Aurora é o disco de estreia de Malammore, nome artístico de Sandro Feliciano, cantor, compositor e produtor nascido em Lisboa, Portugal, com lançamento no passado dia 23 de janeiro. O trabalho é uma narrativa autobiográfica e um testemunho sobre a experiência de ser um jovem negro em Portugal, abordando a dificuldade de pertencimento e a resistência cultural no seu próprio país. As letras exploram temas como amor, adoção, reflexões sobre a humanidade e a forma como o artista observa o seu lugar no mundo.
#1 Inter
No interlúdio, apresento-me enquanto artista, explorando o impacto que a arte tem em mim e as influências que me moldaram. É um percurso solitário e tumultuoso, narrado num tom político, revolucionário e intempestivo. Admito que preferia o amor ao ódio, mas o interlúdio termina com a sensação de que um conflito sem precedentes se avizinha.
#2 2008
Essa música relata a história do meu processo de adoção. Fala sobre o desconhecimento de um bebê adotado e as questões que vão surgindo ao longo dos anos: a origem, as raízes, a identidade. É um mergulho profundo num processo psicológico repleto de memórias falsas e reconstruções inconscientes.
#3 Reflexo
Aqui coloco-me no centro do mundo e observo tudo o que me rodeia. É o espelho da sociedade através do meu corpo. ‘Aos meus olhos, a arca de Noé virou jaula, à semelhança de todos nós dentro da sala de aula’. Esse é um dos meus versos favoritos, pois reflete como um espaço que deveria ser seguro e estimular o pensamento muitas vezes se transforma numa prisão, uma forma de boicote à identidade.
#4 Não quero que chores
Uma homenagem aos meus pais, por tudo o que me deram – cultura, educação, proteção. Durante 15 anos, conseguiram me blindar contra uma sociedade racista, permitindo que eu crescesse sem que a minha cor definisse todas as minhas vivências. Esta música reflete o momento em que a independência chegou e, com ela, a constatação de que a minha negritude se tornava o foco da minha existência, se sobrepondo a qualquer outra característica minha.
#5 Dia 26
O dia 26 marca o fim de um relacionamento. Nessa canção relato um amor interrompido pela necessidade de me encontrar. Fala sobre uma experiência de prazer e felicidade que nunca chegou a ser plena, levando-me a uma decisão inevitável.
#6 Tudo Passa
Um conjunto de reflexões sobre mim e sobre o impacto do mundo nas minhas ações. Luto diariamente para não ceder ao populismo e para encontrar um distanciamento dos media, numa busca renascentista por um pensamento mais livre. Esta canção é um alerta para uma sociedade cada vez mais entorpecida e incapaz de valorizar a arte.
#7 Musa
Toda a história desta música se passa num só dia. O tempo nunca para, mas a estagnação é constante, parece que tudo será igual, hoje e sempre, perdidos nas mesmas conversas e nas mesmas emoções.
#8 Olhar Assim
Uma nova fase. Um olhar mais sorridente. Alguém novo entrou na minha vida e trouxe paz, preencheu um vazio. Ao mesmo tempo, essa canção é uma crítica a quem se incomoda com a felicidade dos outros e à banalização da intromissão na vida alheia. Vivemos numa exposição constante, onde a inveja e o ódio muitas vezes se sobrepõem à empatia.
#9 Bela Cinderela
Uma conversa íntima que culmina numa saída à noite para a Tasca da Bela, em Alfama. Uma canção sobre desejos, peculiaridades e declarações de amor.
#10 Raging Bull
Uma homenagem ao filme de Martin Scorsese e à música ‘La chanson des vieux amants’, de Jacques Brel. Tal como essas obras, a canção fala sobre o amor como um jogo de sorte e azar – um casino a céu aberto, onde se aposta o futuro de um casal.
#11 Aurora
Uma reflexão póstuma sobre a minha primeira experiência com a morte. Como lidamos com a perda? Como ela nos molda ao longo da vida? Aurora é um lamento, mas também um renascer. Representa a aceitação das contradições da existência, o fim de um ciclo e o início de outros que virão.

