A “Wasteland” dos Travo é ruidosa, felizmente. Habituados a tratar com guitarras gritantes e muito fuzz, este conjunto de Braga encontra um caminho para variar a sua música psicadélica de marca, cheia de fuzz. Recorrendo a um palavreado mais corrente, “Wasteland” pode bem ser do mais barulhento que os Travo já fizeram.
Já havia muito que os distinguia. A começar por terem-lhe atribuídos, e assumidos, rótulos de heavy psych, rock progressivo, space rock, e até krautrock. Tudo termos na berra há umas boas décadas atrás. E, contudo, em nenhum momento nos dá a impressão de estarmos a ouvir (mais) uma banda revivalista. A forma como tratam e fundem esses célebres géneros, as camadas que lhes colocam por cima, tornam a sua psicadelia muito única. E tanto ruído que paira sobre a psicadelia de “Wasteland”. Do bom. Com estes riffs e o tal fuzz todo… Do óptimo, até. Do que mais facilmente inserimos também no noise rock (maldita necessidade dos rótulos), mas também esse incomum. As malhas já funcionam tão bem na sua forma directa, mas ainda tem os pormenores para descobrirmos depois. Claro que este quarteto bracarense vai brincar com sons.
É o que também ajuda a que algumas canções, cujo esqueleto seja mais naquela de “partir tudo”, tenha, na mesma, fases e build-ups. É o que se sucede em “Sleeper”, por exemplo, que já entra a todo o gás, e consegue ser crescente graças à camada sonora que se sobrepõe. E é uma electrónica algo suave que dá uma pausa para respirar na interlúdica “Silenced Soul”, mas também é uma batida mecanizada, quase industrial, que dá tanto peso à faixa-título antes sequer de se começar a desenvolver. Nesse núcleo dos temas, o tal que está por baixo daquela camada sonora, também existe muita variedade. Variedade que permita que a entrada directa, pesada e já algo metalizada de “Burial” tenha o mesmo ADN que a entrada calma e soturna de um prog mais contemporâneo de “Way Down”. Um estupendo convívio entre canções e um enigma sónico que nos obrigará a mais audições para descobrir mais coisas. Claro que isso se alia àquelas coisas, como os fantásticos solos de guitarra e a gritaria pegada, mas com os Travo até se torna difícil estar a focar em detalhes. Mas soam focadíssimos, e “Wasteland” é para ouvir. De muitas formas, mas para ouvir.