Muito tempo desde os clássicos, dez álbuns, os Muse já começam a transitar para as playlists de “rock clássico de pai”, sem exageros. Já têm pontos altos, muito altos, baixos… Infelizmente também muito baixos. Um repertório que lhes permite chegar a “The Wow! Signal” capazes de amalgamar a própria carreira. O problema é quando, ao tentar amalgamar, apenas acaba por salganhar. Quem pousou o “Will of the People” há quatro anos atrás com desgosto, depois de o ouvir a primeira vez, saberá bem ao que isso é referente.
Faz um tempo que a expectativa para um novo trabalho dos Muse é abordada com cautela. Também a entrada para este “The Wow! Signal” é feita desse modo: “The Dark Forest” abre a festa com a cavalgada característica, toda aquela pompa sinfónica, e até a melodia vocal de Bellamy soa familiar, antes do arranque à “Knights of Cydonia” ali no meio. Sugere-nos o primeiro “throwback”. E segue-se “Nightshift Superstar” que já traz novamente muita electrónica e abre uma festa de “disco espacial”, ou lá o que se arranja para descrever. Ainda temos muito pela frente, e a cautela mantém-se, que isto ainda pode disparar para todos os lados sem encontrar nexo. Mas, para já, destaca-se uma coisa: são canções fortíssimas, e também andava a faltar disso aos Muse. E existirá mais disso, à medida que se vão realmente revisitando a si próprios.
Encontram o ponto certo quando criam parentes de alguns dos seus clássicos, sem estar a copiá-los (“Cryogen”, por exemplo, uma prima directa da “Plug In Baby”), quando surpreendem com algum do seu material mais pesado desde a “Stockholm Syndrome” (“The Sickness of You & I” vai fazer alguém procurar algo com o sufixo “core”, e “Unravelling” engana ao parecer, inicialmente, uma irmã da “Madness” antes de deixar riffs bem graves rebentar com a ilusão), ou quando experimentam com electrónica e pop, sem deixar que isso os engula, ou com algumas escolhas surpreendentes mas bem executadas (a participação de Ellie Goulding em “Hush”), para reconfortar quem ainda tem ecos de uma “Unsustainable” a musicar-lhe pesadelos, ou quem acha que a “You Make Me Feel Like It’s Halloween” teria mais graça se já não existisse desde 1983. A emocional balada “Space Debris” (algo diferente do que costumamos ouvir deles) fecha um conjunto que, afinal, surpreendeu pela positiva. Ainda antes do meio já tínhamos baixado a guarda e já estávamos curiosos com o que poderiam fazer a seguir. Algo que não sentíamos com os Muse há um bom tempo. A amálgama não se salganhou, afinal. Em vez disso, “The Wow! Signal” deixará alguns mais cínicos a desejar que isto tivesse saído a seguir ao “Black Holes and Revelations”.