YOU

por Edite Queiroz em 15 Fevereiro, 2019

A premissa é simples e bastante vulgar: Um gerente de livraria apaixona-se à primeira vista por uma cliente e fica obcecado por ela. You, série da Netflix adaptada a partir do livro homónimo de Caroline Kepnes, segue os passos de Joe (Penn Badgley) enquanto este segue os de Beck (Elizabeth Lail) e tenta por todos os meios conquistá-la. A sinopse insípida ganha interesse no duplo sentido do comportamento persecutório do seu  protagonista: a presa é perseguida não apenas nas ruas, através das vitrines dos cafés ou da janela de sua casa, mas através das suas contas públicas no Facebook, no Instagram, no Twitter, que se revelam mais instrumentais do que a vida real. Depois de um acidente oportuno que permite a Joe apoderar-se do telemóvel de Beck, o acesso à vida da rapariga passa a ser quase total e permite-lhe manipular tudo o que acontece à sua volta. O plano de Joe é isolá-la – das amigas, do namorado pouco recomendável – e tê-la inteiramente para si.

Nos primeiros episódios, o narrador insistente dá-nos a conhecer a vida e a personalidade de Beck, à qual vai tendo acesso através da sua extensa pegada digital. À volta da estudante de literatura empenhada mas desprovida de um talento demasiado evidente gravita um estereotipado grupo de amigas que mais se assemelha a um expositor de millennials urbanas: a menina tola, a menina rica, a digital influencer. Peach (Shay Mitchell), uma delas, utiliza o dinheiro e as inseguranças de Beck para exercer sobre ela o controlo que Joe ambiciona, acabando por formar com eles um improvável triângulo amoroso. A atitude protectora de Joe para com Paco (Luca Padovan, um garoto maltratado que vive no mesmo prédio) e alguns flashbacks do seu passado confuso (uma relação mal resolvida, um tutor abusivo outrora dono da tal livraria) sublinham uma fronteira fina entre o tipo simpático e o obstinado perigoso.

 

 

O desenrolar da trama oferece exclusivamente a visão de Joe, empático e sombrio, e apresenta-nos um protótipo do stalker dos tempos modernos que tem tanto de interessante como de assustador. Ao mesmo tempo que discute a fragilidade da privacidade na era das redes sociais, You aponta também os seus perigos e a exposição absurda a que estamos sujeitos enquanto nativos e migrantes digitais desinformados, ou pelo menos inconsequentes. Desse ponto de vista, a série tem um potencial pedagógico que não é desprezível e que produz certamente impacto no espectador, mas esse efeito desvanece-se ao longo da temporada, à medida que vamos observando demasiadas bizarrias relatadas do ponto de vista de uma personagem doente … De resto, o uso abusivo da voz off, o incessante monólogo interior de Joe no debate com as suas dificuldades, fantasmas, observações sobre Beck e a sua vida e referências literárias ocasionais, canaliza a narrativa para uma perspectiva única, empobrecendo o entendimento sobre as restantes personagens, que permanecem planas e sem textura, como se observadas à distância.

Ao longo da temporada, a narrativa revela uma série de incongruências e exageros que lhe retiram plausibilidade, e consequentemente, interesse: A dada altura, You é demasiado “americana” para resistir à tentação do sangue, do crime e da total psicopatia do protagonista, transformando a série num thriller psicológico banal a que já assistimos demasiadas vezes.


sobre o autor

Edite Queiroz

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