Reportagem


Vodafone Paredes de Coura

Ao quarto dia de festival, o cartaz estendeu-se nos géneros mas não perdeu pedalada.

Praia Fluvial do Taboão

19/08/2022


© Hugo Lima - https://www.facebook.com/HugoLimaPhotography

Ao quarto dia do Vodafone Paredes de Coura, era preciso algum descanso mas também um aumento da diversidade das propostas em cartaz. E foi mesmo isso que aconteceu, com a indie pop doce de Arlo Parks, a pedalada techno experimental de Kelly Lee Owens e o peso do garage rock de Ty Segall & Freedom Band.

Enquanto o glorioso colectivo devoto do Eurodance (conflito de interesses, bem sabemos) tinha uma excelente casa na casa nova do Xapas Bar (agora Lounge – e tem sandes!), o ciclo de concertos no recinto do festival continuava que nem uma máquina. Foi um dia que começou cedo e acabou tarde, como se quer.

 

Baleia Baleia Baleia

O duo composto por Manuel Molarinho no baixo e voz e Ricardo Cabral na bateria tinha já actuado na rubrica O Festival Sobe à Vila uns dias antes, mas quis o destino que subissem de estatuto para o palco secundário. Sorridentes e tremendamente contentes por estarem ali (melhor só em discurso de Miss Universo), os Baleia Baleia Baleia foram suficientemente ambiciosos para tentarem o feito de ficarem na galeria de duos roqueiros mais icónicos da História do festival (como por exemplo os Japandroids e os Death from Above 1979).

Atrevidos e unidos, sabiam da importância do momento (“mentiria se disse que não era um sonho tocar aqui”, disse Molarinho) e irromperam pelo seu repertório. A irreverência de canções como Quero Ser Um Ecrã ou Venham As Máquinas, que incidem sobre a alienação e sobre o fulcro de uma luta, dá-lhes vantagem num palco como este, que paulatinamente se foi enchendo e reagindo bastante bem à obra da dupla.

Se antigamente havia a caça à baleia por cá, desta vez foram as baleias à caça com o seu arpão de rock’n’roll. E capturaram os presentes para a sua celebração.

 

 

Arlo Parks

A cantautora britânica, que tem por nome Anaïs Oluwatoyin Estelle Marinho e que nasceu já neste século (a idade é para aqui chamada, mercê da sua maturidade musical), mexe-se pelos territórios do indie pop e teve uma estreia benfazeja em Paredes de Coura. Não se fez rogada e correu e saltou para a frente do palco e dali mais não saiu até que o objectivo, a rendição da plateia, fosse atingido – e não tardou que tal sucedesse.

Desengane-se quem pensa que a suavidade da sonoridade das suas canções é sinónimo de leviandade. Green Eyes, sobre as complicações de um amor fugaz, é uma digna herdeira da pop urbana britânica de Lily Allen. Na mesma veia, ainda que numa cor e ritmos diferentes, vai Bluish, que lembra, ao longe, uns Morcheeba de início de carreira; o refrão de Caroline teve acompanhamento do público, com Parks a esbracejar e a bater no peito, como quem sente verdadeiramente as suas canções.

E quem serviu de inspiração para Arlo Parks? A mesma revela, ao apresentar Black Dog, que esta canção tem no seu ADN House of Cards dos Radiohead. Acima falávamos da profundidade das canções de Arlo Parks e Black Dog é exemplificativa: é um retrato verosímil e pleno de força sobre viver com alguém com depressão – patente em versos como “[…] Let’s go to the corner store and buy some fruit, I would do anything to get you out your room, just take your medicine and eat some food, I would do anything to get you out your room, it’s so cruel what your mind can do for no reason […]”.

A primeira parte do concerto foi uma demonstração de que Arlo Parks é bem mais do que uma cara nova que faz umas canções que soam bem ao cair do Sol. Por sua vez, na segunda parte o registo foi de mostrar os êxitos, como Hurt e Hope.

Nesta última, ocorreu uma falha de som, que deixou apenas os instrumentos e que ocultou a voz. Não havia que temer, já que o público desatou a cantar o refrão, como meio de chamar subtilmente (!?) a atenção de Parks e da sua banda para os problemas de som.

Nem isto conseguiu manchar um concerto bem conseguido e merecedor de menção honrosa. Softly lá vai Arlo Parks levando a água ao seu moinho.

 

Em plena hora de jantar entrava em palco Kelly Lee Owens, a produtora galesa que se tem afirmado como nome relevante pelos terrenos do techno arraçado de dream pop. Tremenda actuação, que tem direito a texto próprio.

 

Ty Segall & Freedom Band

O californiano Ty Segall é um prolífico homem da Renascença do rock de garagem. Também ali espalhou magia por mais de uma ocasião, lembrando-se com particular saudade o concerto, em 2015, do projecto do qual é baterista, os Fuzz.

Desta vez apresentou-se com a Freedom Band, composta por camaradas de sempre como o igualmente talentoso Mikal Cronin. E com um disco diferente: o novíssimo, Hello, Hi, que não é um disco de RUOCK para fritar, mas sim para cozinhar em lume brando. Nada disto interessa ao pit, que se mexia com praticamente tudo o que fosse riff saído da sua Travis Bean.

Composições como Over e Looking At You revelam um lado mais rootsy de Segall e menos da violência do fuzz. Afigura-se que nesta altura do campeonato se virou mais para os Blue Cheer e Sir Lord Baltimore e menos para os The Sonics ou os Osees ou lá como se chama o bebé de John Dwyer hoje em dia (que já voltava ali ao Taboão).

Uma Fanny Dog algo diferente da versão em disco confirma que Segall quer agora ser uma espécie de Tom Petty dos zoomers, mais introspectivo. Dá-nos o que quer dar e não o queremos que nos dê, ainda que “aqueles” solos continuem por lá.

Tal foi o caso de Sleeper, agora uma autêntica raga, alongando-se por vários minutos – Ty Raga em vez de Ty Jarda. Das ragas de garagem para as melodias de My Lady’s On Fire, que fechou o concerto. Não tão forte quanto as outra vezes que por ali passou, ainda assim Ty Segall e a Freedom Band (liberdade para mudar a bitola, como se viu e ouviu) conseguiram agradar ao público que queria era continuar a esgravatar o chão ali do anfiteatro natural.

 

 

Ata Kak Live Band

No after do quarto e penúltimo dia, um regresso a uma aposta certeira de Paredes de Coura nos últimos anos: a música africana (ou afrodescendente) de qualidade. Na anterior edição houve um espectacular concerto do colectivo congolês KOKOKO! e, desta vez, foi chamado à colação Ata Kak (aliás Yaw Atta-Owusu), músico ganês que, a dada altura da vida lançou uma cassete (composta e produzida por si), intitulada Obaa Sima, quando se encontrava emigrado no Canadá, mas que abandonaria a arte até ser redescoberto pela editora Awesome Tapes From Africa.

Ata Kak apresenta-se aqui com uma banda, que amplia o som original do disco, que soa a algo que José Pinhal ou os Ciganos D’Évora poderiam ter lançado. Descomplexado na sua postura em palco e no conteúdo das suas canções, lança o repto: “dançar não tem fórmula, dancem como quiserem!”. E a turba que enchia o palco secundário não se fez rogada.

Mais perto de um synth pop ganês do que da highlife e, mal Atta-Owusu começa a debitar as letras, aparentando-se com o hip hop e com o scat, como em Medofo e Moma Yendodo. Sempre acompanhada de uma variedade de passos de dança, a actuação de Ata Kak e sua banda é êxtase e sudação de fim de noite.

A custo, dado o divertimento que Obaa Sima incutiu no público (que repete o refrão e nem deixa o músico falar), lá consegue comunicar que a festa está perto do fim; com umas brincadeiras com um dos seus instrumentistas acenou vigorosamente e com um sorriso de orelha a orelha e retirou-se. Cremos que, pela vontade de todos, teria continuado até perfazer o tempo de voo até ao Gana. Ata Kak ao ataque!

 

Num dia de roleta russa de ora se está na cabeçada roqueira, ora se está na doçura da pop, ficaram lavrados em acta concertos que oscilaram entre o muito bom, o bom e o bastante razoável. Nada mau, tendo em conta os recordes dos dois dias anteriores.

A fasquia partia elevada para sábado, quinto e último dia de festival que contaria com lotação esgotada.


sobre o autor

José V. Raposo

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