Montanha

por Ana Ferraria

Os anos da adolescência surgem como uma fenda da vida do homem.

Título Português Montanha
Ano 2015
Realizador João Salaviza
Elenco David Mourato, Maria João Pinho, Rodrigo Perdigão, Cheyenne Domingues
País Portugal
Duração 90min
Género Drama
Montanha
9/10

Montanha, a primeira longa metragem de João Salaviza (premiado já em Cannes e Berlin), surge na sequência de duas das suas curtas, Arena (2009) e Rafa (2012), e debruça-se fundamentalmente sobre os anos da juventude, as suas transformações, as novas experiências, a desolação e a isolação a que os jovens se sujeitam.

É o verão, David tem 14 anos, quase 15, como ele diz, vive no oriente lisboeta (o bairro dos Olivais), entre prédios áridos e questões de embaraços sociais e económicos. A mãe volta de Londres porque o avô está muito doente, acabando eventualmente por morrer e esta é a história de uma mão cheia de dias na vida de um jovem que, não fora a presença da mãe e a morte do avô, pelo qual David chora e volta ao estado humano que a adolescência tem tendência a alienar, se assemelhariam a todos os outros dias daquela fase da vida.

Os anos da adolescência surgem como uma fenda da vida do homem, durante os quais as outras idades passam para o outro lado da barricada e a ser vistas como inimigas, como coisas a que fugir e, em último caso, abater. As figuras familiares quase não intervêm e os representantes das instituições públicas, na escola ou no hospital, são eliminados pela câmera. Também os conflitos internos afloram, as amizades são postas à prova, quer por rivalidades amorosas, quer pelo simples ímpeto da reforma revoltosa. O fogo que sacrifica a mota que David e o amigo roubam no início do filme purifica também o estado de independência do homem, que se prepara para o ser, consciente da solidão da sua condição da inconstância das relações humanas, assim como de tudo o resto.

A intenção do realizador fora focar-se no personagem, David, com mais tempo do que o que tivera para Rafa, para lhe ver os movimentos e auscultar o tumulto das ideias, as tentações e a fonte de vida de quem assume não querer nada do futuro a não ser “uma cama e comida”. A montanha da vida parece atingir a maior inclinação por aquela altura, quando todas as sensações e todas as descobertas parecem colossais face ao que viera antes e ao que virá depois.

A penumbra e a escassez dos diálogos orientam-nos para o recanto escondido de David e aumentam a intensidade do seu estado interlúdico. É aqui que o adulto se definirá, em contradição com os adultos que o rodeavam nestes anos e em busca de um futuro diferente do deles, onde as acções sejam mais intimas e veementes e os sentimentos valham mais que as palavras, ao estilo de Rebel Without a Cause, a que Salaviza tanto alude. O esplendor de Montanha não passa tanto pelo desespero activo de James Dean ou pela luz do seu blusão vermelho, mas antes por uma serenidade transversal à performance dos personagens (principalmente de David Mourato, o David, Maria João Pinho, a mãe, e Cheyenne Domingues, a Paulinha), aos sons e aos tons que predominam: o castanho estival e o escuro da noite.


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