Para ter uma boa dose de grind escarrado com a devida cólera, há que ter um certo grau de frustração para com o que nos rodeia. Vendo por aí, até podíamos todos andar a fazer grind, portanto, aí tem de entrar o talento. Os Peste Negra, projeto algarvio, descarregam uma boa dose em “Finitude”, um novo registo que mistura novos temas originais com surpreendentes remixes de temas já conhecidos. Sente-se a raiva, até mesmo pelo panorama que, infelizmente, pode colocar o futuro da banda em jogo. Ninguém melhor para explicar este aventureiro disco como Verme, aqui muito esclarecedor e cheio de honestidade.

Antes de falarmos sobre o disco propriamente dito, mesmo que tenha causado bastante mossa, vamos situar-vos. Geograficamente, mesmo. Parece que recorremos menos ao Algarve ao enumerar “cenas” e o certo é que, quando pensamos em bandas algarvias, começamos a lembrar-nos de muitas, todas muito boas e de estilos completamente diferentes. Como definirias a cena underground algarvia?

Verme: Honestamente, a cena underground algarvia hoje em dia está muito adormecida, para não dizer quase morta. Houve tempos, nos anos 80, 90 e mesmo no início dos anos 2000, em que o Algarve tinha uma vitalidade enorme e uma identidade muito forte no metal, da qual os Inhuman (que ainda continuam no ativo) são o exemplo perfeito e a prova viva dessa era.

Hoje o panorama é bastante desolador. Por um lado, praticamente não existem espaços nem salas de espetáculo com condições para acolher concertos de som extremo. Por outro, vemos uma proliferação enorme de bandas de covers e tributos. Muitos músicos acabam por optar pelo caminho mais fácil e rentável, até porque manter uma banda de originais exige um investimento financeiro brutal, onde quase tudo sai do nosso próprio bolso.

A somar a isto, sentimos que o próprio público muitas vezes prefere deslocar-se para ver bandas que vêm de fora em vez de apoiar e marcar presença naquilo que é produzido cá dentro.

Não sabemos determinar com precisão todos os fatores — se é falta de vontade, comodismo ou o facto de noutras zonas do país haver maior aceitação —, mas a verdade é que fazer metal autoral no Algarve tornou-se um ato de pura resistência.

Falando agora do álbum… Porquê “Finitude”? E é evidente que há aqui muita raiva e cólera, mas algo de específico inspira as letras?

“Finitude” representa o limite inevitável, a decadência e o fim da existência humana. A inspiração vem da podridão do quotidiano: a degradação mental e a frustração com o rumo da sociedade. É a raiva canalizada para a realidade crua de que tudo o que construímos está condenado a decompor-se.

Em comparação com o que tinham feito antes, que evoluções notam quando ouvem o trabalho novo? O que consideram que vos tenha influenciado, à vossa volta e no vosso dia a dia, para “Finitude” ser como é?

Para o “Finitude”, optámos por explorar um som diferente e uma abordagem mais limpa em termos de produção. Experimentámos imensas coisas novas: explorámos tons e dinâmicas de voz totalmente diferentes, guitarras mais agressivas e composições mais elaboradas, para não ficarmos estagnados no que tínhamos feito no “Parasita”. A própria bateria foi gravada por um baterista diferente (Sebastien Matias), o que trouxe um novo registo e uma nova dinâmica ao álbum.

A nossa intenção no dia a dia foi desafiar-nos e não entregar “mais do mesmo”. Achamos que conseguimos elevar o nível da banda, mas, no final, cabe aos ouvintes dizer se o objetivo foi cumprido.

Esta divisão do álbum, com uma metade de originais e outra de remixes, foi algo que predeterminaram antes de começarem o trabalho, ou as coisas foram sucedendo assim, de forma simultânea, e viram que fazia sentido juntar tudo num só registo?

Não foi algo planeado desde o primeiro dia. A ideia partiu de mim e surgiu de forma muito natural. Estava a ouvir o “Remanufacture” dos Fear Factory – sou um enorme fã de sonoridades industriais dos anos 80 e 90, de projetos como Godflesh, Ministry, Nine Inch Nails, KMFDM ou Pitchshifter – e pensei: “por que não agarrar nos temas que já tínhamos gravado no EP anterior e no nosso primeiro single e dar-lhes uma roupagem totalmente diferente?”.

Agarrei nas faixas de voz que tínhamos gravado anteriormente e comecei a trabalhar nessas remisturas, mudando completamente a sonoridade e desconstruindo a estrutura para criar essa vertente eletrónica e industrial mais fria e mecânica. Quando mostrei o resultado ao Carrasco (vocalista) e ao Sebastien (dono do estúdio), fez-nos todo o sentido juntar tudo neste álbum.

Eu não sou muito de me cingir a regras. Se me apetecer misturar temas de vários estilos, é exatamente isso que farei. Se vai chocar o ouvinte, não me importa minimamente.

Este gosto que também mostram pela sonoridade industrial já garante que é algo que voltarão a abordar no futuro? Sempre assim na forma de remixes, ou até é de considerar fazer a fusão das coisas, assim mais à Grunt?

Honestamente, o futuro por agora está fechado. A banda, a custo próprio, não fará mais nenhuma edição de autor. Já gravámos cerca de vinte temas ao longo de todos os nossos trabalhos, tudo suportado do nosso próprio bolso e num processo que tem sido quase o trabalho de um homem só, desde a composição e gravação até à promoção online.

O cansaço começa a acumular-se inevitavelmente por não vermos grande retorno de todo o esforço e dedicação que investimos. Por isso, depois do “Finitude”, os Peste Negra vão entrar num hiato por tempo indeterminado no que toca a gravações de estúdio. Se no futuro surgir alguma editora verdadeiramente interessada em promover o nosso trabalho, ponderaremos regressar a um estúdio para gravar; caso contrário, a história fica por aqui.

As remixes foram feitas por vocês ou têm colaboradores? Acham que, depois disto, no futuro, há potencial de terem atos a “bater-vos à porta” para vos fazer novos remixes a temas vossos?

As remixes foram todas feitas por nós. Se o futuro trará outros atos a bater à porta para remisturar temas nossos, sim, quem sabe… Não fechamos a porta a colaborações. No entanto, como disse anteriormente, a banda não voltará a gravar edições de autor do próprio bolso. Por isso, qualquer colaboração ou projeto futuro só acontecerá se houver um interesse real e suporte de fora para o concretizar.

Para além da conveniência geográfica, o que vos levou a escolher o Miguel Volmer (Apocalypse Conspiracy) e o João Pedro (Inhuman) como convidados?

Acima de tudo, são amigos nossos e músicos por quem temos um enorme respeito pessoal e profissional. Estão à frente de projetos algarvios com um peso enorme e excelente trabalho em curso: o João Pedro nos históricos Inhuman e o Miguel Volmer nos Apocalypse Conspiracy. Por isso, a escolha foi muito natural.

Para além da conveniência de estarmos na mesma região, sabíamos que trazer a identidade, a técnica e a linguagem de guitarra de cada um deles seria uma enorme mais-valia para a nossa música. O toque do Volmer e do João Pedro trouxe uma nova cor, uma dinâmica diferente e uma roupagem muito mais rica e técnica aos solos e arranjos dos temas em que participam.

O Leviathan Recording Studio continua a ser a vossa casa para gravar. É o ambiente ideal para atingirem o que querem? Existe algo na vossa sonoridade que ainda seja condicionado ou favorecido por fatores como espaço ou equipamento?

O Leviathan Recording Studio é um espaço totalmente subvalorizado. Muita gente não conhece verdadeiramente o trabalho, a dedicação e o profissionalismo do Sebastien. É uma pessoa de uma paciência incrível em todo o processo de estúdio, sempre pronto a aconselhar, a dar ideias e a experimentar coisas novas para levar o produto final mais longe.

Para além disso, o estúdio está extremamente bem equipado, com material de grande qualidade, e o Sebastien tem sempre uma grande disponibilidade para gravar e moldar o som com calma. Desde que começámos a trabalhar lá, já várias bandas foram gravar ao estúdio por recomendação e pelo resultado do que ouviram. Só queremos que ele tenha cada vez mais oportunidades no futuro, porque o talento, as condições e a entrega que estão ali merecem ser amplamente reconhecidas.

Já há um tempo que procuravam recrutar músicos para levar a vossa música para os palcos. É algo para se materializar, especialmente com estes novos temas, e podemos ter a esperança de ver os Peste Negra ao vivo num futuro próximo?

Essa é uma questão polémica. A verdade é simples: nós temos músicos para a formação de palco, falta-nos essencialmente um baterista. Não sei o que se passa hoje em dia com o pessoal que toca bateria aqui na região, se é falta de empenho, preguiça ou se simplesmente só gostam de tocar o básico. Aqui no Algarve a situação é ridícula: ou tens os mesmos dois ou três bateristas a tocar em várias bandas ao mesmo tempo, ou então estão-se a cagar para bandas de originais e preferem ir tocar covers para os bares da noite.

Chegámos a ter uns gajos interessados que quiseram entrar, mas depois, na hora da verdade, nem conseguiam acompanhar um D-beat ou um blastbeat nas músicas. Tivemos convites para tocar ao vivo e nós queríamos muito, mas não está tudo nas nossas mãos. O Algarve é um meio muito pequeno e o pessoal tem sempre uma desculpa qualquer para não ir mais longe.

Por isso, podem esperar, mas tem de haver pessoas com vontade e verdadeiramente comprometidas. Se houver por aí alguém a ler esta entrevista que seja baterista a sério, tenha unhas para a coisa e queira assumir o posto, que nos mande mensagem. Não precisa de ser do Algarve, desde que queira trabalhar a sério.

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