Entre o romance de Emily Brontë e a adaptação de Emerald Fennell acumulam-se décadas de releituras, revisões e apropriações. Hoje, o legado do género literário em causa circula noutro regime de consumo, mais veloz e exposto ao impulso das tendências e dos algoritmos. Nos últimos anos, parte desse fenómeno encontrou no BookTok (nicho do TikTok dedicados a livros) um dos seus pilares, sobretudo entre leitores jovens, aos quais o eixo narrativo do erotismo dentro do romance é vendido sob uma camada estética que reflete alguns dos fatores apontados pelas estatísticas sobre a inexperiência e o crescente isolamento da Geração Z.

Wuthering Heights parece compreender bem este novo contexto e decide manuseá-lo sem pudor. Fennell chegou mesmo a afirmar que não pretendia adaptar o livro em sentido estrito, mas aproximar-se da impressão que este poderia causar numa adolescente que o lesse pela primeira vez. O seu filme parte precisamente daí e recorre a uma versão soberbamente estilizada e provocatória do motivo gótico, como se procurasse converter a essência da obra da autora britânica numa fantasia febril pronta a ser recortada em quadros de culto. A intenção percebe-se desde muito cedo e raramente é disfarçada: a banda sonora, em gesto de aproximação à contemporaneidade, composta maioritariamente por canções originais de Charli xcx, a encenação em registo de pose e os planos centrados na vertente pictórica trabalham todos na mesma direção. O problema é que se impõem com tal insistência que o aparato deixa de acrescentar valor à tragédia e passa a substituí-la.

É também nesse desvio que a interpretação de Jacob Elordi encontra um limite. Há momentos em que a presença do ator basta para imprimir magnetismo, mas o seu Heathcliff surge principalmente como objeto cénico construído para concentrar uma aura de (des)aspiração, desejo e fetiche. Já Margot Robbie, interpreta a Cathy que o enredo lhe solicita, sem grande inclinação para escapar à ideia do corpo de paixão, histeria e sofrimento, constantemente à mercê do espectáculo trágico que a envolve.

Ainda assim, seria injusto negar que a realizadora encontra, de quando em quando, instâncias de verdadeira dimensão artística. Existem cenas em que o fulgor criativo se escusa da parecença a um truque da afirmação autoral e alcança a espessura da identificação e da cartase genuínas. Nessas, o filme aproxima-se do potencial de uma leitura mais livre do texto original, que só se frustra, porque a sua estrutura é frágil e contém também ocasiões que parecem pensadas para sobreviver isoladamente, como arranjos visuais destinados a perdurar fora do desenvolvimento orgânico da trama.

Ao adotar uma abordagem atualizada, Fennell revela intenção e consciência geracional. Ainda assim, este Wuthering Heights instala-se num território intermédio, onde a força do romance original se dilui e a reinvenção proposta acaba por impressionar, acima de tudo, pelos seus traços mais coloridos e ostensivos.


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