Her Smell

por Edite Queiroz

A trajectória clássica de ascensão e declínio de uma estrela, ao estilo das tragédias icónicas de Jim Morrison ou Kurt Cobain – mas no feminino.

Título Português Her Smell - A Música nas Veias
Ano 2018
Realizador Alex Ross Perry
Elenco Elisabeth Moss, Eric Stoltz, Cara Delevingne, Dan Stevens, Agyness Deyn, Gayle Rankin, Ashley Benson, Dylan Gelula, Virginia Madsen, Amber Heard
País E.U.A.
Duração 135min
Género Drama
Her Smell
6/10

Elisabeth Moss parece ser a actriz do momento. Nenhuma figura feminina conseguiu, nos últimos anos, produzir a mesma sensação que a intérprete da badalada série da Hulu The Handmaid’s Tale, agora na terceira temporada (enumeramos aqui algumas razões para a ver), que apesar de ter vindo a distanciar-se da narrativa proposta por Margaret Atwood no romance homónimo continua cativante e a provocar um sentimento de identificação um pouco inquietante. Her Smell chega envolto nesse hype em torno da protagonista, conduzindo-nos à sala de cinema quase exclusivamente pelo cartaz – inundado pelo olhar azul de Elisabeth Moss no papel de uma diva punk rendida aos seus piores impulsos, num revivalismo evidente do showbiz embriagado dos anos 90.

Convém relembrar que o fenómeno Elisabeth Moss não nasceu com este filme, nem com a sobejamente conhecida Mad Men, nem com a série acima citada, nem sequer com o projecto de Jane Campion que, embora excelente, nos passou relativamente despercebido e que dá pelo nome de Top of The Lake, da BBC. A sua capacidade interpretativa tem-se firmado de forma discreta ao longo de todos os seus projectos, maioritariamente televisivos, impondo-a como actriz capital da sua geração. Neste Her Smell, dirigido pelo jovem Alex Ross Perry (que também produz e assina o argumento), Moss interpreta Becky Something, personagem escondida por detrás de um pseudónimo que anuncia a trajectória clássica de ascensão e declínio de uma estrela (supostamente inspirada na figura de Courtney Love), ao estilo das tragédias icónicas de Jim Morrison ou Kurt Cobain. Mas há algo diferente em Becky – desde logo, o facto de se tratar de uma mulher, que é também mãe, e a estranheza provocada pelo facto da atracção pelo abismo não produzir nela o efeito suposto numa qualquer fêmea com as suas respectivas responsabilidades. Desde os primórdios da formação da banda em questão, os Something She, vamos assistindo aos sucessos e pouco depois dissabores da banda perante os impulsos da sua líder espiritual e vocalista, errante e decadente, alheia à condição feminina e ao impacto do seu comportamento nos mais próximos, no par romântico indignado e na sua descendência frágil.

Não poderá dizer-se que estejamos perante um produto novo, sendo muitos os objectos cinematográficos que abordaram, de uma forma biográfica ou ficcionada, os bastidores da fama ou os devaneios, metamorfoses e quedas de vultos da pop e do rock – este é só um exemplo, que transpõe para o feminino um percurso de auto-destruição semelhante ao que assistimos em The Doors (de Oliver Stone, sobre Jim Morrison e os Doors), Control (de Anton Corbijn, sobre Ian Curtis e os Joy Division), Walk the Line (James Mangold, sobre Johnny Cash) ou mesmo Bohemian Rhapsody (de Bryan Singer, sobre Freddy Mercury e os Queen). Mas nesse sentido, o filme oferece uma análise inversa de uma personagem clássica – a estrela em decadência – transferindo-a do masculino para o feminino e assinalando as particularidades necessariamente arrastadas por esse deslocamento, nomeadamente as obrigações da anti-heroína enquanto mulher, companheira e mãe. Trata-se por isso de uma composição tingida de constrangimentos de género, que propõe um quadro bem diferente do que estamos habituados em filmes desta natureza.

Tendo em conta que Elisabeth Moss é o nome à cabeça do elenco, podemos contar com estudo de personagem (que nunca verdadeiramente se aprofunda, mas não deixa de ser interessante enquanto proposta) e sobretudo com um show de representação (e de transformação física e psicológica), ao mesmo tempo vulnerável, descompensado e arrebatador, que não apenas salva o filme da banalidade temática, mas o eleva, até certo ponto, a um exercício de estilo de representação que não pode ser ignorado – uma rapariga que interpreta um rapaz que na realidade é uma rapariga. Em plena silly season, Her Smell é o espírito (feminino) de um certo tempo, e talvez o único título que vale a pena visitar nas salas de cinema.


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