da marimba (servindo o bombo como uma enorme caixa de ressonância) e posteriormente friccionados por arcos; objectos de diferentes materiais que são colocados em cima das lâminas de uma marimba, por exemplo, etc.

Essas técnicas avançadas eram usadas para recriarem em tempo-real, construções musicais próximas das que escutávamos na música dos compositores contemporâneos.

Por outro lado, em determinadas partes dessas improvisações – em que os improvisadores se deixavam “embalar” para paisagens sonoras de maior intensidade, tanto a nível de volume como de energia (rapidez/virtuosismo), nessas alturas, esses novos improvisadores “roubavam” essa “força” do Free Jazz.

Um tema com uma melodia carregada de humor e onde o Jazz e o Rock surgem de mãos dadas.

#8 Prepared Onion With Olive Glue

Deste modo, se já no seu início, a “Total Improvisation” não era – de todo! – “não-idiomática”, que dizer agora passados já mais de cinquenta anos da sua existência?

Na actualidade (tal como em outros estilos musicais), basta-nos escutar uns segundos deste estilo musical, para o reconhecermos imediatamente (como reconhecemos os Blues, o Punk ou o Jazz).

Ora se o reconhecemos, é porque existe um “idioma”!

Ao constatar tal evidência – a da não existência de uma improvisação “não-idiomática”, decidi procurar novas formas de improvisar e resolvi criar “Meta-Improvisações”, ou seja, improvisações realizadas em variegados estilos musicais estruturados tanto “horizontalmente” como “verticalmente” em composições a que intitulei de “composições sobre improvisações meta-idiomáticas”.

Este tema vive essencialmente do estilo da Improvisação Total, embora se possa sentir um certo “fragor” de Monk.

#9 Descending Stairs With Duchamp

Na realidade esta “ideia” subiu-me “naturalmente” tendo em conta o meu passado musical, ou seja, eu durante a minha vida abrangi diversos estilos musicais (do Blues ao Folk, do Punk ao Rock, da música Concreta à Electrónica, do Jazz ao Minimalismo).

A tónica por mim utilizada na criação deste novo Estilo musical, foi a de gravar improvisações (em determinados estilos musicais), criando “layers” meta-estilísticos, sobre os quais eu posteriormente os trabalhava numa actividade composicional.

Este é mais um tema que parece querer “obedecer” às regras de certo Jazz, mas que é sempre “cortado” por outros estilos musicais.

#10 Do Androids Dream Of Electric Guitars?

O resultado deste meu trabalho (cuja investigação dura já há mais de dez anos), foi concretizado em dois anos de Estúdio, muitas horas de gravações, misturas e masterizações.

No final criei um tríptico (três CDS duplos): “Do androids dream of electric guitars?”, “Infinite pancakes” e “Turtles on a sea of roses”, em que uso esta nova forma de compor.

No CD 1 os temas são realizados unicamente em guitarra, enquanto que no CD 2 os mesmos temas do CD 1, surgem aqui interpretados por um ensemble constituído por Bateria, contrabaixo, piano, guitarra, clarinete e trompete.

Este tema é paradigmático do meu novo Estilo musical criado nesta Obra Musical, que é realizada em dois CDs, sendo que o segundo CD contém – como ditto supra – os mesmos temas do CD 1 só que interpretados por um Ensemble (bateria, contrabaixo, piano, guitarra, clarinete e trompete).


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