Um percurso como o dos Travo não acontece por acaso, nem será um golpe de sorte. A sua particular sonoridade e a sua progressiva singularização também não. Mas, por outro lado, talvez fosse inevitável chegar a “Wasteland” com esta intensidade e peso. Mas em vez de estarmos a especular sobre essas coisas, deixamos a própria banda explicar-nos como se chega a esta fase da carreira nesta boa forma.
Parabéns por este grande “Wasteland”, que vocês próprios classificam como o vosso mais pesado e metalizado. Quanto disso foi premeditado e o que acham que levou a que intensificassem o vosso som dessa forma?
Muito obrigado! Tem sido uma escolha premeditada tentar acrescentar elementos sonoros diferentes e dar um ligeiro abanão à nossa sonoridade de álbum para álbum. No entanto, o resultado final acaba por surgir de forma bastante natural. Foi o ponto de convergência dos gostos e influências de todos os membros naquele momento.
Destacam vários elementos novos ou com maior destaque. Quando escrevem e experimentam, em algum momento ficam com algo que considerem que já não soe a Travo, ou têm total liberdade e à-vontade para explorar?
Acho que, inevitavelmente, por já tocarmos juntos há tanto tempo e termos vindo a desenvolver a nossa sonoridade e forma de tocar em conjunto, acaba sempre por existir uma identidade própria nas músicas que escrevemos. Ainda assim, damos a nós próprios total liberdade para explorar novas sonoridades. Também nos fartamos muito rapidamente das coisas que já fizemos, por isso a vontade de criar algo novo está sempre muito presente. Se fizermos algo de que gostamos e que não soe ao que andávamos a fazer até então, ficamos bastante contentes. A exploração constante e a vontade de procurar algo que consideremos melhor são o que mantém a diversão viva.
Partiram para o estúdio para preparar este disco já bastante oleados, depois de muita atividade ao vivo. Quanto do vosso percurso na estrada absorvem e levam para o estúdio para influenciar música nova?
O nosso objetivo é absorver praticamente tudo. A energia que temos ao vivo é uma das coisas que mais queremos transmitir quando gravamos um disco. Quando escrevemos e compomos, temos sempre em mente como é que as músicas vão resultar ao vivo e, antes de as gravarmos, gostamos de tentar tocá-las num ou dois concertos para perceber se funcionam efetivamente como imaginámos. Para além disso, tivemos a oportunidade de partilhar o palco com bandas incríveis nos últimos anos e, nem que seja inconscientemente, assistir a um concerto que consideramos quase perfeito acaba sempre por nos influenciar.

E toda essa atividade em palco já não é só tocar em tudo o que seja palco por cá: já estão bem internacionalizados. É algo que pretendem expandir ainda mais? Sentem alguma pressão extra ao saber que estão à espera do vosso disco em vários cantos do mundo?
É, sem dúvida, algo que queremos continuar a expandir. Temos consciência de que fazemos música de nicho e de que, se nos limitássemos a tocar em Portugal, não haveria muitos mais objetivos por cumprir. Gostamos muito de tocar lá fora e temos sido muito bem recebidos em todos os sítios por onde passamos. Este verão demos 25 concertos um pouco por toda a Europa, desde os Alpes suíços até vales encantados no meio da Croácia. É sempre uma experiência enriquecedora poder visitar estes verdadeiros paraísos na Terra e fazer amigos por onde passamos, tudo graças à nossa música. Durante o processo de composição, acabámos por sentir alguma pressão, sobretudo por acharmos que precisávamos de dar um passo em frente com este lançamento. Mas ficámos muito satisfeitos com o resultado e agora estamos apenas gratos e felizes por vê-lo ser tão bem recebido.
Contam com a produção de Jaime Arellano, com um interminável e variadíssimo currículo. O que vos levou a selecioná-lo e o que procuravam ao trabalhar com ele? Como foi a experiência?
Tínhamos muita vontade de elevar a nossa sonoridade a outro nível neste álbum e sabíamos que a produção teria de desempenhar um papel importante nesse processo. Descobrimos, através de conversas com amigos, que o Gómez estava a viver no Porto e, depois de explorarmos o catálogo dele, a escolha pareceu-nos óbvia. Queríamos que o álbum tivesse um som grande e orgânico, como o de vários discos clássicos de rock dos anos 90, tendo noção clara do impacto das diferenças orçamentais. Os discos de música mais pesada são particularmente difíceis de fazer soar bem, e conseguir transportar toda essa energia e dimensão para uma gravação não é tarefa fácil. A experiência foi impecável. O resultado superou as nossas expectativas, as sessões de gravação correram lindamente e, felizmente, criou-se uma grande ligação entre todos. Acabámos por ficar amigos!
Claro que uma editora com o nome “Fuzz Club” terá um plantel onde encaixem perfeitamente. Como tem sido essa parceria?
Para já, sentimo-nos muito bem entregues à Fuzz Club. O profissionalismo com que foi tratado todo o processo de pré-lançamento do álbum impressionou-nos desde o primeiro momento. Nota-se que são verdadeiramente apaixonados pela música e, além disso, é uma editora com um alcance superior àquele a que estávamos habituados até agora. Já éramos fãs da editora e dos projetos que representa há muito tempo, por isso esta parceria acabou por ser uma espécie de objetivo cumprido.
Também trazem novidades às letras, trocando os cenários fantasiosos dos registos anteriores por temas mais reais e atuais. Foi uma mudança consciente? Eram temáticas que tinham mesmo, inevitavelmente, de ser abordadas?
Foi uma mudança consciente, mas também bastante natural. Acho que, quando começámos a escrever o disco, sentimos que queríamos, ou até precisávamos, de abordar estas questões. No fundo, acho que isso acaba por ter um impacto diferente até na própria performance ao vivo, sobretudo para quem está em palco. Cantar sobre temas que nos são mais próximos e pessoais torna também o espetáculo e a experiência de tocar mais pessoais.
Já com tanto terreno conquistado, por tantos palcos por aí fora, o que ainda antecipam que este “Wasteland” vos traga e que passos ainda pretendem dar?
Podemos antecipar um 2027 ainda mais preenchido do que este ano. Já temos várias datas fechadas em festivais europeus e muita vontade de levar este álbum ao maior número possível de lugares diferentes. Estamos numa fase em que sentimos que já cumprimos praticamente todos os objetivos que tínhamos quando começámos esta banda, há quase dez anos. Estamos muito gratos e felizes por isso, mas também nos vimos obrigados a definir novos objetivos. Queremos continuar a fazer digressões, com cada vez mais qualidade e conforto, por isso os próximos passos passam por garantir uma maior sustentabilidade da banda, que nos permita investir cada vez mais na melhoria do nosso espetáculo ao vivo.