Reportagem


Mitski

Apresentou-se meio caminho entre jogadora de voleibol directamente de um anime e ginasta.

Praia Fluvial do Taboão

17/08/2019


© Hugo Lima / Vodafone Paredes de Coura 2019

Mitski Miyawaki, cantautora nipo-americana, deu um dos concertos mais enigmáticos do festival. Apresentou-se meio caminho entre jogadora de voleibol directamente de um anime e ginasta.

Uma mesa na frente do palco levantava alguma especulação: será que iria fazer cosplay do retrato de Fernando Pessoa de Almada Negreiros? Publicidade às fábricas de móveis de Paços de Ferreira? Um truque de luta livre? Dizer as notícias do dia? Logo veríamos.

Mitski distingue-se pelo conteúdo das suas letras (por vezes emocionalmente complexo) e pelo som que apresenta, flutuando como Kate Bush em tempos flutuava entre a pop barroca (Old Friend e Geyser) e o murro rockeiro (I Don’t Smoke) – quiçá por dilemas identitários da própria cantora. Porém, o que chama mais a atenção é a pantomina de Mitski no mobiliário que tem em palco.

 

 

Ela deita-se, ela faz bicicletas, ela estende-se como se estivesse a topar as carnes alheias na praia, ela senta-se como uma professora, ela esconde-se atrás da mesa, ela vai mudando vigorosamente ou vagarosamente de pose, consoante o que a melodia da canção lhe transmita. E, petulantemente, vira-se para os fotógrafos no fosso e lembra-lhes secamente que “já toquei três canções” ou, por outras palavras, “pirem-se” – o que fazem boas notas na Pitchfork.

Em virtude de certa aurora no palco Vodafone FM (sabe mais aqui), tivemos de abandonar o palco Vodafone enquanto Mitski se debruçava sobre outra canção rockeira do seu repertório de cinco LP, Townie. Saiu bem? Saiu, até porque é, como reza a letra, um taco de basebol musical. Pelo que viemos a saber, não houve nenhuma powerbomb de Mitski contra a mesa. Assim não se cumpre o rock’n’roll.

 


sobre o autor

José V. Raposo

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