Narcos: 2ª temporada

por Rita Torres em 29 Dezembro, 2016 © Narcos / Netflix

Na sua primeira temporada, Narcos retrata a ascensão de Pablo Escobar. A segunda, porém, segue uma curva descente. Quanto ao desvio padrão, ambas as temporadas exibem uma qualidade que vai muito além da média.

A temporada inicia-se com a fuga de Escobar (Wagner Moura) da prisão – ou, como quem diz, uma luxuosa estância de férias. Vem absorvido pela determinação de reconstruir o seu império. Para isso, terá de lidar com o presidente Gavíria (Raúl Méndez) – implacável na luta contra o narcotráfico -, com outros grupos de narcotraficantes e também com a própria família. Está montado o jogo de xadrez que nos cola ao ecrã de maneira exímia, não só pelo enredo, mas também pelo elenco. E isto, quando já se sabe de antemão o desfecho, é obra.

Talvez um dos plot twists mais marcantes e simbólicos seja aquele que envolve o agressivo coronel Carrillo (Maurice Compte). Em desespero de causa, as forças políticas acordam em chamar Carrillo, que, do exílio, volta para defender a nação de Escobar. Vemo-lo então a dar aso às mais infames tropelias em nome da caça ao homem. Mas o tabuleiro volta-se ao contrário, e lá está novamente Escobar a ganhar o jogo, matando o coronel pela própria mão. Fica a questão: Escobar era um assassino, capaz das maiores atrocidades, mas até que ponto se justifica que o Estado colombiano tenha respondido na mesma moeda?

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À medida que a pilha de corpos aumenta, a trama vai-se tornando mais  complexa, numa teia que difere da primeira temporada, em que a DEA corria um trajecto bem mais linear na caça aos narcotraficantes.

A profundidade desta segunda temporada em muito se deve à incrível interpretação de Wagner Moura. Escobar não é apenas uma gangster, apelidado de monstro. É também um pai de família, afectuoso, por sinal. Um homem que se preocupa com os mais pobres, enquanto também os usa para seguir com o negócio. Um homem que tanto brinca com os filhos no jardim, como mata, sem hesitações, quem lhe for um obstáculo. Caracterizar Escobar como um barão da droga, de “mini moustache”, com um acentuado travo de psicopatia seria, no mínimo, redutor. E para lhe imprimir esta humanidade, Wagner Moura não poupou em silêncios ou em olhares que falam por si próprios. Coppola ou Scorsese reconheceriam bem este tipo de gangster.

A tensão mantém-se ao longo dos 10 episódios, em parte com ajuda de pequenas histórias, como a da mãe que se vê envolvida na rede de Escobar, sem querer. Ou até do próprio relacionamento de Escobar com o pai, tão bem retratado perto do fim.

O final da segunda temporada não é surpresa, uma vez que a série tem uma forte componente documental. Escobar morre, no decorrer de uma operação de busca. Mas o narcotráfico fica, tanto quanto sabemos, até aos dias de hoje, estruturando a sociedade colombiana actual. E apesar de já sabermos o que acontece, queremos ver mais.

Em 2017 e 2018, os realizadores far-nos-ão a vontade com mais duas séries de história ficcional do narcotráfico. E nós mal podemos esperar, não fosse esta série do tipo aditivo.


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Rita Torres

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