Blue Moon acompanha Lorenz Hart numa única noite de 1943, quando a estreia de Oklahoma! (“ponto de exclamação”), assinada pelo seu antigo parceiro Richard Rodgers, o obriga a confrontar o lugar que perdeu na arte, na vida e na imagem que ainda tenta preservar. O realizador Richard Linklater escolhe um recorte breve e fechado para filmar a lenta exposição de um homem que viveu da fulguração das palavras e continua a usá-las como último refúgio. Fala-se, afinal, do letrista de composições como Blue Moon, My Funny Valentine e The Lady Is a Tramp, o que dá ao filme uma ironia silenciosa, já que a delicadeza e a permanência dessas músicas contrastam com o estado de decomposição íntima de quem as escreveu. Desde a abertura, em que a morte surge antes do resto, fica traçada a chave do filme. O desfecho é dado à partida e tudo o que se segue passa a ter o peso de uma contagem decrescente.
Ethan Hawke encontra aqui uma figura à sua medida. Depois de ter encarnado Chet Baker, o célebre intérprete de My Funny Valentine em Born to Be Blue, regressa a um universo que lhe é próximo, agora com um Lorenz Hart vaidoso, espirituoso, alcoólico, solitário e, acima de tudo, iludido. O mais interessante, contudo, é que esse deslumbramento jamais surge como cegueira plena. Hart reconhece-o e insiste nele porque sabe que já pouco mais lhe resta. Quer nos momentos em que a personagem se impõe pelo brilho verbal, quer naqueles em que se reduz à sua própria sombra, Hawke trabalha-a com grande precisão.
A escolha de concentrar quase toda a ação no Bar Sardi’s permite a Linklater tratar o espaço como um palco social onde cada interação contribui para o retrato desta figura em ruína. Nesse aspeto, os diálogos assumem uma importância decisiva. São sólidos, vivos e ajustados à inteligência de alguém que fez da escrita uma forma de prestígio, ainda que haja ocasiões em que o texto parece querer exibir-se, como se procurasse sublinhar a sua própria sagacidade.
O elenco secundário existe sobretudo para devolver diferentes reflexos do protagonista. Andrew Scott, Margaret Qualley e Bobby Cannavale gravitam em torno de Hawke, funcionando menos como presenças autónomas do que como extensões do seu desgaste e da sua fantasia lírica.
Subsiste, no entanto, a sensação de que Blue Moon beneficiaria de maior densidade contextual e ímpeto, a fim de ultrapassar a condição de objeto estimável e tornar-se verdadeiramente marcante. De qualquer modo, embora pedante e, por vezes, até penosa, a companhia de Lorenz Hart conserva valor suficiente para prender o olhar e o ouvido durante toda a duração do filme.