Leonard Cohen: O grande bardo apolíneo canadiano

por Arte-Factos em 20 Novembro, 2016

Tornou-se já chavão dizer que 2016 soma e segue em matéria de desaparecimento de vultos da música popular. Pois bem, desta feita foi Leonard Cohen que nos deixou – ainda que tenha deixado pré-aviso nos últimos tempos, em entrevistas e mensagens da família. Menções no feed de Facebook à parte e fãs que nasceram de repente, tratou-se de mais uma comoção geral que aproximou quem realmente gosta de música.

Se com Bob Dylan assistimos à imortalidade formal da sua obra através da atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2016, com Leonard Cohen a via foi a da imortalidade informal – será sempre lembrado quando forem ouvidas as suas canções e lidos os seus poemas e textos.

O grande bardo apolíneo canadiano reencontra-se agora (esperemos) com Marianne e deixa para trás todas as angústias amorosas, espirituais e políticas que relatou na sua carreira. Goste-se dele mais escorreito, só com a sua guitarra nos seus trintas, ou com um coro e sintetizadores nos seus cinquentas, certo é que foi dos que elevou a música popular a um patamar de referência intelectual e a uma qualidade literária como poucos. Envelheceu bem, ultrapassou as crises financeiras e foi relevante até ao fim – ao vivo e em estúdio.

A nossa equipa deixa-vos algumas reflexões sobre a importância de Leonard Cohen para qualquer melómano que se preze. Agarrem-se à sua obra se tiverem de atravessar a escuridão.

The Partisan (Escolha de José Raposo)

Por vezes, as melhores canções dos maiores não são totalmente suas – é este o caso. Leonard Cohen, como erudito manipulador das palavras que era, traduziu La Complainte du Partisan, velha canção do resistente francês d’Astier de la Vigerie e da russa Anna Marly, fê-la universal ao retirar-lhe as referências à Segunda Guerra Mundial e cantou-a na sua voz inconfundível (que só melhorou com os anos), em Songs from a Room, disco espartano de meios, contendo uma rusticidade que esta canção bem representa.

Quando pensamos que é uma (belíssima) transplantação da original para o público norte-americano, somos agarrados por um coro que canta o original em francês, como se estivéssemos em 1940-44 – acompanhados do próprio Cohen e do seu dedilhar da guitarra. E de um acordeão, claro. De beleza fantasmagórica, fica a esperança de que, para os oprimidos, o vento da liberdade soprará por entre as campas, que nem o coro em “The Partisan”.

Hallelujah (Escolha de Cláudia Filipe)

A minha história com o Leonard Cohen podia ter começado com um disco empoeirado na minha infância, mas não. Tinha 13/14 anos quando comecei a ir à FNAC Service ao pé de minha casa encomendar álbuns porque os sacanas nunca tinham aquilo que eu queria, as FNACs grandes eram muito longe e as lojas de discos no meu bairro praticavam preços ridículos para uma miúda que só queria estoirar a mesada em música. Um dia mandei vir o “Grace”, que ainda hoje é o meu preferido, depois de ter “ouvido no imesh”, ou lá como aquilo se chamava, umas músicas do Buckley. E foi quando dei com os olhos cravados de lágrimas a ouvir a Hallelujah e quis ir saber mais sobre esta música que cheguei ao apaixonante mundo de Leonard Cohen. A partir daí, não mais parei e deixei-me levar. Perdi-me centenas de vezes numa discografia que me soube cativar, que me marcou e que guardo num cantinho muito especial na minha memória.

The Story Of Isaac (Escolha de Alexandre Pinto)

A minha tenra idade não me permite, como outros o puderam fazer, partilhar memórias passadas, tingidas pela nostalgia, ao som da música do Leonard Cohen. Sou demasiado novo. Do seu repertório, e de moto-próprio, apenas ouvi dois discos: o obrigatório Songs of Love and Hate, de 1971, e Songs From a Room, que o precede em dois anos. Antes destes, o meu contacto com a sua música foi mínimo: deu-se através de algumas compilações de Greatest Hits que a minha mãe teimosamente comprava, mesmo após as minhas fervorosas reclamações – “Músicas soltas desvirtuam o conceito de disco!” – e, mais tarde, com Ten New Songs, lançado em 2001, com a sua voz já bem mais desgastada, acusando a idade; de resto, este último foi executado em estreita colaboração com uma outra cantora, e apenas me ilustrou, vagamente e de passagem, algumas viagens de carro. A minha mãe, por outro lado, nutria por Cohen uma admiração inabalável: não tanto carinho quanto uma espécie de reverência, mesmo sem lhe conhecer os discos tal como idealizo a sua fruição. É um contacto distinto do que hoje a minha geração mantém com os seus ícones – são, simplesmente, outros tempos. E outros tempos passaram, até que cheguei aos dois Songs; as de amor e ódio, primeiro contacto intencional, sugeriram-me um contraste audacioso, mas foram as Songs From a Room que tomei como referência primária da sua música. É um disco simples, até com um conforto quase caseiro, desprovido de grandes adornos e produzido numa estética que bebeu pontualmente ao country e à popular americana; a sua voz não havia ainda encontrado o registo granular, grave, e possante, embora já dedicasse atenção à sua poesia, onde invocou a história bíblica de Isaac e Abraão e permitiu entrever, em Seems so Long Ago Nancy, o que seria um tema recorrente ao longo da carreira: a Mulher. Em comparação, Songs of Love and Hate é um tremendo abalo: logo ao início, surge-nos a guitarra tensa de Avalanche, em épico duelo com as cordas orquestrais, e quando por fim Cohen canta, podemos apenas imaginar o que sentiu quem esperou os dois anos entre os dois discos: Leonard apareceu já uma outra pessoa, como se tivesse vivido o dobro ou o triplo dos demais, golpeado e cáustico, impetuoso e confrontacional; e começou o seu feitiço da sua voz, que nos agarra a atenção e devolve, no final da canção, um ouvinte transfigurado, marcado por uma indelével impressão. Aqui se terá juntado o mito ao artista; e sobreviveria durante mais de trinta anos, reinventando-se progressivamente, até a um derradeiro momento, You Want It Darker, disco que ainda não ouvi, nem ouvirei tão cedo – quero, por enquanto, construir o meu próprio Cohen, com todo o legado que nos deixou.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura.

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