Dangerous Liaisons

por Edite Queiroz

Primeiro filme de Stephen Frears em território americano, venceu o Óscar para melhor argumento adaptado, guarda-roupa e direcção artística.

Título Português Ligações Perigosas
Ano 1988
Realizador Stephen Frears
Elenco John Malkovich, Glenn Close, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves
País E.U.A.
Duração 119min
Género Drama Histórico
Dangerous Liaisons
8/10

Les Liaisons Dangereuses, romance epistolar de Pierre Choderlos de Laclos publicado em 1782 em vésperas da Revolução Francesa, é um clássico da literatura mundial que revisita o quotidiano da aristocracia francesa do séc. XVIII, dirigindo uma crítica corrosiva à ociosidade, excessos e crise de valores da fidalguia da época. A história foi já por diversas vezes adaptada ao cinema – por Roger Vadim (Les Liaisons dangereuses, 1959), Miloš Forman (Valmont, 1989), Roger Kumble (Cruel Intentions, 1999) e Lee Je Yong (Scandal, 2003) – tendo encontrado a sua maior visibilidade e consagração no filme de Stephen Frears. Baseado na peça homónima de Christopher Hampton (por sua vez baseada no clássico literário acima referido), Dangerous Liaisons assinala a estreia do realizador inglês em território americano. Nomeada para vários Óscares no seu ano – nomeadamente, o de melhor filme – a obra venceu, com justiça, os prémios para melhor argumento adaptado, guarda-roupa e direcção artística. De fora ficou o reconhecimento do elenco de luxo, especialmente de Glenn Close e John Malkovich, possivelmente nos melhores papéis das respectivas carreiras.

A Marquesa de Merteuil (Glenn Close) e o Visconde de Valmont (John Malkovich), protagonistas da história, são dois aristocratas amorais, ex-amantes, que no marasmo do dia-a-dia da nobreza do séc. XVIII se divertem coleccionando aventuras sexuais e fabricando intrigas, arte na qual se tornam peritos. Especialmente maquiavélica e amargurada por um passado que, aos poucos, o enredo vai permitindo desvendar, a personagem de Glenn Close – uma mulher manipuladora, cruel, vingativa e altamente inteligente – chega a ser digna de um thriller psicológico. A Marquesa define-se como uma virtuosa na arte da libertinagem, vangloriando-se por quebrar (de  forma dissimulada, já que a sua reputação é aparentemente inatacável) todas as regras e limites impostos à condição feminina da época – I became a virtuoso of deceit. It wasn’t pleasure I was afer, it was knowledge. I consulted the strictest moralists to learn how to appear, philosophers to find out what to think, and novelists to see what I could get away with, and in the end, I distilled everything to one wonderfully simple principle: win or die.

O contraponto masculino da Marquesa é o Visconde de Valmont, um homem vaidoso e sem escrúpulos, uma espécie de D. Juan cujo ego se alimenta do seu crescente número de conquistas. Despeitada por um antigo amante prestes a casar, a Marquesa propõe ao Visconde o desafio de seduzir a casta noiva (uma muito jovem Uma Thurman); considerando o desafio demasiado fácil e quase insultuoso, Valmont contrapropõe-lhe um acordo: se ele fizer sucumbir aos seus encantos uma mulher que ambos avaliam como inatingível – casada e conhecida pelos seus costumes rígidos e fervor religioso – a Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer) – a Marquesa passará uma noite com ele. Mas para Valmont, a noite com a Marquesa de Merteuil é um capricho que o orgulho da Marquesa não consentirá. Lançados os dados, a narrativa desenrola-se como de um jogo de xadrez se tratasse, com movimentações e recuos das personagens centrais, que se espelham uma na outra – duas figuras de carácter muito semelhante, caracterizado por um profundo egocentrismo e uma urgência de domínio sobre o sexo oposto; a presença constante de espelhos na mise-en-scéne reforça não apenas a paridade entre a Marquesa e o Visconde, mas também ideia de duplicidade de carácter, a tensão na trama e a antecipação da jogada seguinte. O triângulo completa-se com a personagem trágica da Madame de Tourvel, um inocente joguete nas mãos de ambos.

O desempenho de John Malkovich é de tal forma irrepreensível (do ponto de vista psicológico e físico) que inviabiliza a possibilidade de imaginar qualquer outro actor no papel. Valmont é uma personagem com um discurso impregnado de sarcasmo, à qual Malkovich soube imprimir o seu charme particular, um olhar cínico de uma autoconfiança sem paralelo e uma linguagem corporal à altura do carácter da personagem, com meneios algo efeminados a contrastar com o comportamento de predador sexual. Cada movimento é sentido como uma movimentação de assédio. Há uma cena no filme em que Valmont engana a Madame de Tourvel, contando-lhe uma mentira, enquanto ela o ouve de olhos pregados no chão; a expressão facial e os meios sorrisos de Malkovich nessa cena – que exprimem o prazer de Valmont na dissimulação e no engano – assinalam uma interpretação antológica. Malkovich é Valmont, mesmo quando o destino lhe troca as voltas e ele se vê vítima do seu próprio carácter – It is the way of the world. Quite beyond my control.

No filme de Frears nada parece falhar, desde a notável tradução das epístolas do romance original para um argumento cinematográfico, à aparatosa produção, ao casting e à direcção de actores. Ao longo do filme e contando com a excelência dos ingredientes, Frears consegue manter a tensão dramática com uma classe impecável e a sensação transbordante de jogo no verdadeiro sentido do termo – como se assistíssemos a uma disputa de tabuleiro de resultado imprevisível. A Marquesa e o Vinconde passam de aliados a rivais impiedosos, que não olham a meios para atingir a vitória – conceito que se desloca dos seus intuitos iniciais para a aniquilação do outro. Como? Utilizando os pontos fracos de cada um como arma de arremesso – no caso da Marquesa, o seu orgulho, no caso de Valmont, o pavor do ridículo. É com base nesta fraqueza que a Marquesa o obriga a perder o controlo do jogo, manipulando-o para a escolher entre o objecto da sua devoção e o receio de uma reputação destruída. Na cena final, é impossível não ter uma sensação de xeque-mate – mas aqui a morte do rei não corresponde exactamente a uma vitória.


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