Entrevista


Sam Rosenthal

Penso que o “10 Neurotics” representa o ponto máximo daquilo que eu pretendia atingir.


Black Tape For A Blue Girl, Projekt e Sam Rosenthal são nomes que se fundem, e que se confundem, quando olhamos para os últimos 30 anos do denominado som darkwave. Tudo começou na Florida, no início dos anos 80. Sam Rosenthal tinha um fanzine e, a dada altura, achou por bem juntar-lhe uma cassete com algumas bandas locais sobre as quais escrevia. Todas elas tinham uma vertente new wave/electropop bem vincada, um género tão em voga nos tempos que corriam. Daí até criar uma editora para lançar os discos da sua própria banda, os Black Tape For A Blue Girl, foi um saltinho. E assim nasceu a Projekt, um nome que se tornou numa referência e que se notabilizou, ao longo da década de 90, pelo lançamento de grupos como Lycia, Love Spirals Downwards, para além dos já mencionados Black Tape For A Blue Girl (BTFABG). Numa conversa com Sam Rosenthal, ficou-se a conhecer as novidades sobre os BTFABG, bem como as circunstâncias que continuam a viabilizar uma editora como a Projekt, numa altura em que toda a gente tem a plena consciência de que o meio musical mudou radicalmente.

“These Fleeting Moments”, o próximo álbum dos BTFABG, deverá sair na primavera de 2016. Pelo que li, vai ser um regresso ao som etéreo dos anos 90. Isso deve-se a quê? Sentiste uma necessidade incontrolável de voltar às origens?
Penso que o “10 Neurotics” representa o ponto máximo daquilo que eu pretendia atingir. Isto no que diz respeito à escrita de músicas estruturadas de uma forma genuinamente pop/rock/cabaret. Foi interessante e desafiador fazê-lo, mas acho que não posso ir para além disso. Provavelmente, estamos a falar do mesmo motivo que me levou a abandonar a escrita de canções com um cariz assumidamente etéreo, após o álbum “The Scavenger Bride”. Eu, muito simplesmente, não queria ser um artista obrigado a fazer a mesma coisa vezes sem conta. Quero experimentar coisas novas, sim. Mesmo que essa “coisa nova” seja, na realidade, uma coisa antiga (risos). Também acredito que as pessoas se sintam mais felizes quando ouvem aquele estilo que esperam ouvir de um determinado artista. Criar equilíbrios é uma questão delicada. Sinto que as novas canções vêm daquela paisagem darkwave dos anos 90, mas têm uma sonoridade actual. Agora uso menos reverb nas vozes. Às vezes, quando ouço os álbuns antigos, começo a coçar a cabeça e pergunto-me por que é que há tantos efeitos nas vozes. Por outro lado, e como deves ter reparado, os últimos álbuns não tinham muitas faixas instrumentais. Essa é uma faceta que vou recuperar. Aqui, em Portland, conheci uma violista fantástica, a Grace, que vai participar em alguns temas e que lhes vai conferir um som de cordas muito bom e muito intenso.

“Remnants of a Deeper Purity” é um disco fortemente aclamado e considerado, pela maioria da crítica, a obra-prima dos BTFABG. Achas que o “These Fleeting Moments” vai conseguir competir com esse álbum? Já agora, qual é o teu disco preferido dos BTFABG?
Acho que há faixas do novo álbum que encaixariam perfeitamente no “Remnants of a Deeper Purity” e acredito que as pessoas vão gostar muito de as ouvir. Agora, não sei se consigo aceitar a ideia de “competir com”. Nunca fui muito de competições a esse ponto. Penso, isso sim, em fazer música que vai entusiasmar o público que gosta dos BTFABG e fico contentíssimo por ainda ter dentro de mim algo que me impele a compor esse tipo de canções. Quanto a álbuns favoritos… Sou muito parcial quando se trata do “A Chaos of Desire”. Simplesmente adoro aqueles instrumentais com a Vicki!

Olhando para o título do novo álbum, poder-se-á concluir que nos queres passar a mensagem de que tudo na vida é efémero?
Aquilo que penso é que o nosso momento nesta vida é deveras efémero e eu sugeria que cada um de nós olhasse para aquilo que faz com a vida que tem. Todos nós devemos questionar se estamos a passar o tempo que temos de uma forma com a qual nos sintamos bem quando tudo acabar. Acho que há muita gente apressada em viver as suas vidas. Pessoas que empregam muitas das suas forças em coisas que, no final de contas, vão acabar por ser completamente triviais. Isto aplica-se a quem passa a vida a responder a e-mails ou a ver vídeos de gatos. E, quando o fim chegar, essa pessoa pergunta-se: “Eh pá! Será que devia ter visto todos aqueles gatinhos tão fofinhos, ou será que devia ter aproveitado para amar mais do que amei?”.

Embora estejas envolvido no PETm (People for the Ethical Treatment of Musicians), penso que ainda acreditas na livre partilha de ficheiros. É por isso que partilhas gratuitamente uma boa parte da tua música na página do Bandcamp?
Realmente, eu tenho oscilado bastante ao longo dos anos quanto a este tópico. No início da era digital eu estava completamente a favor da livre partilha. Depois fui ficando bastante irritado com “a coisa” e, neste momento, acredito novamente na partilha gratuita. E vou explicar-te porque voltei a acreditar nesse conceito. Não se pode combater a mudança. Pode-se berrar contra ela e enterrar a cabeça na areia. Contudo, isso em nada vai alterar o rumo dos acontecimentos. No final, uma pessoa acaba por ter que trabalhar com aquilo que lhe é posto à frente. Se hoje em dia as pessoas querem música de borla, eu vou ter que arranjar novas fórmulas para que as coisas resultem para mim e para a arte que represento.

Tens recorrido frequentemente ao Kickstarter para os teus lançamentos físicos. Estás, de resto, a fazê-lo neste momento para lançar em vinil o EP “Bike Shop”. Como músico, e dono de uma editora, este parece-te o caminho mais adequado (e talvez o único) para os artistas e as editoras independentes conseguirem sobreviver?
Eu não diria que é o único caminho. Há alguns artistas independentes que atingem os seus objectivos utilizando outros métodos. No entanto, creio que o Kickstarter é o ponto ideal para a minha música. Os lançamentos financiados desta forma são também um modo de me conectar com as pessoas que se importam com aquilo que faço. Para além do mais, faz-me sentir alguma dignidade em todo o processo. Tal como já referi, há cinco anos eu estava completamente frustrado com o facto de as pessoas levarem a minha música sem pagarem por ela. Tive que viver com isso, e de trabalhar no meio disso, até descobrir uma “avenida” como o Kickstarter. Um sítio onde me pude envolver com pessoas que respeitam o meu trabalho como artista. Foi algo inspirador e, simultaneamente, uma fonte de rendimento. Tem sido fantástico de diversas maneiras.

O EP “Bike Shop” conta com a colaboração de Michael Plaster, vocalista dos Soul Whirling Somewhere, uma banda que me chegou aos ouvidos nos anos 90 através da tua editora, a Projekt. Gostava de ficar a saber o como e o porquê desta colaboração neste momento.
Quando estava a compor o tema “Bike Shop” apercebi-me de que era uma canção perfeita para o Michael cantar. É uma história intimista sobre um amor perdido, uma reflexão sobre o amor. Esta é, indubitavelmente, a área em que o Michael se especializou com as suas letras. Eu lancei todos os álbuns de Soul Whirling Somewhere, na Projekt, e ouvi-os centenas de vezes. Sei bem onde o Michael Plaster gosta de ir e onde se sente confortável, poeticamente falando. Senti-me um pouco como um daqueles compositores dos velhos tempos, compondo canções para uma estrela que vai aparecer no meu espectáculo. Escrevi as letras dos outros três temas numa semana, contando um pouco mais da história por detrás de “Bike Shop”. Há ideias que vieram directamente da minha vida real (é verdade, eu fui deixado via mensagem de texto!). Há outras partes que inventei. Gosto da forma como as coisas acabaram por soar, tudo muito real e pessoal.

Hoje em dia, como é que escolhes novas bandas para o catálogo da Projekt? Qual é o tipo de som que procuras?
Na realidade, não tenho acrescentado muitos artistas à Projekt ultimamente. O contrato mais recente foi com os Mercury’s Antennae. Eles têm uma sonoridade que encaixa perfeitamente na editora. Na voz está a Dru, dos This Ascension, e o Erick trata das guitarras e da electrónica. O som deles assemelha-se ao dos Lycia nos anos 90, com um pouco de 4AD à mistura. São a banda perfeita para a Projekt.

Para ti, quais são as grandes diferenças entre uma major e uma editora independente?
As majors têm imenso dinheiro e colocam toneladas de discos no mercado com a esperança de que uma ou outra banda seja um sucesso estrondoso. As editoras independentes perdem mais tempo com um grupo restrito de artistas, tentando sustentar as suas carreiras. Pessoalmente, não sou anti-major. Boa parte da música que adoro foi lançada por majors, tendo em conta que estamos a falar dos anos 70 e 80. A Warner arriscou e apostou nos Devo, por exemplo. As majors estiveram por detrás de nomes como Gary Numan, Peter Murphy, Soft Cell ou The Cure. Não se pode deitar isso abaixo!

Nomes como Lycia, Love Spirals Downwards, Peter Ulrich, Thanatos ou Autumn’s Grey Solace foram referências da Projekt. Ainda tens contacto com todos eles? De que é que costumam conversar normalmente?
Sim, sem dúvida, é lógico que mantemos o contacto. Estava agora mesmo a conversar pelo Facebook com o Pat, dos Thanatos. Claro está que o conheço desde o liceu, por isso, estamos a falar verdadeiramente de um amigo, para além do membro de uma banda que costumava lançar discos pela Projekt. Na realidade, eu e o Pat estávamos a conversar sobre a campanha do “Bike Shop” no Kickstarter. Relativamente às outras bandas que referiste, falamos mais sobre royalties, ou sobre propostas para participar numa compilação. Por falar nisso, há um tema dos loveliescrushing que vai entrar numa compilação de shoegaze que a Cherry Red Records vai lançar em formato de caixa.

Ao longo dos anos, tens vagueado de um lado para o outro. Da Florida para L.A., de L.A. para Chicago, depois mudaste-te para Nova Iorque e agora vives em Portland, no Oregon. Todas estas mudanças reflectem-se, de alguma forma, no teu trabalho?
Tenho muita sorte pelo facto de a Projekt poder operar a partir de qualquer cidade. A maior parte das pessoas sente imensas dificuldades em desenraizar-se de um sítio para ir viver para outro. Tive igualmente muita sorte pelo facto de a mãe do meu filho e eu continuarmos a ser amigos. Só assim conseguimos orquestrar uma mudança destas. Atravessar o país de uma ponta a outra, recomeçar as nossas vidas e vê-lo crescer. Eu diria que a forma como Portland se reflecte no meu trabalho é através do tempo. Agora eu tenho tempo para fazer arte, porque Portland é um sítio fácil e pouco dispendioso para se viver. Em Brooklyn toda a gente anda enervada e preocupada em ganhar o suficiente para poder continuar a viver em Brooklyn. É verdadeiramente esgotante! Em Portland tenho o tempo e a cabeça para fazer arte. Gosto muito disto.

Interessas-te por áreas como a filosofia, a pintura ou a literatura? Tens algum hobby artístico fora da música?
Acho que, nos dias que correm, já não sou um grande fã de pintura ou de literatura. Gosto de ler coisas sobre psicologia. Coisas sobre o espírito humano, mas mais no sentido de tentar encontrar formas de realização interior, como acontece com a arte. Gosto de descobrir coisas na minha própria mente que eu possa apagar e refazer de uma maneira melhor.

Vais continuar a utilizar fotos tiradas pelo teu filho como capas de discos da Projekt, à semelhança do que já aconteceu com o primeiro álbum de As Lonely As Dave Bowman? O teu filho também se interessa por arte como tu?
Ele está muito mais interessado nas engenharias e em tecnologia. Em arte nem por isso. Olha, toca guitarra clássica muito bem, mas quer desistir disso neste momento. Quanto às fotografias, claro que as utilizaria. Mas, para isso, ele também vai ter que as tirar. Eu cheguei a pedir-lhe que fotografasse para a capa do álbum “Monolith”, de As Lonely As Dave Bowman. Porém, enquanto lhe ia atirando a câmara para as mãos, eu próprio reparei em algo interessante, fotografei-o, e isso tornou-se na capa do disco. “Desculpa, meu filho. Acabei de ficar com o teu emprego!” (risos).


sobre o autor

Pedro Gomes Marques

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