Quem espera, sempre alcança e mais vale tarde do que nunca. Dois ditados que, no fundo, até significam a mesma coisa; se nem sempre se coadunam com a realidade, certo é que, quando algo de jeito acontece – o fim de um jejum de títulos, um diploma há muito ansiado, uma vitória qualquer na vida -, o foguetório verbal inclui um ou ambos. No que nos interessa, Portugal recebeu, após demasiados anos de espera, a visita em nome próprio dessa instituição do rock independente norte-americano chamada Superchunk.
Depois de um concerto de antologia em Coura há coisa de dois anos, foram “só” trinta e sete anos de espera para ver o quarteto norte-americano por si só, mais coisa, menos coisa. Oriundos de Chapel Hill, cidade universitária do estado da Carolina do Norte, os Superchunk são dos primeiros herdeiros dilectos da primeira vaga do rock alternativo, quando este ainda era denominado “College rock”. E muito tinham para mostrar, como uma amizade tardia com anos em barda para desfiar.
Fundados por Ralph Lee “Mac” McCaughan, vocalista e mago da guitarra e Laura Ballance (baixo) no ano da graça de 1989, contam, desde 1990, com outro guitarrista de excepção na pessoa de Jim Wilbur e com Betsy Wright e Laura King no baixo e na bateria, respectivamente, após Ballance ter passado a assegurar o pelouro do baixo apenas em estúdio e Jon Wurster, baterista de sempre, ter ido para outras paragens armado em reformado. Certo é que mesmo só com McCaughan e Wilbur nunca ficámos sem malhonas maiores do que a vida.
Há dois anos comemorámos os trinta anos de Foolish e este ano passam três décadas e meia desde que No Pocky For Kitty foi dado à estampa; naturalmente que esta celebração a dobrar bem que teria de passar muito pelo segundo. E também por Songs in the Key of Yikes, editado no ano passado e, como é óbvio, a constar na nossa lista pessoal de melhores discos de 2025.

Com um “boa noite” em bom português da parte de McCaughan, um agradecimento seu pela espera de mais três décadas por eles e uma Throwing Things de estalo deu-se início à mui ansiada matança de um borrego para lá de velho. Melodia, riffs, versos de eterna ansiedade alterna e uma versão que chutou para canto a de estúdio (gravada pelo saudoso Padre Albini, ainda por cima), foi uma bela chanfana sonora que formou o primeiro momento glorioso da noite.
Do clássico de 1991 deu-se um salto até 2025 com um par de canções de Songs in the Key of Yikes, Is It Making You Feel Something? e Care Less para logo de seguida se recuar novamente até ao ano de No Pocky For Kitty e uma monumental Skip Steps 1 & 3. O salto temporal foi grande e a intensidade é da mesma dimensão, numa notável lição de jovialidade – seja da banda ou da plateia.
Com efeito, o público era composto por conhecedores de pleno direito: fãs de longa data, de t-shirts coçadas que comprovam a devoção ao grupo de McCaughan e companhia e membros de bandas que são herdeiras da obra do colectivo de Chapel Hill. Uma casa que deveria estar a abarrotar para receber uma instituição registava uma plateia bem composta, suficiente para receber a visita de Estado de uma banda histórica.
Tratando-se de uma instituição sonora e, porquanto, de uma das grandes bandas de sempre, uma das suas características fundamentais é a de terem uma malha para cada assunto. Há de tudo em mais de trinta anos a virar frangos: sejam o tumulto emocional de Crossed Wires (uns quantos saltos e punhos ao alto num refrão com umas orelhas a que Mike Tyson chamaria um figo) ou o mel de Detroit Has a Skyline e sua premonição do fenómeno six-seven nos seus versos (“played track 6, track 7, again and again”), o catálogo de Superchunk tem de tudo para todos. Como se pode ver diante de nós, estamos perante realeza de t-shirt e guitarra alçada.
Se em Coura pouco tempo houve para percorrer a obra da banda, hoje houve tempo de sobra; um abraço neste ponto de encontro, para ver e ouvir material de uma carreira longa e profícua. Os Superchunk carregam consigo o legado de uns Buzzcocks (pela melodia que está no seu ADN artístico), de uns Replacements (pela sensibilidade emocional do seu material) e de uns Dinosaur Jr. (porque a dinâmica das guitarras remete para a irmandade slacker), sendo um colectivo fundamental para quem quer perceber o que é essa tal coisa do rock alternativo e das bandas que prezam a sua independência e que formam os seus próprios meios, como é o caso da sua editora, a Merge.
Mac McCaughan é um eterno puto, que salta sem parar (só da plataforma da bateria foram uns três saltos), qual miúdo a emular os seus heróis da guitarra no quarto – e ele tornou-se num desses heróis. Mesmo já não sendo esta a formação clássica da banda, Jim Wilbur ainda lá está, de ar professoral com óculos na ponta do nariz, revezando-se com McCaughan a discorrer não sobre cultura clássica, Direito Administrativo ou Epidemiologia, mas sobre acordes que entretanto se tornaram antológicos.

Quanto aos mais recentes membros, Laura King e Betsy Wright asseguram que nada se perde em matéria rítmica. Bem pelo contrário, King abrilhanta Everybody Dies, tornando-a numa portentosa bojarda capaz de deitar abaixo o que quer que seja.
Não sendo os Superchunk uma banda de veia particularmente política, não deixa McCaughan de relembrar que vivemos na era de Trump na Casa Branca, num pseudo-fascismo de pechisbeque. Não se ficou por aqui: após uns tragos de água, diz que “estamos aqui na pausa para hidratação” e de seguida manda esse nojo institucional que é a FIFA fornicar-se. Superchunk é para toda a gente, menos para a laia de vermes amorais.
Falamos de alguém que pugna pela independência artística e que fez por isso em vários planos: tocando e editando o que lhe dá na real gana. A sobredita Merge, criada por McCaughan e Ballance, é um bastião do rock dito alternativo há três décadas, nas suas edições pontificando um plantel de luxo composto por nomes como Arcade Fire, Dawn Richard ou Destroyer. Prelecção para quem se quer aventurar nisto: é assim que se mantém o assunto ao longo dos anos, sobretudo se não pretenderem enveredar pelo experimentalismo.
O tumulto mental de Crossed Wires apresenta uns Superchunk que, na altura (2011), estavam nos vinte anos de existência e eram já baluartes que confirmavam que são tudo menos formulaicos: aquilo é mesmo talento. A Gibson Marauder de McCaughan continua a revelar-se um instrumento de trabalho formidável, uma forja fiel que debita a ebulição criativa do mestre.
What a Time To Be Alive não poderia ter título e corpo mais apropriados e isto falando só deste ano: entre guerras e bola, muito nos contam estes dias, em que basta ser palhaço e vácuo nas redes sociais para se ser gente. E muito tocam os Superchunk, com a mesma urgência de sempre, essa verdadeira marca registada da banda.
Como já se estranhava a falta de material de Foolish no alinhamento, eis que McCaughan e companhia sacaram uma Driveway to Driveway magnífica. Se a vida é uma longa digressão e se as digressões das bandas são uma sucessão de episódios com uns copos pelo meio, nada como musicar a coisa num álbum que é um manifesto sobre montanhas-russas do espírito.
Se chegados até aqui ainda tivéssemos dúvidas sobre o assunto dos Superchunk, não era preciso ir mais longe do que Slack Motherfucker. Primeiro single da história da banda, tanto pode ser uma invectiva contra colegas que não fazem nenhum, quais seguidores de Robert Louis Stevenson na sua Apologia do Ócio, como pode ser um pirete a um engate que não se concretizou (mais a primeira, reza a doutrina). Certo é que é uma canção maior da banda, um estoiro para anunciar a sua chegada e a sua candidatura ao panteão de grandes bandas do indie rock, o bom – e para fechar em glória o alinhamento principal.
No retorno ao palco, foi-nos atirada uma maravilha chamada Mower, rolo compressor melódico vigorosamente martelado nas almas de quem lá esteve, seguido de mais magnificência de guitarras como Learned to Surf, uma irmanação sónica plena de McCaughan e Wilbur com J Mascis. Ao nosso redor, os connoisseurs rejubilavam com mais um apogeu num concerto que foi, ele próprio, uma explosão.
Como não se podia estar mais de alma e coração cheios do que se estava, eis Hyper Enough para encerrar uma enorme actuação. O berreiro de Mac McCaughan e os acordes que sacou selaram o fim do borrego de nunca cá termos tido Superchunk em nome próprio e deram início à inevitável saudade e consolidação da memória de um concerto magnífico. Mesmo com a ausência de muita coisa da set list (assim é com todos os grandes grupos, a não ser que toquem algumas quatro horas), a energia inesgotável e a entrega idiossincrática da banda constituíram uma noite memorável.
Como Séneca bem poderia dizer, é com coisas destas que dizemos que vivemos. Quem espera, sempre alcança e, lá está, mais vale tarde do que nunca.
P.S. – Que voltem e sem demora.