The Whisper Man

por Pedro Rolino

O Homem que Sussurra cruza um polícia reformado, um escritor e um assassino em série, mas falha no suspense e num desfecho pouco motivador.

Título Português O Homem que Sussurra
Ano 2026
Realizador James Ashcroft
Elenco Robert De Niro, Michelle Monaghan, Adam Scott
País EUA
Duração 111min
Género Policial, Drama, Suspense
The Whisper Man
3/10

O que é que um velho polícia reformado e o seu filho escritor de romances de suspense têm em comum com um velho assassino em série encarcerado há 30 anos e o seu filho, percursor dos crimes fraternos?

Para responder a esta questão mais antiga do que o próprio tempo, James Ashcroft, roubado novamente ao teatro para realizar a sua terceira longa-metragem, tem em mãos a adaptação pré-encomendada do livro de Alex North, produzida por ninguém menos do que os grandes administradores dos blockbusters Marvelianos, os irmãos Anthony e Joseph Russo.

Distribuído pela Netflix, The Whisper Man funde o pior destas proveniências para nos oferecer um produto que parece pensado apenas como um daqueles clones decadentes de Seven ou Prisoners que ultimamente engrossam cada vez mais o catálogo das várias plataformas de streaming.

Se analisarmos os aspetos técnicos, como a direção de arte e a fotografia, esbarramos de imediato com a profunda desinspiração cénica e a esterilidade visual que atravessam todas as cenas. Do mesmo modo, nem o enredo nem os intérpretes se mostram aptos a sustentar – ou, pelo menos, a disfarçar – a densa camada de exposição narrativa, expressa desde o início pelos diálogos que se apressam em contar o passado antes de sequer nos darem razões para nos interessarmos pelo presente.

Adam Scott, como Tom Kennedy, o protagonista e pai do rapaz que desaparece, não podia estar mais longe das virtudes que exibe em Severance e apresenta-se por de mais inadequado para representar um segundo escritor atormentado em tão pouco tempo (recorde-se o seu Ohm Bauman em Hokum, lançado em junho), sendo este o papel que mais lhe expõe as debilidades dramáticas. Sobretudo, nos momentos de exasperação em que a naturalidade seria essencial para o credibilizar também como pai a quem o mais importante é retirado.

Talvez estes constituam parte dos motivos pelos quais Robert De Niro, por sua vez na pele de Pete Willis, o ex-polícia que colocou Frank Carter, o grande Homem dos Sussurros, atrás das grades e que regressa para colaborar nas buscas pelo neto, opta por uma interpretação digna de alguém em verdadeiro estado dormente. E reparem que não o escrevo somente em tom de desaprovação. Afinal, desde o início dos anos 2000 que De Niro nos habituou a vê-lo brilhar mesmo assim. Simplesmente, tal não evita o lamento de assistir a um ator tão estimado tão palpavelmente desinteressado.

Compreendido o remorso do seu Pete, quer por ter falhado como pai, quer por nunca ter encontrado a última das crianças sequestradas e mortas por Carter, vemo-lo resolvido entre duas cenas cujo efeito se esvai mesmo antes de terminarem. A primeira, revestida de um sentimentalismo atroz, ocorre quando Tom entende que Mr. Night, o seu amigo imaginário de infância, era, na realidade, o pai, que o visitava à noite para lhe beijar a testa; a segunda, quando os restos mortais do último rapaz finalmente aparecem. Ambas fracassam, pois partem de pressupostos simplistas relativamente a uma culpa carregada durante décadas e à dimensão do impacto que o seu desenlace seria capaz de ter no ambiente que a personagem cruza. Os minutos passam e logo se encontra tudo orientado para um desfecho que, previsível ou não, motiva muito pouco.

Michael Keaton, no seu “Man” menos relevante (vejam antes Batman, Birdman ou até mesmo The Merry Gentleman), ainda consegue, muito a custo, arrancar algumas nuances a Frank e despertar De Niro da letargia durante o episódio de interrogatório que prepara o último ato. Porém, assim que descobrimos que os crimes são cometidos por Frank Jr., sabemos também que o vão capturar e resgatar Jake, filho de Tom, neto de Pete e vítima com que o herdeiro do Homem dos Sussurros procura reavivar o mito e acercar-se da figura paternal. Para mal dos seus pecados, desempenhar um papel meramente instrumental na narrativa e ser preso estiveram longe de constituir os seus maiores problemas, já que acaba assassinado pelo progenitor na própria cela, graças a um perverso e inquestionado acordo entre os bons da fita e o psicopata que, afinal, só queria mesmo estrangular o próprio filho.

Sobre os meandros do enredo, vale ainda mencionar a personagem vivida por Michelle Monaghan. Detetive em funções e responsável pelo caso de desaparecimento de Jake, ela sofre um ferimento aquando da perseguição final, mas nem mesmo o risco de vida serve para reverter o cariz esquecível da sua presença ou do decurso de toda a cena. Na verdade, o único elemento central a alcançar a morte redentora é Pete Willis, cuja urna de cinzas é ostentada a caminho da sequência em que a história termina e Tom descobre uma última reviravolta, introduzida tão à pressa antes dos créditos que já nem me lembrava de a ter previsto.

Entre culpas transatas e filhos à procura de aprovação, havia relações e partes da trama que mereciam ser desenvolvidas para lá da sua utilidade na investigação, embora o filme se revele satisfeito assim que se depara com uma explicação que lhe permita deter-se no dramatismo antes de avançar incólume. A realização limita-se a reproduzir os vícios mais comerciais do género, tornando particularmente penoso o desperdício de ter reunido Keaton e De Niro para tão pouco.


Partilha com os teus amigos