Reportagem


Comeback Kid + Backflip + Nasty

Backflips e rotativos

RCA Club

04/02/2018


A digressão encavalitada sobre o mais recente álbum dos canadianos Comeback Kid passou por Portugal nos dias 3 e 4, no Porto e em Lisboa, respectivamente. “Encavalitada”, porque os temas de “Outsider” ouviram-se demasiado infrequentemente para o predicado ser “promover”. Contudo, parece não haver razões para queixas numa noite que viu mais mergulhos do que um higlightreel do Ronaldo.

Já lá vamos – e a uma pequena nota sobre etiqueta de concertos.

A noite começou com um ligeiro atraso e a fila que se acumulava quase uma hora antes das portas abrirem não ficava mais pequena. Tanto melhor, seria mais público para assistir ao concerto dos Backflip e dos Nasty enquanto os veteranos do hardcore não pisassem o palco.

E então, os Backflip

Em primeiro lugar, “olá”. Ainda não nos conhecemos e sentimos que haverá quem nos leia que ainda não sabe de quem estamos a falar. Se esta reportagem servir para alguma coisa, que seja para corrigir esse opróbrio. Afinal de contas, como explicava a vocalista, Inês Oliveira, por entre referências a antigos membros e a “muito amor”, este é o ano em que banda celebra 10 anos de existência. E é de nós, ou os Backflip são muito melhores que o average bear do hardcore? A energia do público e o som da sala ajudaram, pela certa, mas há mais garra e solidez na performance dos Backflip do que aquilo que se ensina na escola. Há um talento e apelo universal que converte até os que não são fãs do género. Sabem a qualidade indefinível de bandas que transcendem géneros? É isso. Pode ter sido da alegria palpável de estar a tocar com os Comeback Kid – o hoodie da vocalista denuncia a fandom -, mas vamos assumir que é mais do que isso e prestar atenção doravante como forma de pedir desculpa. A estrela do set foi “Born Head First” que fez ecoar o chavão “no surrender” em cima do palco e cá em baixo, com um público que começou tímido, mas que foi vencido pelos apelos de tornar este concerto tão bom como o do Porto. Esperemos que tenha sido.

Backflip

Backflip

O concerto termina com a turbulência energética  duma aterragem forçada – nota: o hardcore termina sempre antes da hora – e caberia aos Nasty manter o espírito da festa.

A missão é cumprida, mas há que apreciar a diferença na abordagem. Se os Backflip representam a vertente mais melódica do hardcore, com refrães de apelo pop, os Nasty ignoraram de alto a noção de soar bem. Tudo vive para o ritmo. As guitarras, o baixo, tudo serve para pontuar as batidas por segundo da percussão. E resulta. Resulta em festiva violência e num poço de pancadaria acordada, mas se funciona, não mudem nada. E só para ter a certeza que falamos a mesma linguagem, “pancadaria” não são empurrões mais vigorosos e a versão Rock In Rio de um mosh pit. Não, são rotativos e murros atirados a toda a gente e a ninguém. Agressão consentida. Stage diving que só por delicadeza não era de pés primeiro. Há uma metade do público a embarcar no caos e a outra cá atrás a decidir que não têm seguro dentário que justifique o risco. Mas tudo bem, há um acordo não falado de que isto vale (desde que sempre que alguém cair seja levantado) e que quem não quiser participar põe-se ao largo. O contexto em que o concerto acontece justifica-o.

De volta aos Nasty. O concerto precipata-se a grande velocidade e o público da frente acompanha, talvez sem surpresa, grande parte dos temas que traz sabido. As figuras do vocalista e do baixista belga comandam atenção pelo olhar maníaco e postura em palco. (O guitarrista também, mas porque tivemos que olhar duas vezes e consultar a Wikipédia para ter a certeza que o Kevin James não tocava numa banda.) “My english sucks right now,” declarava a figura alta, loira, cabeça rapada de lado, mas risco ao meio, que também envergava merchandising dos Comeback Kid. Por entre agradecimentos, e pedidos de aplausos paras as outras bandas da noite, houve dedicatória à “família” que ali estava e uma declaração de guerra aos que se acham melhor que os outros por virtude de classe social, dinheiro ou raça -“You are not welcomed” –  e o RCA implode num mar de braços e pernas que se jogam com a ânsia de quem foge de si mesmo.

Nasty

Nasty

Rondam as 22.30 e faltam os convidados de honra entrarem em palco.

Os Comeback Kid, por esta altura, já teriam tudo para serem uma instituição do hardcore e do punk. Da mesma maneira como pensamos em bandas rock consagradas como instituições (ver Pearl Jam, Foo Fighters et al.), os canadianos poderiam ser enquadrados da mesma maneira no seu nicho. Só que não.  Não há um sentimento de distanciamento entre a banda e os fãs, típico daqueles que pomos em pedestais. O que nos leva à tese central da reportagem: Os Comeback Kid não são a nossa banda favorita e temos pena. Quem nos dera que fosse tão simples subir ao palco da banda que nos define, cantar de mão no ombro do vocalista e casualmente voltar ao público via mergulho de cabeça. Mas para alguns dos putos (e outros não tão jovens) um concerto de Comeback Kid é exactamente isso. E não estamos a falar em abstrato, porque vimo-lo com os nossos olhos.  Porque podemos usar os adjetivos “intimista” e “familiar” o quanto quisermos, e dizer que houve grande comunhão entre banda e público num festival, mas nunca é exatamente desprendido de hipérbole. Nunca é o Andrew Newfeld olhar para o andar de cima e dizer-nos que também temos que cantar, a rapariga ao nosso lado responder com um manguito e receber um fixe de aprovação de volta. Nunca é seres uma pessoa ao invés de uma amálgama de humanidade. Mas ali, no pequenino RCA – cheio – com banda que para muitos é maior que o mundo, é exatamente isso. E desculpem a reportagem estar a ser muito menos “tocaram a canção X do álbum Y e o povo gostou” e mais um discorrer abonatório sobre concertos de hardcore, mas quem esteve lá não precisa de um resumo e quem não esteve, talvez beneficie de perceber o apelo.

Principalmente porque os Comeback Kid são tão fãs de Portugal que mais valia serem parte da cena. Newfeld parece ter o vernáculo dominado e antes de alguns temas houve menções e dedicatórias aos Devil In Me (e Sam Alone) e aos Reality Slap. De certeza que o Zé Pedro mereceu a homenagem dos Metallica, mas alguém acha que a maior banda de metal do mundo já ouviu o “Circo de Feras“? É a diferença. Quando és transversalmente grande, sacrificas honestidade. Não há volta a dar.

Bem, voltemos ao concerto só para isto não se tornar num texto de opinião. Os momentos da noite vão para “Didn’t Even Mind“, “Somewhere, Somehow” e a perene “Wake The Dead“. Os refrães orelhudos ajudam e a participação impecável do público foi incrível. (Ao tipo que usou um gajo a fazer crowdsurfing como plataforma para um salto maior; foi giro, mas menos, pode ser?)

O concerto termina antes da hora marcada(!) porque em palco o ímpeto de tocar e saltar nunca esmoreceu. Não há encores, porque é um concerto sem merdas. Obrigados e promessas de voltar que nem precisariam de ser feitas anunciam o fim. Ficou feito. Alguns membros, disse-nos anteriormente a figura de proa dos canadianos, ainda ficariam por Portugal. A nossa casa é a vossa casa.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Jorge De Almeida

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