Pode parecer que os Cancer Bats já foram uma coqueluche maior dentro do hardcore do que hoje em dia e é possível que assim seja. Mas “Give Me Dirt” não deve ser encarado como um regresso, já que nunca foram a algum lado. Nem um recomeço. Mas pode haver qualquer coisa de renascimento, a partir de inspirações diferentes, já que Liam Cormier inspirou-se e trabalhou durante um retiro em maior contacto com a natureza. Não estranhem se encontram aqui um disco com essa temática, com preocupações ambientais, e com uma objecção à actual overdose digital e ao demónio da IA. Tema batido? Não, infelizmente, ainda é capaz de ser necessário, e afinal os Cancer Bats são perfeitamente pertinentes hoje em dia, tanto ou mais como nos seus dias de maior hype.
Já vão mais do que uns bons quinze anos desde que se meteram pelo mainstream dentro com a sua versão da clássica “Sabotage” dos Beastie Boys. Não foi igualado e isso ajuda a parecer que realmente se tenham desvanecido. Não foi assim tanto, mas é possível considerar que o “Psychic Jailbreak” tenha passado mais despercebido que o que devia. Também pode ser libertador. É que a banda podia estar sediada no hardcore, mas era capaz de inserir muitas influências, metalizar-se um pouco, de modo a não agradar tanto a alguns puristas. “Give Me Dirt” representa bem essa liberdade. Soa a Cancer Bats e isso implica que não vão estar amarrados a um hardcore de base. Melódicos foram sempre, mas parece que andam ainda mais à caça do “catchy” nestas canções.
Em “Give Me Dirt”, é como se estivessem mesmo a escrever canções de rock, as que não dispensam um airplay, e depois disso é que as cobrem de agressividade. O manto de hardcore é o que deixa as canções devidamente equipadas para a agressividade que é habitual nos Cancer Bats e para condizer com a revolta das temáticas. Ginga também algum do seu material mais sulista e temos um disco de Cancer Bats, à primeira muito simples e aparentemente muito “dentro dos parâmetros”, mas que cresce a cada audição e até revela alguma surpresa ou outra escondida. É a resposta para os desatentos que não lhes têm dado o devido destaque. “Give Me Dirt” não é para ser assim tão facilmente dispensado.