Bacurau

por Isabel Leirós

Bacurau é uma história de sobrevivência e de comunidade, cada vez mais urgente num país em mudança, numa sociedade desfragmentada.

Título Português Bacurau
Ano 2019
Realizador Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Elenco Sônia Braga, Barbara Colen, Udo Kier, Thomas Aquino, Silvero Pereira
País Brasil
Duração 131min
Género Acção, Thriller, Mistério, Activista, Western
Bacurau
6.5/10

Filme exibido em estreia nacional no festival Curtas Vila do Conde 2019

 

Bacurau é um western. O cenário é o nordeste do Brasil, o sertão, um futuro próximo. A premissa é política, activista, engajada. Reforça valores de união e convivência comunitária, cada vez mais urgente num país em mudança, numa sociedade desfragmentada. Bacurau é uma  história de sobrevivência.

Bacurau chora e despede-se da sua matriarca, num rito funerário que reforça a unidade e a proximidade entre todos, num momento de crise: o fornecimento de água foi interrompido. Percebemos que a corrupção e a inércia política poderão estar na origem do problema. Mas a população é resiliente, une-se e procura soluções. Percebemos a dada a altura que a resistência é característica de Bacurau, que apesar de pacifista vive em estado de sítio, com vigias e milícia.

O mistério instala-se: Bacurau desaparece do mapa – do digital, pelo menos, pois o esquecimento é mais difícil no papel físico e analógico -, forasteiros visitam a vila, a rede de telemóvel é cortada. Os habitantes deixam de conseguir comunicar entre si. E há mortes inexplicáveis. E ovnis!

O cenário idílico transforma-se num safari sádico, os gringos chegaram ao nordeste brasileiro para caçar seres humanos e o objectivo é eliminar a população. Daí ter desaparecido do mapa com um clique (momento Black Mirror), com conhecimento e aval do poder local. Tudo muito casual.

 

 

Filmado de forma irrepreensível, Bacurau é um filme lindíssimo. Retrata a cultura e os hábitos do meio rural, que contrastam com a evidente desfragmentação do meio urbano, voltado para o ego.

As personagens brasileiras são construídas com cuidado e de forma multi-dimensional. Sônia Braga carrega uma intensidade que marca o filme, Silvero Pereira (como Lunga, na imagem) é a grande revelação do filme. Já as personagens estrangeiras – os invasores – são exactamente o oposto, personagens insípidas, lugares-comuns, que parecem preencher todos os requisitos de bad guy. Mas talvez isto seja intencional.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles optaram por uma (ambiciosa) abordagem (demasiado) moralista. Em Bacurau responsabilizam a ganância nacional e estrangeira, o sobre-aproveitamento de recursos naturais e o afastamento das raízes. Chamam a nossa atenção para a realidade e para o fosso que dividem as regiões mais desenvolvidas e o meio rural. Convidam-nos à reflexão. E poderá ser este o seu erro na direcção do filme. Torna tudo demasiado óbvio, sem surpresas, sem sobressaltos. Ou estou tão atenta aos problemas do mundo, que já os normalizei, ficando insensível a tal realidade. Será esta reflexão pessoal um dos objectivos do filme?

Bacurau é um filme com potencial não concretizado. Ao argumento de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles faltou o delírio (sanguinário!) que encontraríamos num Tarantino, a intensidade crescente de Sergio Leone, ou até o humor negro dos Cohen. Não que um realizador deva seguir o caminho trilhado por outros, mas sim porque a mestria do passado carrega uma importante herança a assimilar no presente. Afinal, até é esse o ângulo de desfecho do filme.

 


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