MENUMENU

Reportagem


Run The Jewels

A música não é uma competição. Ainda bem; ganhavam os Run The Jewels

NOS Primavera Sound

08/06/2017


Ninguém estava pronto para esta correria. A música não é uma competição, e ainda bem, mas ontem os Run The Jewels teriam ganho. E o supergrupo de hip-hop que junta Killer Mike a El-P parece sabê-lo. Quando o espetáculo começa, sob uma chuva de aplausos, a primeira voz que se ouve é a de Freddy Mercury e em pouco tempo todo o NOS Primavera Sound cantava “We Are The Champions.” É batota? Sim, mas ninguém parece importar-se.

“We are Run The Jewels”, na voz de Killer Mike quase soa a ameaça, mas o público veio preparado para corresponder com atitude e entusiasmo. À ordem “Fuck shit up”, não se inibiu de enlouquecer durante “Talk To Me”.

O concerto somava e seguia a grande velocidade. Pausas para respirar, se as havia, eram obra de uma legião de fãs que iria garantir com cânticos de “R.T.J.”  que os Run The Jewels não saíam do Porto sem vontade de voltar. Tarefa redundante, diga-se. Tanto El-P como Killer Mike alargaram-se em rasgados elogios à invicta, ao vinho e às suas gentes. “We are so fucking humbled to be here, in your beautiful city,” soou-nos a tanto a adulação como a sinceridade.

E podemos falar dos “fucking” por segundo – fps? – do discurso dos RTJ? Não admira que uma banda que usa um palavrão como vírgula se sinta em casa no Porto. A mudança de nacionalidade que prometeram – especifica para o Porto, porque isto é uma nação – é só mesmo uma questão de formalidade.

“Shareholders” junta aos fps uma dimensão politizada. “If you’re free make some noise,” e o Porto responde que a questão nem se põe para uma cidade nunca conquistada. Killer Mike, há que o dizer, é o intelectual do novo século. Um pós-moderno que não se perde na forma para passar uma mensagem. Até podemos estar a falar em termos como “mother fucking politicians”, mas sabemos que o apelo ao voto em Corbyn para parar o movimento anti-proletariado de Theresa May – palavras dele, não nossas – é um acto reflectido que tem pouca paciência para palavras vãs.

E por falar em palavras vãs, diz-nos El-P: “I’m quitting Run The Jewels and starting my solo spoken word career.” Não duvidamos do talento, mas não nos parece que o NOS Primavera Sound esteja de acordo.

Quando os RTJ saem de palco pela primeira vez em palmas, nem houve tempo para o público se impacientar pelo encore. “Usually we wait a little longer to pretend we are not gonna come out,” explica-nos El-P. Como já tínhamos percebido em Samuel Úria, os horários do Primavera são para cumprir.

O concerto termina em “Down” e o NOS Primavera Sound despede-se daquele que foi o grande momento do dia. Até aquela hora, os RTJ foram o que nos pareceu um oásis de energia. Os Justice bem tentariam dentro de horas alcançar a bitola, mas ficariam aquém.

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(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Jorge De Almeida

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