Continuam a estar na capa do manual do black metal atmosférico, os Wolves in the Throne Room, e isso traz um fardo para carregar. Porque cada novo álbum (até mesmo quando cometem a descarada ousadia de fazer um disco ambiental) vira logo obra-prima e já aumenta a pressão para que o seguinte o volte a ser. “Estuary” torna a consegui-lo de forma surpreendente: através da redução de coisas.
Não é que os Wolves in the Throne Room fossem daquelas bandas excessivamente experimentais, mas nunca foram usuais, sempre trocaram algumas voltas nas suas estruturas, sempre acrescentaram outros elementos instrumentais, ambientais e folclóricos, para dar sempre roupagens diferentes aos seus temas. E “Estuary” ainda não é propriamente banal, continua o hábito da banda de pintar belas paisagens para lhe acrescentar a camada de negrume por cima. Mas aqui a paisagem, à partida, já parece mais sombria. E todo o processo mais cru. Habituados a trazer o gelo do estado de Washington para mostrar que dá para haver outro forte berço disto fora do velho continente, abrem este disco com uma faixa-título que será do black metal mais puro e cru que já terão feito. E é algo que nos saltará ao ouvido ao longo de todo o disco, que nos surpreenderá no violento assalto de “The Orca Cliffs”, mesmo que não se evitem as influências exteriores na mesma.
Um doom quase gótico paira sobre a chuvosa “Knights of Tiamat”, e tocam sinos que parecem avisar o apocalipse na catártica “Foretold in Reflections”. Os elementos são mais subtis (“Ghosts Among the Obelisks” também atinge ali algum ponto extradimensional, com algumas influências improváveis), mas também não se limita a ser apenas black metal no estado mais simples (“Wretched Spirits, Land of the Light” até importa riffs e tremolos da Noruega, mas até são capazes de vir com a etiqueta “Emperor”). E a temática pós-apocalíptica, da Natureza a retomar posse da Terra após um culminar auto-destrutivo da tecnologia pode parecer um cliché, mas nas mãos dos Wolves in the Throne Room, acaba por ser adequadíssimo e familiar. Se ficarão saudades de algumas excentricidades, passagens de dungeon synth, ou instrumentalizações mais fora da caixa, pode ser que regressem no próximo. “Estuary” veio das entranhas e é com as nossas que pretende mexer. Até contidos, os Wolves in the Throne Room são uma banda cheia de truques.