Partilha com os teus amigos
Cartas da Guerra
Título Português: Cartas da Guerra | Ano: 2016 | Duração: 105m | Género: Drama, Guerra
País: Portugal | Realizador: Ivo M. Ferreira | Elenco: Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira

Em 1971, com 28 anos e acabado de terminar o curso de Medicina, António Lobo Antunes foi mobilizado como alferes médico miliciano para uma comissão de serviço no leste de Angola. Aí conheceu a “atmosfera irreal, flutuante e insólita” da Guerra do Ultramar, que moldou de forma decisiva a sua futura obra literária. É sobre essa obra — ou parte dela — que se debruça Cartas da Guerra, um filme oficialmente baseado em D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra — uma compilação da correspondência de Lobo Antunes com a sua mulher —, mas que também vai buscar bastante a Memória de Elefante e Os Cus de Judas.

Reza a lenda que a ideia do filme nasceu quando o realizador Ivo M. Ferreira chegou a casa e ouviu a voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, a ler as cartas de Lobo Antunes ao futuro filho. A cena é tão visual e emblemática que encabeçou todos os artigos sobre Cartas da Guerra e ganhará sem dúvida o estatuto de trivia fundamental do cinema português.

cartas-da-guerra-1

Tal como na história contada por Ivo M. Ferreira, Cartas de Guerra abre com a voz de Maria José (Margarida Vila-Nova) a ler as cartas escritas por António (Miguel Nunes), numa torrente de palavras que cai sobre o espectador como as chuvadas impiedosas que destroem as picadas angolanas. É uma voz-off que se estende por todo o filme, e que contrasta com as imagens a preto e branco que reproduzem as experiências de António em África, ordenadas por sequência cronológica mas sem um aparente fio narrativo. Essas imagens parecerão certamente familiares a quem já leu os relatos de guerra de Lobo Antunes (não falta sequer o velho soba do Chiúme com a sua máquina de costura). Logo aí se percebe que há dois filmes dentro destas Cartas da Guerra. Nem sempre as palavras lidas por Maria José têm correspondência nas sequências apresentadas e nem sempre estas têm ligação entre si.

Visualmente o filme é esplendoroso e arrebatador, com uma extraordinária atenção ao detalhe. É impossível o espectador não se sentir esmagado pela beleza dos enquadramentos. Mérito para Ivo M. Ferreira e também para João Ribeiro, o responsável pela fotografia, que explora habilmente o contraste proporcionado pelo preto e branco. Embora tomada a posteriori, a opção pela renúncia à cor é absolutamente certeira.

Cartas da Guerra não é um filme de guerra. É um filme sobre guerra, à semelhança de The Thin Red Line (1998) ou, de certa forma, Apocalypse Now (1979). Uma guerra estranha e quase irreal, feita num território longínquo e inóspito perante um inimigo invisível. Sintomaticamente, poucos tiros são disparados ao longo do filme. Ao contrário dos combates ferozes que marcaram a guerra na Guiné e em certas zonas de Moçambique, no Chiúme a principal ameaça é a loucura, que vai rondando o aquartelamento como um animal necrófago em busca dos mais vulneráveis. Contra a ameaça da distância e da inacção, a correspondência com a metrópole é a única ligação dos soldados à civilização e uma certa forma de realidade.

É interessante que o filme, embora não renegando uma certa filiação política (evocada, por exemplo, pela presença simbólica dos Esteiros de Alves Redol ou dos folhetos clandestinos de propaganda do MPLA), consiga fugir ao cliché das abordagens cinematográficas e literárias à Guerra do Ultramar, tantas vezes marcadas por tentativas de expiação de pecados reais ou imaginários. Aqui, os soldados portugueses não são máquinas sanguinárias. São simples jovens, com os seus medos e aspirações, atirados de camuflado e G3 para um território desconhecido em defesa de um Império que muitos já não compreendem. Em entrevista ao Público, Ivo M. Ferreira revela que chegou a ser “acusado por um jornal de ter tratado muito bem os soldados”. A resposta do realizador não podia ser mais clara: “estou-me a borrifar para essa conversa. Isto é uma história de vítimas”.

cartas-da-guerra-2

Infelizmente, é da tentativa de ser uma adaptação demasiado literal da obra de Lobo Antunes que nascem as fragilidades do filme. A forma desconexa e descontextualizada como são apresentadas as diversas sequências, sem uma lógica narrativa aparente, replicam a escrita caótica e torrencial de Lobo Antunes mas limitam o possível alcance do filme. Nota negativa também para a edição sonora. Talvez pela dicção ou modelação vocal de Margarida Vila-Nova, nem sempre o conteúdo das cartas é totalmente perceptível.

António Lobo Antunes sempre se referiu à sua experiência de guerra em Angola como algo cruel, estúpido e traumático. É contudo a guerra que forja o carácter de António, a sua consciência política e a até as fundações da sua obra literária. Ao longo do filme, enquanto as restantes personagens nunca são mais do que um esboço, António vai ganhando consistência e maturidade através da sobrevivência. No fundo, é do desânimo e desespero do Chiúme que nasce a sua obra. Será que alguma vez teríamos Lobo Antunes sem o António no qual se baseiam estas Cartas da Guerra?


sobre o autor

João Pedro

Dissidente e subversivo por natureza. É benfiquista militante. Já desistiu de mudar o mundo e agora só tenta que o mundo não o mude a ele.

(Ver mais artigos)

Partilha com os teus amigos