A Bela Paranoia assume-se como um disco de rutura e reinvenção. Um álbum que se afasta do que veio antes para procurar uma nova linguagem: um rock mais ambicioso, mais denso e emocionalmente mais exposto, onde a fragilidade e a intensidade caminham lado a lado. Ao longo do disco, a banda aprofunda temas como a perda, a finitude, a memória e a tentativa — por vezes desesperada — de encontrar sentido quando tudo parece desmoronar. Com A Bela Paranoia, Bela Noia afirma-se num novo lugar: mais livre, mais arriscado e mais consciente da força que nasce quando a vulnerabilidade é assumida como linguagem.
#1 Epitáfio (Lembrança de um final) e Meu amor quando eu morrer
Esta letra chegou até mim ainda nos tempos de faculdade onde, à noite, ouvíamos Fausto e outros gigantes. E ao ouvir esta frase “Meu amor quando eu morrer”, que ele canta na canção “Como um sonho acordado”, imaginei o que diria aos mais queridos quando partisse. Assim nasceu este tema que fui riscando e reescrevendo até chegar aqui. À medida que ia construindo esta canção ainda só acompanhado pela guitarra comecei a ouvir outra voz a cantar a primeira parte desta música.
Lembrei-me imediatamente do Edgar Valente com quem já me cruzara noutras ocasiões. Fiz o convite e aproveitamos a vinda dele a Viseu para um concerto para gravar esta participação. Essa peça funciona como introdução à canção Meu Amor Quando Eu Morrer. Os primeiros compassos desta introdução reaparecem ainda numa breve secção da faixa seguinte, reforçando a continuidade entre os dois momentos.
#2 Não quero mais
Esta foi das primeiras canções a ser feita para este disco. Tínhamos acabado de lançar “os miúdos estão bem” e durante os ensaios de preparação da tour mostrei esta canção à banda. Começámos a construir a canção em conjunto e fomos bastante rápidos a fazê-lo, talvez por estarmos alinhados naquele dia e estarmos todos a sentir o mesmo?
Foi uma canção que incluímos nas primeiras setlists, que tocamos desde o primeiro concerto e que foi sendo aprimorada na estrada. Quando chegou a altura de montarmos o disco esta canção já estava praticamente feita. Posso dizer também que de certa forma é a canção mais “leve”do disco.
Ainda assim, apesar de ter um tom brincalhão, existe uma tentativa (espero que bem sucedida) de fazer passar uma mensagem séria. É uma canção que fala sobre processos de mudança, sobre estar farto da rotina e querer quebrá-la. Escrevo sobre excessos, sobre a procura de algo que acalme uma inquietação que me é muito familiar.
#3 Ainda te canto
Talvez a letra mais violenta do disco? Lembro-me de compor esta canção quase em piloto automático. A estrutura ficou muito bem definida à partida e a letra saiu cá para fora com bastante facilidade… No início não estava certo do que queria dizer. Foi daquelas canções que se escreveu sozinha e até eu tive de descobrir o que ela significa. Talvez por isso não queira justifica-la nem tentar decifrá-la para vocês. Acho que vou guardar esta para mim. Foi uma canção que ganhou imenso com a banda. Em conjunto fomos adicionando camadas e alterando algumas partes da estrutura até chegar a este resultado. As cordas fazem-na crescer e acho que o arranjo que o Leo fez engrandece a música. No final da canção quis acrescentar o sons dos sinos da Sé de Viseu. Ouço-os a partir de casa e muitas vezes quando componho eles interrompem-me o pensamento. Quando gravei a primeira versão desta música com o telemóvel, apenas guitarra e voz, conseguimos ouvir os sinos lá atrás.
Achei que tinham lugar neste disco e nesta música. Acabaram por ganhar outro significado quando decidimos que a música que sucede esta é a “À Guerra, não há paz”. Estes sinos acabam por sinalizar a chegada da Guerra como acontecia no tempo dos castelos.
#4 À Guerra, não há paz
Gosto muito desta canção. Foi uma guerra terminá-la. Não estou a exagerar ao dizer que esta canção teve 5 ou 6 versões diferentes. Quando a criei era outra coisa, outros acordes, outra melodia. É também a canção mais antiga do nosso reportório. Esta e a “canção da lua”. Ambas faziam parte de um projeto anterior à Bela Noia. A Canção da Lua até chegou a ser editada com outros arranjos e outro nome. Aproveitei a letra e com a banda tornamo-la naquilo que é hoje enquanto que a “Guerra” como se chamava na altura acabou por ir para a gaveta. Anos mais tarde voltei a pegar nela. Era suposto fazer parte do primeiro disco e testámos uma primeira versão. Por algum motivo voltou para a gaveta. Nos primeiros concertos que fizemos precisávamos de mais canções para a setlist então fizemos um arranjo novo desta canção com guitarra elétrica e um groove mais rockeiro. Tocamos esta versão em pelo menos metade da tour dos Miúdos. Foi no concerto do Viriato em Viseu que por não estarmos satisfeitos decidimos experimentar uma versão só com piano e voz. Encontrámos uma luz e a partir dessa versão e mil e duas alterações depois chegámos até aqui. É a letra mais bonita que já escrevi. Uma coisa que se perdeu com tantas versões foi este verso:
“Vida de sorte, diz o carpinteiro
Quem construiu aquilo que nós temos
Na nossa guerra eu morri primeiro
Se é primavera ainda temos tempo
Vida de merda, diz o fuzileiro
Carrega as armas, dispara os argumentos
Ganhei a guerra mas perdi o que nós temos”
Falo de uma relação e comparo-a a uma guerra no seu sentido literal. O amor também é sangrento e também tem coisas feias. Tentei retratá-lo desta forma. Acho bonito.
#5 O fim quando menos se esperava
Esta peça apresenta o quarteto de cordas sozinho, assumindo-se como protagonista. A sua escrita nasceu da inspiração no Quarteto de Cordas n.º 6 de Felix Mendelssohn, cuja energia e expressividade serviram como ponto de partida para esta breve exploração do quarteto enquanto voz autónoma dentro do universo sonoro do disco.
#6 Antes só que fantasma
Esta canção foi a última a ser construída apesar de mais uma vez ter sido feita ainda antes de pensarmos no disco. Chegou a ser uma canção que eu tocava sozinho nos concertos numa parte do alinhamento. Quando a quisemos pôr no disco levou uma reviravolta tremenda… não só o instrumental como a letra foram alteradas de uma forma radical. Deixou de ser aquela música que eu tocava sozinho. O engraçado é que devia ser a canção que abria o disco mas acabámos por dar ainda mais voltas e acabou por ficar no fim.
#7 Ninguém quer saber de nós
Outra canção que já está conosco desde o primeiro concerto, desde os “miúdos estão bem”. Por incrível que pareça, no meio de toda a nossa indecisão foi uma canção que não mudou muito, apenas acrescentamos as cordas. Mesmo ao vivo estamos a tocá-la da mesma forma! Esta letra é-me muito querida, surgiu numa altura em que me perguntava qual o propósito das coisas que eu fazia… Sentia que ninguém nos queria ouvir ou saber das nossas canções.
Depois estes pensamentos fizeram-me falar de um lado mais pessoal em que não falo apenas da música que fazemos mas também das coisas que eu tenho para dizer enquanto ser humano. Falo sobre as “canções” do dia-a-dia e do barulho que queremos fazer, sentia que me obrigavam mais a ouvir as “canções” dos outros e não davam espaço para as minhas. Aqui uso o termo canção para descrever pensamentos, sentimentos, histórias… enfim, talvez esteja a ser confuso mas juro que isto faz sentido!
Quero que este tema seja um grito, um aconchego a quem não se sente ouvido. Gritem e pronunciem-se, o mundo precisa de mais pessoas a falar e a cantar as suas canções.
Para assinalar o lançamento do disco, Bela Noia apresenta A Bela Paranoia ao vivo:
27 de março — Carmo 81, Viseu
10 de abril — Tokyo, Lisboa

