Descabido estar aqui a fazer algum tipo de apresentação do senhor. E também não será muito menos esperar que, aos 83 anos, esteja tudo tal e qual como estava nos seus tempos de glória, até esses a abranger várias décadas. E anda por aí a dizer-se tanto que tinha mais uma obra-prima em si, a essa idade, com este “The Boys of Dungeon Lane”. O que pode parecer mero discurso de simpatia, os redutores louvores que se dão ao “idoso” por ainda conseguir fazer uma coisa destas… Podemos confirmar que, afinal, está perfeitamente justificado.
Nota-se envelhecimento na voz, claro. Mas não fica mal. Como também vai sendo apontado por aí, torna-o mais vulnerável, o que condiz perfeitamente com a inevitável temática deste disco: olhar ao passado. E para onde mais havia de olhar? Com a carreira que tem? Olhar aos tempos em que fazia parte daqueles tais quatro que diz que deixaram uma certa marquinha na indústria musical, de quando rockou em família, de experimentalismos, e até tempos em que esteve morto e substituído por um sósia. Não faltou coisa rigorosamente alguma no seu percurso. Quando fez parte do monólogo do final de temporada do Saturday Night Live deste ano (com um Will Ferrell a ser, de início, hilariantemente substituído por Chad Smith), tiveram o momento de listar grandes canções que já escreveu, e ocupou uma significativa porção de todo o sketch: e nem uma pontinha do seu legado realmente cobriu. E é esse escritor de canções que aparece em “The Boys of Dungeon Lane”. É esse escritor de canções que estuda as suas próprias lições para um álbum retrospectivo, mas naturalíssimo nesse papel.
Vai existir aqui algum ocasional rockanço à Wings, como não fazia há um tempo, que vai conviver com canções tão acolhedoras e que nos levam directamente para a sua década de 80. A reunião possível é feita com a participação de Ringo que, mesmo proporcionando um momento muito Beatles, até é possível que nem seja a canção mais Beatles do conjunto. Os truques novos, Paul deixa-os para os novos. Analisou bem os seus velhos truques (só ficou a faltar alguma coisa mais marada, tipo a “Temporary Secretary” e isto ficava mais completo ainda), como quem vem com a missão de provar que ainda consegue. Os aplausos não são só por um disco ambicioso nesta fase da carreira (e da vida), nem pela carreira irrepetível. São mesmo por “The Boys of Dungeon Lane” ser mais um grande disco que ainda tinha dentro de si, a esta altura. O que andam todos a dizer, portanto.