Nesta era em que tudo o que é bicho-careta que se diz artista se sai com banalidades (quando não cavalidades) sobre “ToDa A aRtE sEr PoLíTiCa” e de acabar por passar vergonhas perante a insuficiência da mensagem que apregoa, ainda há quem se lembre de dar ao éter canções sobre a mente e seus tormentos, sobre as tragédias e os vícios e sobre a luta hercúlea pela sanidade e pela felicidade. No passado dia 22 de Janeiro, o Lisboa Ao Vivo recebeu os Militarie Gun e os Spite House, duas bandas especialistas em relatar as atribulações dos corações ao alto – e a encher os de quem os vê e ouve.

A noite era de estreia em nome próprio em Lisboa (e, na noite anterior, no Porto) e de passagem em revista da curta carreira de dois grupos que se têm distinguido nos últimos anos. Tendo as actuações de ambos como atractivo a apresentação dos seus trabalhos lançados no ano passado, respectivamente God Save The Gun e Desertion, havia, pois, que avaliar a evolução artística dos Militarie Gun e testemunhar o maremoto sonoro dos Spite House, que asseguraram a primeira parte. 

Formados por Max Lajoie (guitarra e voz), Marc Tremblay (bateria) e Nabil Ortega (baixo) e nascidos da tragédia da perda familiar de Lajoie, mas investindo sem medo e com todo o coração (a noite esteve mesmo para isso, de resto), os Spite House confirmaram as melhores referências que tínhamos deles. Tendo o aludido Desertion para apresentar, sem esquecer o disco homónimo de 2022, estavam as expectativas bem mais altas do que o pé direito da sala 2 do Lisboa Ao Vivo.

Muitas ganas e brilhantismo da parte do trio de Montreal, que construiu toda uma catarse ao longo de pouco mais de meia hora. Sim, catarse, essa palavra tantas vezes regurgitada em sede de promoção ou crítica musical enquanto referência a artistas e obras que envolvam berreiro desmedido, pantomina em cima de um palco ou simples desvario emocional enfadonho sem substância, aqui revelou-se como o termo certeiro para descrever a entrega da banda na interpretação de canções como Safe Haven.

O nome da banda, ainda que remeta para casas construídas por puro despeito para irritar vizinhos, acaba por ser sinónimo de uma descarga contra o trauma para quem caiu na ratoeira do desespero e da dúvida trazidos pela tragédia. Afinal de contas, os três acordes furiosos de canções como Stale Change ou Melt podem ser bom remédio. Mais se refira que a escola dos Title Fight (VOLTEM, C…) continua viva.

Com efeito, sem qualquer desprimor para Militarie Gun (como se verá), os canadianos mostraram que não foram simples aperitivo de uma banda de maior nomeada; antes confirmaram, pelo que distribuíram pelo PA, que foram uma das faces de uma moeda de tempestade emocional. Meia hora de síntese e catarse sónicas bastaram para mostrarem ao que vinham: os outros até podem ter “arma” no nome, mas o disparo de projéctil de grande calibre foi mesmo dos Spite House. Despeito? Nenhum. Poderio? Muito.

Após um soundcheck típico de banda de três acordes, dispensando o egocentrismo das grandes introduções e prezando o cumprimento dos seus deveres de pontualidade, pelas dez da noite estava toda a gente em palco: Ian Shelton (voz, guitarra acústica), William Acuña (guitarra), Kevin Kiley (guitarra), Waylon Trim (baixo) e David Stalsworth (bateria). Nem dois minutos depois começava a intempérie emocional de Militarie Gun, através da descarga de B A D I D E A.

Uma ode (assaz) orelhuda às dúvidas e erros da vida, apresentou cabalmente o som e o substrato (e a fúria) dos californianos: arautos do neo-hibridismo que não tem pejo em mesclar o post-hardcore e o Midwest emo e uma veia sónica tributária dos Happy Mondays, ainda que com golfadas de sangue na guelra que só a escola nascida dos Fugazi pode proporcionar. Se aquilo que vimos da banda de Los Angeles no Primavera Sound Porto 2024 já tinha sido promissor, aqui bateu de outra maneira.

Os teclados e guitarras acústicas que marcam God Save The Gun começavam a respirar e a agigantar a actuação. Uma retumbante God Owes Me Money marca o ideário dos Militarie Gun: confrontar e convidar aqueles que não têm nem empatia nem compaixão pelo próprio a colocarem-se no lugar do outro (“Things you’ll never remember/I lived through again and again and again”). Tudo isto muito orelhudo e a puxar ao punho cerrado no ar.

Foi mesmo isso que se ouviu em Pressure Cooker, canção a meias em estúdio com Dazy. Se Madchester pertence aos anais da História, o que os Militarie Gun aqui mostram é uma falta de vergonha criativa e uma senhora melodia que envergonha a tempestade que paulatinamente se intensificaria lá fora nas horas seguintes. Tal como aos compatriotas Turnstile, a falta de vergonha criativa faz-lhes um bem imenso – em estúdio e ao vivo.

“Esta é para todos aqueles que estão num combate contra o vício”. O tema das aflições da mente é recorrente e o do vício não foge à regra, aqui cabalmente retratado em Very High. O círculo vicioso e a guerra hercúlea são eximiamente retratados pelas Jazzmaster e Stratocaster de William Acuña e Kevin Kiley enquanto Shelton retrata e encarna essa luta sem quartel, contra as amarras daquela primeira pedrada incrível e irrepetível que condena à eterna perseguição da sua repetição, com os desastres humanos que se conhece.

Após um elogio em forma de confissão de que “é incrível vir ao outro lado do mundo ver gente que gosta das nossas canções” e observando-se a plateia, constata-se que a casa, ainda que a certa distância de lotada, está com o público que interessa: peralvilhos cuja farpela revela que sabem ao que vêm, com toda uma playlist de hardcore e post-hardcore em forma de t-shirts e sweatshirts de bandões. Em sintonia com o crescendo do concerto, responderam ao apelo de Ian Shelton e foram compondo um singelo mas sincero pit, no qual não faltaram sorrisos e os ululantes (são já parte integrante do som da banda), completamente inevitáveis quando se está perante malhas como Big Disappointment, cujo título é antinómico àquilo a que se assiste.

A ansiedade retratada nas letras reflecte a fervura no sangue de Shelton, que se vai entregando o mais que pode, ainda que lamentando a presença das grades que separam público e banda: “pedimos encarecidamente se podíamos tocar sem grades, que somos uma banda demasiado pequena para tocar com grades!”. Com efeito e não obstante a tanga sobre a pretensa falta de estatuto dos Militarie Gun (até já são patrocinados pela Fender), a grandeza daquilo a que o grupo de Los Angeles nos habituou nestes seus dois registos de longa duração já exige que as salas acedam aos seus pedidos, até porque a ausência de muros é condição sine qua non para a comunhão ritualística do punk que se quer entre as partes.

O humor de Kick (antecedido de uma diatribe sobre a suposta rudeza dos norte-americanos), conto sobre a amoralidade de quem nunca se arrepende, foi um verdadeiro pontapé sónico, seguido pela melancolia de Daydream, que contou com dedicatória especial de Shelton: “dedico a próxima ao meu avô, que morreu na semana passada e ontem [no Porto] não lhe consegui dedicar nenhuma canção e nem dormi a pensar nisso”, diz Shelton com ar de quem acabou de confessar um crime de pena gorda. Alçando uma guitarra acústica, lança-se à dita e leva-nos consigo, com os arranjos dos sintetizadores a darem um ar da sua graça e sendo uma rajada directa à alma.

A sequência tardia de Wake Up and Smile, Thought You Were Waving e Never Fucked Up Once foi uma montra in loco da força do catálogo da banda. Da melodia às letras está tudo à flor da pele, com (mais) um refrão orelhudo da última para todos os convivas seguirem com as gargantas: “What you say in a day and it’s televised/When you’re caught in your way with no alibi/When you wish you could stay, but you’ve been vilified/When the bloodthirsty mob, it expects a life”.

Uma pergunta para fechar o concerto: qual é o mal de acabar o concerto com a mesma canção com que se começou? Nenhum, que uma reprise de B A D I D E A que confirmou o crescendo global serviu também para ditar que nenhum muro deita abaixo uma alma incandescente: Shelton vem cá abaixo partilhar o microfone com goelas ainda desejosas de mandar mais uns berros num refrão brioso, como mandam as tais boas práticas do universo do punk. Serão ganho para todos, quem não apareceu que se arrependa.

Uma noite que demonstrou que ambos os grupos encarnam a ideia de que ainda que a vida possa ser uma inglória luta pela mera existência, como diria Schopenhauer, não tem de ser uma completa derrota e uma perda de tempo. Se no caso dos Spite House a atitude é a de um soltar de bichos clássico, no caso dos Militarie Gun é uma crescente curiosidade sónica que os vai elevando em relação aos pares, isto é, a de quem ainda não fez asneira uma vez que seja até agora.

Duas bandas que fizeram, cada uma de sua maneira, das tripas coração e das trevas luz. A luz ao fundo do túnel afinal não é um comboio.

Fotos por Hugo Rodrigues
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