Star Wars: The Force Awakens

por Bruno Ricardo

Star Wars, mais do que qualquer saga cinematográfica, presta-se mais à nossa memória e à nossa emoção do que à análise. O amor é mesmo assim.

Título Português Star Wars: O Despertar da Força
Ano 2015
Realizador J. J. Abrams
Elenco Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver
País EUA
Duração 135min
Género Acção, Comédia, Fantasia, Sci-fi
Star Wars: The Force Awakens
8/10

Ingrata é a tarefa da pessoa que tenha de analisar Star Wars – the Force awakens e comunicar às massas a sua opinião. Em primeiro lugar, porque não interessa, as pessoas verão na mesma o filme; em segundo, porque é expor-se ao ridículo caso diga muito bem e à ira caso decida malhar num filme que toda a gente está à espera há anos. Em terceiro lugar, porque para o crítico, neste caso eu, se torna complicado lidar com algo que faz parte do seu património emocional.

Star Wars, mais do que qualquer saga cinematográfica, presta-se mais à nossa memória e à nossa emoção do que à análise. Vendo objectivamente, o único verdadeiro grande filme das seis obras passadas é The empire strikes back: compacto, com a densidade dramática certa, divertido e animado como tudo. Mas o fã não consegue lidar com essa verdade, e por mais que os restantes dois filmes da trilogia original não sejam maus, na nossa mente serão sempre algo de ampliado. Muitos vimo-los quando éramos crianças ou estávamos pelo menos em idade de ainda acreditarmos que tudo na vida era possível, que o sonho é, mesmo, uma constante da vida e livres das ironias pós-modernas que abundam na cultura moderna.

Ver Star Wars, voltar a Star Wars, será sempre regressar um local muito mais simples da nossa cinefilia, e da nossa vida, a um local de ainda alguma inocência e contactar com uma facilidade em nos alegrarmos que nos vai parecendo cada vez mais distante com a idade. Isto foi o maior erro das prequelas de George Lucas, a incapacidade de provocar tal reacção; e é precisamente o que JJ Abrams, sem arriscar mas com algum brilhantismo recupera no episódio VII destas aventuras galácticas.

Abrams não é novato nestas histórias. Coube-lhe a tarefa de modernizar o artrítico cadáver de Star Trek e conseguiu-o, com moderado sucesso e alterando significativamente a criatura de Gene Rodenberry. Em The force awakens, o wunderkind de Hollywood não ousa repetir a gracinha. O lema da sua realização é “Não mexas na fruta” e apesar de novos personagens, novos cenários, novas naves e novos mundos, o esqueleto do filme é completamente familiar. É notório que o realizador tem uma admiração reverencial pela trilogia original e acima de tudo, deve ter ficado bem escaldado como espectador da experiência das prequelas. Entra neste filme com o objectivo bem simples de não estragar e consegue-o, mas à custa da originalidade. Noutros filmes, isso seria um grande problema; aqui, não me parece que o seja, porque sinceramente, muito pouca gente quer novidade neste filme. A intenção é fazer reviver a ideia idílica que se tem de Star Wars, e Abrams está cá para isso.

A intriga gira em redor da busca por alguém que não divulgarei e os novos personagens tomam lugar de imediato: Poe Dameron é um fabuloso piloto da Resistência, o tipo mais cool da galáxia; Finn é um stormtrooper que não tem alma de assassino e procura o seu caminho para algo mais do que a mediocridade; Rey vive no deserto de Jakkuh a escafarunchar naves para vender peças. Kylo Ren veste de negro, usa a Força para o Mal e persegue um personagem que se revela fulcral para o equilíbrio da Força. Soa-vos familiar?

Apesar da familiaridade, há espaço para pequenas alterações interessantes. O protagonismo dado a uma mulher e a um negro num filme comercial desta dimensão deve ser algo de novo. E se no papel parece uma cedência ao politicamente correcto, rapidamente se percebe que John Boyega e Daisy Ridley estão mais do que bem escolhidos. Ambos trazem uma energia juvenil bem-vinda, um sentido preciso de, precisamente, sentido e no caso de Ridley, a inocência que cai bem no clássico arquétipo do herói com uma missão onde os filmes de Star Wars sempre assentam.

Se o Dameron de Oscar Isaac é apenas e só cool (aliás, cool cool cool), já Kylo Ren torna-se rapidamente no personagem mais interessante de todo o filme, um vilão complexo, com conflito e o total oposto de Darth Vader como pináculo de controlo, por motivos que se tornam óbvios no desenrolar do filme. Se todos, à excepção de Dameron, têm arcos narrativos bem definidos ao longo do filme, fica claro que Ren será aquele cuja história será o fio condutor desta nova saga, e Adam Driver, apesar de os restantes novos actores estarem bastante bem, tem todo o potencial para se tornar na grande revelação desta trilogia. Tal não se deve apenas à sua excelente performance, mas acima de tudo por ser o elemento mais imprevisível presente, a instabilidade que este modelo estanque precisa para atrair o espectador. A petulância adolescente, a instabilidade emocional e a maneira como elas se reflectem na sua presença são uma novidade. De facto, o que mais encanta nesta nova abordagem é a maneira como faz regressar pessoas à franchise, personagens com a qual o espectador se importa e que segue e com quem quer passar tempo, com quem se diverte. Não há dramas profundos, nem existencialismos vários, mas existem arquétipos genuínos e com quem nos podemos identificar. A meu ver, é a grande vitória de Abrams.

A nostalgia está na presença de alguns personagens da trilogia original (incluindo alguns cameos), com maior ou menor destaque, que são introduzidas em cena quase com passadeira vermelha. É neste quadro familiar que os novos elementos entram na consciência do público. Convivem sem problema e não existe choque. Os problemas do filme estão para lá da nostalgia e precisamente no que trazem de novo. A First Order, herdeira do Império, nunca é apresentada como mais do que uma organização vilanesca terrível sem objectivos claros que não sejam serem maus e destruir, e alguma intrigas políticas aludidas nem se percebem bem porque o filme está tão ocupado em ser uma montanha-russa de aventura que não perde tempo no desenvolvimento do pano de fundo desta trilogia. As facções existem como as encontramos e pouco mais, no que me parece ser uma oportunidade desperdiçada. A presença de um general, interpretado por Domhall Gleeson, é apenas desprezo a vociferar ódio, e nada mais. Embora vejamos a presença de uma figura que parece puxar todos os cordelinhos, e essa figura seja, de facto, poderosa, esta First Order desperta pouco interesse.

No entanto, estas interrogações surgem já depois de termos abandonado a sala de cinema. Porque nas duas horas e vinte que dura o filme, temos aquilo que aprendemos a amar em Star Wars: as batalhas espaciais (onde Abrams, apesar do CGI, respeita os ritmos e velocidades do original, numa reverência quase excessiva), os combates com sabres laser, os maus pressentimentos, a emoção que surge apenas numa bolha que não se expande, a ideia do percurso do herói clássico, as referências místicas à Força e os pequenos elementos que deliciam, como o novo droide BB-8, que promete ser a prenda mais oferecida deste Natal. No entanto, há pouca análise a fazer, porque, como referi no início, este não é um filme de análise. Quando estreou, em 1977, Star Wars teve uma recepção crítica pobre, mas foi ganhando popularidade porque era o filme escapista necessário, numa América que saíra dois anos antes do pântano do Vietname e vivia no pós-Watergate. O filme surgiu como escape, como duas horas no escuro de uma sala, longe da realidade. Num mundo onde o aquecimento global é uma ameaça real e não fantasma, onde o ISIS paira sobre as grandes cidades do mundo, onde a crise económica nos deixa a balançar na incerteza e onde tudo volta a ser incerto, a criação de George Lucas regressa para nos devolver a infantil capacidade do sonho ou simplesmente, o alívio de uma mente preocupada. Atesto-o: numa fase bem pouco positiva da minha vida, consegui distrair-me durantes quase duas horas e meia. É arte? Não. Mas rir não é filosofia, e no entanto não deixa de ser necessário. Talvez seja o melhor que se pode dizer sobre este The force awakens: a análise é terrena, ao alívio da alma está para lá dos planetas.


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