The Disaster Artist

por Jose Santiago

Informativo, divertido, emotivo e cativante. Um dos melhores exemplos de cinema sobre cinema.

Título Português Um Desastre de Artista
Ano 2017
Realizador James Franco
Elenco James Franco, Dave Franco, Alison Brie, Seth Rogen
País EUA
Duração 103min
Género Comédia, Drama
The Disaster Artist
8.5/10

Em 2003 foi lançado ao mundo aquele que viria a ser chamado o “melhor pior filme de sempre”, um termo do qual discordo profundamente mas que ajuda a racionalizar o enorme sucesso de um produto que fugiu à intenção inicial. The Room foi escrito, produzido, realizado e interpretado por Tommy Wiseau; era suposto ser um drama inspirado na corrente de Tennessee Williams, mas acabou por ser uma comédia meta-referencial que ainda hoje esgota salas de cinema um pouco por todo o mundo. De estranho tem muito, de mau não tem absolutamente nada.

The Disaster Artist é a adaptação cinematográfica do livro homónimo escrito por Greg Sestero, um dos actores de  The Room e melhor amigo de Tommy Wiseau. Deveria esperar-se que alguém com este grau de proximidade nos pudesse esclarecer em relação à vida de uma das personagens mais misteriosas da cultura popular, mas a verdade é que isso não acontece. Chegamos ao final sem saber que idade tem, de onde vem e como arranjou o dinheiro que parece não acabar; mas toda a história resulta porque, na verdade, o filme é sobre dois amigos que fazem das tripas coração para alcançar um sonho.

É importante referir que a minha capacidade de análise pode ter sido contagiada pela reacção efusiva do público presente no  Lisbon & Estoril Film Festival. Uma plateia bastante familiarizada com o tema e que  tornou a sessão numa espécie de filme-concerto.

Se o filme conseguir funcionar por si só, é um triunfo dentro do género semi-biográfico. A natureza aparente de Tommy faz dele uma personagem cómica, mas James Franco reconhece a tragédia por detrás deste ser desconfortável, que não reconhece as regras do mundo em que vive, chegando mesmo a enganar-nos com relativa mestria. Há momentos em que nos rimos para depois perceber que não há ali qualquer piada, só um corpo estranho a interagir com a sociedade. Greg acaba por ser a muleta que Tommy nunca teve, ou que possivelmente terá perdido, e sentimos esse peso quando a barreira entre a amizade e a necessidade começa a ficar cada vez mais ténue. Interessa ainda dizer que há muito respeito pelas personagens ali retratadas e a catadupa de actores conhecidos que vão entrando em cena é a maior demonstração de amor que a industria de Hollywood podia dar àqueles dois tipos.

Durante pouco mais de hora e meia somos brindados, não só com muitos dos episódios daquele estúdio de filmagem, mas também com a evolução da estranha amizade entre as duas personagens principais. Tecnicamente não estamos a falar de uma proeza estética digna de destaque, mas é sóbrio o suficiente para não ser facilmente catalogado e consequentemente menosprezado.

Apesar de lermos nos créditos que é James Franco quem veste a pele de Tommy Wiseau, não conseguimos dar por ele. É uma transformação física acrescida de um estudo de personagem intensivo. O sotaque não falha e todos os maneirismos explodem no ecrã como se fossem produto de reacção muscular. O caminho mais fácil teria sido o da caracterização satírica, no entanto deparamo-nos com uma interpretação soberba e carregada de nuances. O mesmo já não se pode dizer do irmão mais novo. Dave Franco esforça-se, mas não tem um arsenal à altura da complexidade que é exigida de Greg, acabando por contribuir para a banalização de momentos que exigem maior peso. Pior que Dave Franco, só mesmo a barba postiça de Dave Franco. Entendo que a personagem precise de barba, também entendo que não é todo o homem que consegue deixar crescer uma boa barba, mas a barba que arranjaram ao actor é dos piores adereços alguma vez colocados numa produção desta envergadura.

Informativo, divertido, emotivo e cativante. Um dos melhores exemplos de cinema sobre cinema que coloca de parte todo o romantismo e se deixa levar pelo pragmático absurdo da realidade. James Franco mostrou uma capacidade que até agora parecia deficiente na cadeira de realizador: contar uma história de estrutura intencionalmente equilibrada quando o propósito assim o pede. Se queremos acreditar em Tommy Wiseau, 99,9% do que aparece na tela está descrito como realmente aconteceu, mas este é o homem que agora descreve The Room como uma comédia planeada desde o início. A sessão de ante-estreia em Portugal teve palmas ao longo de todo o filme e foi uma experiência colectiva de alegria – pode não querer dizer nada, mas naquele momento validou algo especial.

 


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