MENUMENU

Reportagem


Pussy Riot

Onde começa a arte e acaba a mensagem? E vice-versa?

Vodafone Paredes de Coura

17/08/2018


© Hugo Lima

Onde começa a arte e acaba a mensagem? E vice-versa? As Pussy Riot são um dos acontecimentos na edição de Coura deste ano. Pelo que representam em termos de mensagem política, de oposição a Putin na Rússia dos dias de hoje, pelas posições abertamente feministas num país conservador em termos de costumes. E é isso o mais positivo, a oportunidade de conhecermos um pouco melhor o pensamento das corajosas jovens russas, através das entrevistas que deram na curta passagem por Portugal. E o resto? Bom, o resto é paisagem.

Em palco, por detrás das máscaras balaclavas, não podia faltar a mensagem política e social.  Há uma homenagem ao realizador ucraniano Oleg Senstsov, detido pelas autoridades russas e em greve de fome há quase 100 dias. Há um tema irónico chamado “Make America Great again”. E as corrosivas letras em russo têm tradução em inglês nas projecções vídeo, embora com alguns problemas técnicos e uma legibilidade algo complicada. Só que depois há a música. Em vez das guitarras punk, tremendamente rudes e sujas, ouvimos algo próximo do trap. Um amontoado de baixos pesadões a metro, intercalados por uns sons quase infantis. Ou seja, música para pastilhados (que pouco se lembrarão da mensagem transmitida) com laivos de Hello Kitty. Resultado: coisa para qualquer melómano que se preze fugir a sete pés. A música de intervenção tem duas coisas: a “música” e a “intervenção”. Uma delas não passou pelo palco secundário de Paredes de Coura.

Texto por João Torgal

 

Habituadas desde há anos à guerrilha, as Pussy Riot (ou as integrantes mais conhecidas do público) foram a mais curiosa confirmação desta edição; não tendo levantado grande celeuma a sua vinda, a qualidade do dia de concertos levou a que quase nos esquecêssemos de que havia bronca em perspectiva no after. Diga-se: por muito esforçado e aguerrido que seja o colectivo russo (agora em parte radicado nos Estados Unidos), a punk lo-fi que editou no passado nunca levantou grande interesse ao melómano ocidental, nem sequer ao adepto do género.

Depois de toda a polémica de 2012, de detenções, julgamentos, condenações e prisões, ei-las chegadas a 2018 aparentemente livres (fugidas para paragens mais simpáticas, que nem Anna Karenina de Tolstoi, mas sem os seus respectivos Kirillovich?) e nas margens do Coura. Duas e pouco da manhã e logo a primeira ironia/sarcasmo: uma multinacional de comunicação a patrocinar um manifesto de denúncia política de cerca de cinco minutos (o FSB esfrega as mãos de contente para um videozito de propaganda). De seguida, arrancou a música (?).

Se enveredarmos por uma perspectiva puramente musical, foi um espectáculo peculiar: demasiado infanto-histérico e açucarado, com as feromonas do escândalo aos saltos; comparar presos políticos a unicórnios em 2018, amigas? Já se formos por uma óptica cujo substrato é o das mêmes neteiras do mundo eslavo, foi um showzaço de bola. Hard bass para partir chão, uns laivos de eurodance e javardice contestatária a rodos, com uma belíssima Straight Outta Vagina para colocar as coisas em perspectiva no que respeita à condição jovem feminina na Rússia e um pouco por todo o lado.

Quase sempre encapuzadas (menos Nadezhda Tolokonnikova), deram uma pantomina que, infelizmente, não teve direito ao slav squat e, parece-nos, ninguém lhes chamou cyka blyat. Uma actuação ambígua, com uma desagradável ironia (a apontada supra), transgressividade infantil, mas com muita festarola que, honestamente, era isso que a esmagadora maioria do público queria. Um spasibo para as Pussy Riot, mas menos histeria e mais garra Mayakovskiana (ou não fossem Trump, Merkel, May, Macron e etc. filisteus da financeirização das economias ocidentais) para a próxima.

Mas podem trazer o hard bass, os Volgas e as projecções todas. E nós faremos os squats, que nem gopniks lusos.

Texto por José V. Raposo


sobre o autor

Joao Torgal

Partilha com os teus amigos