MENUMENU

Reportagem


Papa Roach + Ho99o9

Uma adolescência perene

Coliseu dos Recreios

17/10/2017


Há reportagens que se escrevem sozinhas. Muitas vezes o ângulo de abordagem é sacado a ferros quentes para criar uma narrativa, mas quando ele se apresenta de forma tão óbvia há que aproveitar. A actuação dos Papa Roach no Coliseu de Lisboa é um desses presentes porque o que faz uma narrativa – à lá Joseph Campbell – é o conflito. No caso, o conflito entre o que seria de esperar de um concerto da banda de “Blood Brothers” em 2017 e aquilo que tivemos.

Uma hora antes da abertura das portas há duas pequenas filas à porta do Coliseu. Até aqui, nada de novo. Justifica-se a fila? Nem por isso, o Coliseu esteve a meia lotação. O que é interessante constatar – e francamente surpreendente – é a média de idades do pequeno exército Papa Roach.

Sentimos que não podemos partilhar da mesma história sobre como ouvimos Papa Roach pela primeira vez com o resto da plateia. Não temos a certeza do que veio primeiro, se o Now4 que recebemos como prenda e que tinha a “Last Resort” colada à “Rollin” dos Limp Bizkit, se o mítico Tony Hawk Pro Skater Underground, o que garantimos é que a maioria daqueles que nos cercam ainda gatinhava ou nem sequer tinha nascido nessa altura.

Temos o primeiro conflito e o espetáculo ainda nem começou: os Papa Roach deviam ser uma banda a dar concertos a bordo do S.S. Nostalgia. O que os Papa Roach são é uma banda para adolescentes. Quase 20 anos depois. O Acosta ainda jogava no Sporting.

Credo, até o ano 2000 já foi há muito tempo.

Voltemos ao presente.

Perto das 20h o público que ocupa o espaço em frente ao palco mal chega à régie. Os Ho99o9 (lê-se Horror) não esperam muito mais tempo e entram em palco para uma actuação explosiva e esforçada que caiu em saco roto. O hip-hop hardcore do trio convive muito bem com o dos Death Grips e quanto a nós nunca haverá bandas suficientes baseadas na premissa “aqui está um beat, vamos deixar o baterista enlouquecer,” mas os fãs de Papa Roach, pelo menos os portugueses, não estão para aí virados. Foi o melhor concerto que ninguém quis ver. Até faríamos a piada de que seriam precisas acrobacias, mas tivemos direito a uma cambalhota e um mortal para trás.

Ho99o9

Ho99o9

“Lisbon how are you fucking doing tonight?”, perguntava Eaddy.“ It’s our first time here. We played Porto – leia-se Paredes de Coura – before. Shit was tight.” Apostamos que sim, mas são públicos diferentes.

Nas notas que escrevemos temos a frase “os Ho99o9 mereciam um público mais disponível para levar na boca.” Isto foi antes de sabermos do moche que surgiria assim que o concerto dos Papa Roach começasse. Foi uma pena; os Ho99o9 abandonaram o palco com as palmas da praxe, mas foi óbvio para toda a gente que mais valia terem ficado em casa.

Cai o pano sobre o primeiro concerto da noite. E não o digo metaforicamente: um pano com a imagem de uma boca a promover a digressão “Crooked Teeth” obscura o palco atrás de si. Levantar-se-ia 40 minutos (!) depois quando uma voz robotizada nos avisa do início do espetáculo e incentiva as palavras de ordem: “Fuck Papa Roach!”.

Os californianos entram em palco e colocam-se em posição. Jacoby Shaddix é a figura de proa e tem um lugar elevado na frente do palco. “Are you ready?”, pergunta. Ninguém estava, mas a banda lança-se a “Crooked Teeth,” faixa homónima do último álbum e o caos está lançado.

Temos o segundo conflito: as canções mais recentes de Papa Roach são – qual é a palavra – boas?

Numa altura em que os seus pares estão velhos e esquecidos, os Papa Roach parecem ter descoberto a fórmula da longevidade. No início do novo século surgiram aglomerados aos não sei quantos nomes do Nu-Metal. O estilo foi um autêntico lusco-fusco musical; durante cinco, sete minutos não havia coisa maior, mas rapidamente o mundo se virou contra ele. Quanto à banda, quando a maré mudou, adoptaram uma estética mais emo. A transição não foi difícil, as letras dos Papa Roach sempre foram muito confessionais e a banda sempre teve uma vertente mais punk que a diferenciava dos seus comparsas. Ajudou que Jacoby tivesse a capacidade vocal para existir no mesmo campeonato dos MCR e Panic! At The Disco. A mudança de estilo ajudou-os a continuarem relevantes dentro de um público adolescente, mas para a crítica foi como saltar da frigideira para o fogo. Agora que a moda de ser saudosista dos anos 90 cede lugar aos saudosismos dos 2000, os Papa Roach sintetizaram os dois estilos. Deixem-nos ser pedantes: os Papa Roach pegaram na lógica hegeliana para garantirem que são sempre actuais.

Papa Roach e Hegel na mesma frase; é um admirável mundo novo.

Papa Roach

Papa Roach

Claro que ao vivo os velhinhos êxitos continuam lá. “Getting Away With Murder” é o segundo tema da noite, de lovehatetragedy (2004), acompanhado de “Between Angels And Insects” do álbum Infest que os deu a conhecer ao mundo em 2000. Dezassete anos depois, os Papa Roach estão um bocadinho mais velhos – aqueles skinnyjeans estão a fazer o trabalhinho de Deus – mas a energia continua perene. Quando Jacoby aparta os braços pedindo uma parede da morte, esclarecemos as dúvidas que sobravam: estes tipos nunca cresceram.

“She loves me not” é o primeiro tema da noite que nos faz reviver os verdes anos da nossa vida. Também a banda aproveita para apelar a memória. “How are you feeling tonight?,” pergunta-nos o último dos moicanos punk. “How many years has it been» 12, 15?”. A internet diz-nos que foram 15.

O ritmo do concerto é implacável, mesmo as iterações pela fase mais emo não o faz perder ímpeto. Na plateia, o mosh vai fazendo com que o suor se partilhe entre aqueles que aderem à festividade, quer queiram quer não. Há pausas pontuais para se cantar a peito pleno “Scars” e “Periscope” e deixar expiar as agruras da adolescência, mas há sempre uma mudança preste a ser engatada.

“Are you ready to take this show up a fuckin notch?” pergunta-se retoricamente em palco. E de repente: “Song 2” dos Blur.

‘Tá certo. É gratuito, mas não nos queixamos.

Não seria a única cover da noite. Em “Forever” há uma incursão por “In The End” dos Linkin Park. “We miss you Chester, for real.”, sentimento que o público ecoa. Como Jacoby disse, 2017 levou alguns dos melhores. Mas lembremo-nos disto porque temos que voltar ao tema daqui a dois parágrafos.

Segue-se “Bloodbrothers,” que soa tão bem hoje como quando passava na MTV, e “American Dreams” com um acompanhamento de lugares comuns sobre paz e humanidade que não nos apetece reproduzir. A setlist termina com “Lifeline” e “Help” que preparam um encore descaradamente óbvio.

Os californianos voltam ao som de “None Of The Above” e “Dead Cell”. Mas o prato forte viria com “Last Resort” e “…To Be Loved.” A propósito – temos que falar sobre “Last Resort”.

O maior tema dos “Papa Roach” envelheceu com pouca graciosidade. Não nos interpretem mal, é um grande tema, mas é uma canção sobre suicídio nada subtil. Letras como “Would it be wrong, would be right if I end my life tonight, chances are that I might” soam quase a ameaças feitas casualmente. Numa altura em que a depressão merece um olhar mais atento como a causa de alguns suicídios recentes, fazer parte de um momento de celebração ao som deste tema é, no mínimo, esquisito. Claro que nada disto afectou o espectáculo, nem aqueles que pagaram o bilhete para ouvirem esta canção, mas o nosso trabalho aqui passa por esmiuçar cultura pop e não podíamos não mencionar este aspecto.

Felizmente “…To Be Loved” é bem mais divertida e com todos os seus “woooo oooohs” voltamos para casa com os espíritos elevados.

O Coliseu de Lisboa sai exausto. O que faltava ao público em número foi compensado em energia e os Papa Roach retribuíram-na em género. Faz sentido que o concerto tenha sido assim tão bom? Algum. Se aprendemos alguma coisa com os Bush é que estas bandas precisam de oferecer algo ao vivo que vá para além da qualidade dos temas em estúdio. Mas ao contrário dos Bush, os Papa Roach não estão dependentes daqueles que ouviram os seus êxitos na altura em que foram lançados. Tanto os temas antigos como os mais recentes continuam a recrutar novos fãs das fileiras da adolescência.

Os nossos parabéns. Agora, alguém que avise os millenials e o pessoal do 9Gag que os memes do “és uma criança dos noventa se te lembras de…” e as think pieces sobre eles estão prestes acabar. Deixem passar a geração Z e a nostalgia pelas calças Fubu. Crazy Town nos Coliseus, já.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Jorge De Almeida

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