Sam Mendes: Uma reflexão americana

por Joao Torgal em 22 Outubro, 2012 © Joel Ryan/Invision/AP, File

Sam Mendes é daqueles realizadores que conseguiu aliar aclamação crítica e impacto mediático logo na primeira longa-metragem. Galardoado com 5 Óscares em 2000, entre os quais, filme, realização e actor principal para Kevin Spacey, American Beauty era um retrato cínico e desencantado (e também bonito, de uma forma invulgar) de uma certa classe média da América profunda marcada pelo vazio, pela ausência de ideais e por relações humanas profundamente distantes e/ou excêntricas.

Com resultados frequentemente felizes e com variações bem interessantes, os traços evidenciados no filme de estreia repetiram-se em grande parte da filmografia de Mendes. Houve globalmente uma preocupação de retratar hipocrisias sociais e personagens complexas envolvidas numa teia de aparência falsa, mas sem descurar a existência de sentimentos nobres e fraternos. Tome-se, como exemplo, o sacrifício pessoal e o amor paternal do gangster Michael Sullivan (Tom Hanks) no belíssimo e altamente emotivo Road to Perdition, filme que conta, já agora, com uma bela banda-sonora de Thomas Newman.

De forma mais real ou metafórica, outro dos pontos fortes da obra deste realizador é a questão da fuga, do escape à realidade. Este era o desejo dos casais deRevolutionary Road (Kate Winslet e Leonardo Di Caprio) e Away We Go (John Krasinski e Maya Rudolph), em busca de um conforto desconhecido e imaginário, de uma felicidade não traduzível e não facilmente identificável. Pena que o último filme, lançado em 2009 e possivelmente o mais fraco da obra de Mendes, seja quase uma sombra pobre e simplista do anterior, vivendo à deriva entre essa ideia primordial e um certo non-sense cómico globalmente inconsequente e só a espaços eficaz.

Skyfall é a sexta longa-metragem de Mendes (pelo meio, houve ainda Jarhead, de 2005). Para quem tem uma marca cinematográfica de reflexão sobre a América e sobre algum existencialismo da condição humana, é difícil não enquadrar esta estreia na saga (eterna?) de 007 como um desafio bem diferente na carreira do cineasta. Convenhamos, não será fácil, em teoria, encontrar grandes pontos de contacto entre as obras anteriores e um filme de acção mais descartável à escala de Mr. Bond.

A questão está em perceber se será apenas Sam Mendes a adaptar-se de forma óbvia ao género ou se, pelo contrário, vai proporcionar um novo rumo a uma série cinematográfica que, para o bem ou para o mal (as opiniões dividem-se bastante), já sofreu uma forte alteração de estilo com a entrada de Daniel Craig para a interpretação do agente secreto britânico. Veremos…


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Joao Torgal

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