Novo Jejum do Colectivo Casa Amarela na Galeria Zé dos Bois

por José V. Raposo
Novo Jejum do Colectivo Casa Amarela na Galeria Zé dos Bois
© Camille Blake

O Colectivo Casa Amarela, entidade maior do experimentalismo sónico nacional, prossegue na sua demanda em matar a fome com o Jejum, a sua iniciativa (agora itinerante) que dá a conhecer, desde há vários anos, muito do melhor que se faz por cá e lá fora em matéria de ambient, noise e pop bem fora da caixa. Sem preconceitos nem quaisquer peias artísticas, o Jejum chega à sua edição número 43, contando com a dupla bela e Vomir. O festão está marcado para a Galeria Zé dos Bois já no próximo dia 31 de Julho, sexta-feira, às 22h00.

Artista de origem sul-coreana assente entre Berlim e Praga, bela opera num complexo e cativante espaço de transformação. Dissecando a tradição musical da sua terra natal, apodera-se de elementos estéticos e de memórias coletivas para os integrar numa moldura de gravuras texturalmente exuberantes. Sente-se o arranhão nas cordas, vocais e instrumentais, num ambiente inóspito, revelador de detalhes capazes de abrir brechas no chão. São composições sinestésicas e surrealistas, de carne e osso, que se alojam nos confins da consciência. Brilhante na gestão microtonal que frequentemente convoca, o som derrete-se e o metal respira numa experiência imersiva que, com notável fluidez, não cessa de sondar novos territórios.

Um dos melhores segredos deste ano chama-se Korean Love Sonnets. Documento sonoro intensamente vívido, centrado na voz, propõe um conjunto de mantras guturais, som em estado bruto e outras fantasias psicotrópicas envoltas em lava quente e fumegante. Trilhando caminhos sob a detonação de nomes como Wolf Eyes, Okkyung Lee ou Sunn O))), gere a tensão a partir de uma ótica indutora de um profundo estado de absorção emocional e sensorial. Do histórico Berghain ao não menos mítico Café OTO, passando por certames de referência como Rewire e Unsound, bela move-se sem fronteiras geográficas, estilísticas ou identitárias. Uma valente cartada na música exploratória dos nossos dias.

Quanto a Vomir, é já uma figura veterana, embora ainda desconhecida para muitos. Trata-se do francês Romain Perrot, que dedica há mais de duas décadas a sua actividade ao êxtase do imaginário europeu da música extrema. Visão que viria a materializar no seu Manifesto do Muro Brutalista. Enfant terrible por natureza, apresenta conceitos radicais e subverte percepções estabelecidas. Enquanto epicentro filosófico do harsh noise wall, a sua indagação da matéria sonora mais bruta parece invariavelmente sedenta por ir mais longe. Minimalista, saturado e volumoso, o seu trabalho gera uma sensação de sucção quase física. São já cerca de três centenas de registos a alimentar este fluxo sónico que continua em permanente expansão.
Símbolo de militância dentro do género, Vomir não só reuniu admiradores como ajudou a nutrir toda uma comunidade. Da sua editora, Decimation Sociale, às inúmeras colaborações e projectos paralelos, a hiperactividade de Perrot reflecte partilha e resistência. Um verdadeiro tropa que, em palco, construiu um mito assente em abordagens inusitadas, elegantemente conceptuais e confrontacionais.
Salvo casar (porque, como se sabe, depois entra Agosto), não se conhece melhor programa para este 31 de Julho vindouro, num Jejum que não deixará ninguém com fome. Mais informação e bilhetes ali dentro e não se esqueçam dos tampões.
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