NOW é, para nós, um disco sobre ação. Sobre o momento em que deixamos de conseguir ignorar aquilo que acontece à nossa volta e percebemos que a inércia também é uma escolha. Vivemos num mundo cada vez mais fragmentado, onde muitas vezes o valor da vida parece ser determinado por forças económicas e onde a responsabilidade é constantemente colocada nas mãos de alguém que está longe. O disco nasce dessa inquietação, mas também da vontade de contrariar essa sensação de impotência.
Mais do que apresentar respostas, NOW procura falar desse impulso de fazer alguma coisa. É um disco sobre assumir a nossa parte na mudança, mesmo sabendo que qualquer gesto é imperfeito e que não temos garantias sobre o seu resultado.
#1 The Lightning Bolts Are Here!
O percurso começa com The Lightning Bolts Are Here. É quase um despertar. O primeiro relâmpago que atravessa o disco revela um mundo em caos: guerras, desigualdade, excesso de informação, vozes que se sobrepõem e vidas sacrificadas em nome dos privilégios de poucos. É o momento em que deixamos de olhar para tudo isso como um ruído distante e percebemos que também fazemos parte dessa realidade.
Ao mesmo tempo, a música introduz uma ideia que atravessa todo o disco: “we don’t keep, we share”. É uma frase muito simples, mas que para nós acaba por funcionar quase como um princípio. Não guardar, acumular ou fechar, mas partilhar. É uma primeira tomada de posição.
#2 Bravado
Depois dessa consciência surge Bravado. Se The Lightning Bolts Are Here representa o momento em que percebemos o que está a acontecer, Bravado representa a decisão de avançar apesar disso. É sobre coragem, mas não necessariamente uma coragem heroica ou perfeita. É a coragem de continuar mesmo quando não sabemos exatamente para onde estamos a ir.
Há qualquer coisa de profundamente humano nesse gesto. Podemos saber que vêm tempestades e, ainda assim, escolher avançar. Podemos não ter certezas e, mesmo assim, dar o salto. Bravado nasce desse confronto entre medo e vontade de agir e talvez seja nesse gesto imperfeito que conseguimos, finalmente, bless this mess.
#3 Us Titans!
Em Us Titans!, essa ideia ganha outra dimensão. Começamos a olhar menos para aquilo que nos limita e mais para aquilo que somos capazes de fazer. Existe dentro de cada pessoa uma força que nem sempre reconhecemos. Um gigante adormecido. E, quando essa força deixa de ser apenas individual e passa a ser coletiva, percebemos que somos capazes de coisas que, isoladamente, pareceriam impossíveis.
Mas essa força não nasce do nada. Há sempre uma história, pessoas e lugares que nos trouxeram até aqui. É isso que procuramos explorar em Home.
#4 Home
Home é provavelmente o momento mais introspectivo do disco. É uma música sobre memória, perda e aceitação, e sobre a forma como essas diferentes fases do luto acabam por fazer parte da nossa identidade. É também uma homenagem a quem veio antes de nós, às pessoas que nos ensinaram, que nos moldaram e que continuam presentes mesmo depois de partirem.
Nesse sentido, Home funciona quase como um regresso às raízes. Depois de olharmos para o mundo e sentirmos a necessidade de agir sobre ele, precisamos também de perceber de onde vimos e aquilo que carregamos connosco.
#5 Moving in a Standstill
E é daí que chegamos a Moving in a Standstill.
O título encerra uma ideia que, de certa forma, resume o próprio disco: a sensação de estarmos parados enquanto tudo continua a acontecer. Há momentos em que parece que nada muda, mas a vida nunca está realmente imóvel. Continuamos a avançar, mesmo quando não conseguimos perceber o movimento.
Por isso, Moving in a Standstill fecha o ciclo sem propriamente o encerrar. A tomada de consciência, a coragem, a descoberta da nossa força e o regresso às nossas raízes não são etapas que simplesmente ultrapassamos. São coisas que passamos a carregar connosco.
#6 Still Here...
Depois de Moving in a Standstill, poderia parecer que a jornada chegou ao fim. Mas ainda há qualquer coisa que permanece.
Still Here… surge como um último gesto, pequeno, íntimo e quase acidental. É uma versão despida de Moving in a Standstill, reduzida ao piano e gravada em casa, de improviso. Ouvem-se as teclas, o banco, os pequenos ruídos do espaço. Não há a intenção de esconder essas imperfeições. Pelo contrário: elas fazem parte da música e daquilo que queremos que ela represente.
Depois de toda a dimensão do disco, o ruído, as tempestades, a consciência, a coragem, a força coletiva, a memória e o movimento, terminamos precisamente no lugar mais simples possível. Uma pessoa, um piano e aquilo que permanece quando tudo o resto desaparece.
Still Here… é, nesse sentido, uma espécie de suspensão. Não é exatamente um fim, mas também não é um novo começo. É um momento entre duas coisas, uma porta deixada deliberadamente entreaberta.
A própria repetição da melodia de Moving in a Standstill reforça essa ideia. Aquilo que parecia terminar continua a existir, transformado, num outro espaço e numa outra forma. Porque algumas coisas não desaparecem quando uma história termina, elas continuam connosco, ainda que já não sejam exatamente as mesmas.
E talvez seja essa a razão pela qual o disco termina aqui.
Still Here… não procura uma conclusão definitiva para NOW. Pelo contrário, deixa uma pergunta suspensa, uma possibilidade, um espaço por preencher. É o fim desta primeira parte, mas não é o fim da história.
Há ainda algo por dizer.Há ainda algo por fazer. E, algures depois deste silêncio, a história continuará.
No final, NOW acaba por ser um disco sobre continuar. Continuar por nós, pelas pessoas que estão connosco e também por aquelas que já não estão.
Porque podemos esperar pelo momento certo, pela resposta certa ou pelas condições perfeitas. Mas talvez esse momento nunca chegue. E, no fundo, é precisamente essa a ideia que dá nome ao disco: o momento de agir não é amanhã. É agora.